sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Tormentas







Nas minhas mãos de primavera, eu adormeço a chuva.. 
Eu, aquela que apanha tempestades.. 
Aquela que sacia a sede com o sabor ocre da terra..
Aquela que planta procelas e colhe erupções.. 
Eu, 
que me visto de menina pra apanhar vagalumes distraídos.. 


(Certa vez, quis ser poeta, 
E quis, sim, ser poeta, nunca uma poetisa.. 
Como se não coubessem às mulheres também a escrita.. )


Quando enfim, quis, não por escolha, 
mas por distração exercer o caminho da poesia, 
disseram-me os sábios pudicos "de nada serve, poesia é como contar parafusos"
Mas a mim, senhores, coube ser poeta.. 
Porque a mim também coube certa inquietude.. 


Desenho versos para aplacar sentimentos que, às vezes, parecem incendiar minhas próprias vísceras 
Desenhos linhas como quem manipula um bisturi, douto no fatalismo dos cortes.. 
Pinto versos como quem colore um monograma.. e, quem sabe seja eu o monograma - essa poeta de pele entardecida.. 
Eu desenho versos na esperança única de encontrar pela estrada um poema perdido 
Não para lhe dar alento e um copo de água.. 
Mas sim, para afagar-lhe a testa como quem acaricia seu único filho.. 

Desenho versos na esperança de, um dia quiçá, no grande oceano dos fonemas achar-me naufraga!!!