sábado, 27 de novembro de 2010

A senhora e o tempo



o tempo alcança a senhora,
como é rude contigo.
tempo teu que finda no entardecer da vida.
e o que é a vida senão o tempo que passa.
lágrimas que ficam no teu rosto,
sorrisos que vi pelo vento,
amores que a vida faz.
ahhh o tempo contado em versos, 
tempo de melodias ao ouvido,
tempo que não te quero ver passar.
horas que escorrem no ponteiro dos relógios,
objetos inúteis a controlar a vida.
tempo...
 que o vejo estampado na face tua, senhora..


Foto: Daniela Possamai - Portugal


Naufrágio


E das cartas que me escrevias, amor, fiz tesouros de se guardar..
Letras tuas que perdi inteiras no grande naufrágio de mim..
Também teus beijos eram naufrágios..
 naufrágios nos mares de ti..
 E quando partias, barco à vela,
ficava eu no cais,
 rezando ventos de Iansã
pra te ver atracar de volta no porto,
o corpo meu que fizeste teu.



Foto: Daniela Possamai - Zakynthos

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Baladas e outros blues..


Como música desafinada canto-te
ópera no velho teatro da cidade.
Notas de um blues corrosivo 
que vai penetrando surdo a platéia.  
Tu foste a balada de amor de outrora.
Por ti fizeram-se as partituras 
e todas as notas de flauta doce.
Mas ontem, amor, resolvi não cantá-lo.
E foi então que solitária,
esperei muda 
que reclamasses minha voz..   


Pensamentos meus sobre ti




Teus beijos eu caçava feito borboletas.
 Coleções coloridas guardadas na caixinha da minha boca..




colori as nuvens todas. pintei um arco-íris de te fazer sorrir..



Espalha teus beijos pelo vento.. quero roubá-los cor, na tela invisível da minha boca..



Teu corpo sobre a terra e sob a chuva e o céu.. 
tu, como a justa metade de todas as proporções. 



Versos para o dia de chuva




A chuva era poesia líquida...versos gris que desciam do céu pra passear.
 
 

Aviões de papel



Eu fiz um poeminha meu de singelas sílabas.
Vou escrevê-las em aviõezinhos de papel ..
que é pra ver se elas viajam longe,
 se no vento,
chegarão às tuas mãos de menino.



Sílabas que fiz de ti - fragmento II



Tens tanta beleza, meu amor, que se eu fechar meus olhos,
estarás tu sorrindo,
desenhado na fotografia da minha memória!!



O beijo - Klimt

Sílabas que fiz de ti - fragmento I


O beijo - Munch
 

E essa história nossa é um filme antigo.
fotografado em preto e branco.
cinema mudo.
Bastam olhos para ouvir-te, amor..

Pérolas que te quero dar



Contempla-me ilha tua, neste oceano de sonhos.

Trago-te pés de areia e conchas sem poesia..

Pérolas que te quero dar deste mar...

esse mar de ti perdido..



Lençóis Maranhenses - Foto: Daniela Possamai




Adoro esse cheiro de chuva, que deixas em mim,

 impregnado na pele,

quando te vais..






Milagres de papel




olha atentamente na folha em que escreves,
nas linhas perdidas em que milagrosamente surgem teus versos..
Tu dá vida às folhas brancas, poeta!



Sacerdócio

E das lágrimas tuas caindo pela face, amor meu,
farei água benta..
pro sacerdócio de amar-te..


sábado, 20 de novembro de 2010

twiterianas - parte II



Meus lábios mudos a beijar-te no vento..
 Procuro-te na brisa, nesta brisa invisível, que às vezes, sonho ser teu perfume..



"E amor, quando fores, deixa os discos sobre a mesa. Quero ouví-los nas noites de solidão, nas noites em que eu abrir a porta e o teu chapéu não tiver entrado.."



Acordei um samba teu..
Ouço-te, faminta, nas batucadas..
Na avenida, o mestre-salas és tu a envolver minha saia..



A Rua dos Cataventos - Quintana



Na minha rua há um menininho doente
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola. . .

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente. . .
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente. . .

Mário Quintana

Sabor de terra nua


meu paladar cego te persegue..

e tudo o que te pedes..

é que deixes em mim...

esse teu sabor acre de terra nua..







Nota de rodapé: essas palavras de sabor me remetem a uma canção folclórica mexicana que  me encanta hace años.. chama-se Llorana... "Yo soy como el chile verde, llorona, picante pero sabroso."

Oração

 Feito prece,
 invoco teu nome que eu adoro!
 Sílaba a sílaba,
 vagarosamente,
 pronuncio todo meu universo..


Foto: Daniela Possamai - Firenze

Vô..






O tempo, cavalo de asas, corria veloz naqueles dias.
A própria vida voava, ciclópica, no teu rosto de avô.
Tuas linhas marcadas, teus anos de outrora..
Vozinho, teu óculos, tua bengala
teu contar dinheiro debaixo da maria-mole.
Visões da minha infância de menina..
No teu colo fazia meus temas
e as nozes que quebrávamos nas pedras..
as ovelhinhas que nasciam no inverno, pequeninas, indefesas..
e os cães que a gente amava..
quantos deles enterramos juntos, vô??
quantos anoiteceres vimos do nosso vale encantado??
Vô, meu vozinho querido,
hoje canto-te com voz de saudade,
Canto-te melodia de cabelos brancos e cachimbos
Canto-te com voz de menina que fazia do teu colchão de molas minha cama elástica..


Foto: Daniela Possamai - Bento Gonçalves



quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Qualquer coisa tua



Acalenta em mim qualquer coisa que seja tua...

Poema cego



Me escuta, poeta..
tateia o verso e a rima!
Nas linhas soltas,
desenha em braile,
a poesia cega!



(c/ carinho talismânico de poeta preta)

Canta-te, poeta..

Repara como a vida é um livro que escreves, poeta..
onde fazes nascer tuas palavras doces,
teus devaneios líricos,
teu desassossego amoroso.
Canta-te, poeta nas linhas da tua partitura torta..
Canta-te sinfonia de pássaros mudos
no amanhecer da vida..
Canta-te lindamente...
Não feches o livro, poeta..
Não abandones a pena..

(c/ carinho talismânico de poeta preta)

Corpo teu




No labirinto da cama..
perdido..
cego...
 a tatear as paredes da tua clausura,
 os muros da minha pele,
 as porções tuas do meu corpo..


Bruno di Maio





Twiterianas de poeta e poesia

Teu voo de colibri. O peso leve da tua pena.
 No planar das tuas asas as tormentas que provocas em mim.. Procelas de poeta!!!


E eu te servirei poesia em taças de vinho, no café da manhã, ao sabor das frutas da estação..

A navergar mares de poesia.. quando encontrei nas ondas.. doces búzios de ti..palavras grãos feitas de maresia!


E quanto a mim, o único café que me encanta pela manhã é dos teus olhos de poeta ao acordar..



Pérola cansada/ na concha-cama adormeci/ anêmonas/ cavalos marinhos / corais encantados /
poesia imensa dos mares de ti..


Folha tua




Desenha teu livro em mim..

Escreve teu nanquim nas costas minhas

e nua, deixa-me ser folha branca..


O rapto da Proserpina - Foto: D. Possamai




Nuvem de ti



E eu me pego sonhando-te..

mania minha de te imaginar naquela nuvenzinha branca...

ali onde minhas mãos não te podem alcançar..

Interdita-me!!


"Interdita-me! Já não sou eu mesma, agora sou navegadora..
nem mapas cartográficos, nem conhecimentos de astronomia..
Só eu, sozinha, na busca aventurosa pela ilha de ti.."



Estátua cinza

E hoje sou triste
como estátua cinza,
aquela,
que depois de algum tempo
se enche de pó e fica lá,
inútil e feia,
na praça central.

Soledad



Tendrán que parar la lluvia..

Tendrán que apagar el viento fuerte.


 Tendrán que cerrar mis ventanas de soledad.



Reinvenção

hoje sou nuvem. 
 rein-vento-te na brisa..
rein-vento-te azul!!!


foto: Daniela Possamai - Rotorua - N. Zelândia

Sal


vens do mar.
nas mãos os búzios de sal.
bebo-te!!!

Menininha tua


E eu fugia da escola, menina loirinha de cachos,
 naqueles dias de mágica infância,
 só pra espiar-te da janela..

Versos de menino




Nos versos perdidos da tua infância de menino, 
os sonhos de criança tinham forma de aeroplanos e navios em guerra
porta-aviões e bases submarinas das tuas batalhas fantasmas.
Tu desenhavas trincheiras sem inimigos. 
Eras o soldadinho de chumbo, 
pernas amputadas de bandaids e 
peito ferido por balas multi coloridas. 
No colo da mãe tinhas teu armistício e 
os beijos dela eram as bandeiras brancas 
flamejando intactas no teu céu de algodão..     

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mãos vazias



 

E sim, minhas mãos estão vazias de versos, poeta!

Te deixo apenas ternura,

essa ternura minha,

nas linhas deste teu caderno..

teus pergaminhos de poeta!

Ahhh o tempo..

Dali - A persistência da memória



Ahh o tempo, cabide de horas findas!!

Vão-se os minutos e a gente segue virando a ampulheta. E vira-a novamente e, mais uma vez e outras incontáveis vezes..
A vida é esse eterno rodar de ampulhetas..Cria-se pó, nascem aranhas e, a ampulheta lá, estátua de areia. Um dia, já tarde, vem a morte e sua ceifa e, pronto, a ampulheta sucumbe imersa em areias..
Outros dias virão e novas ampulhetas e novas ceifas.. Eternas.. só as areias espalhadas pelo tempo, o tempo meu, o tempo teu, o tempo já..

Sobre mim






Docemente ébria,

ouço o canto de Iaras..

e de palavras viverei,

no grande oceano,

náufraga..





Perdoa-me, mas o amo...
assim muito..
assim quieto..
assim calmo!!
Amor de marinheiro pela sereia enfeitiçado..
Amor desses de nuvem branca,
de mar sem onda,
amor meu cálido...
amor meu...
que agora é teu!!
‎"E então,
no dia em que eu me perder..
 procura-me no mercado flutuante,
entre as flores de lótus e a Tailândia..
 Serei pétala branca,
 na corrente das águas,
 faminta pela carícia do vento
que a tua mão faz.."





Foto: D.Possamai - Thailândia

Tu, aquele deus caído

Tu eras um deus caído,
ali,
 nos meus braços,
 dormindo,
quando vieste..
 E foi então 
que eu pude perceber 
que o que sabia das folhas não era nada,
 as estações,
 os dias,
 os pássaros..
Tudo,
tudo já não era nada...
 talvez nem a vida..
nem a vida era coisa alguma..
Só tu,
 nessa aventura indizível de ser,
 é que fizeste do mundo o novo..
e me deste!!


Foto: D. Possamai