segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Eu, estátua de areia



Eu era só uma estátua de areia
quieta,
estática,
imersa nas dunas da Lagoa
Era primavera e,
milagrosamente,
das águas vieste tu.
Tu e tuas mãos de encanto, 
Pétalas brancas carregando orvalho.
Gotas de felicidade que me deste .
Tu e esses teus olhos de carinho 
Teus braços de infinito
vieste tu e a estátua de areia, 
espantalho imóvel, 
ganhou luz nova. 
E no vento invisível 
fez surgir as gaivotas e todas as procelas. 
A estátua de areia desfez-se em cores
Cores tantas de arco-íris nos céus
Tu,
tu apenas,
milagrosamente
da areia fizeste o rio,
o rio esse
calmo,
profundo,
límpido
O rio onde inundo minha alma de ti.. 


Foto: Daniela Possamai - Lençóis Maranhenses


domingo, 12 de dezembro de 2010

Solilóquio das folhas brancas

Poeta que entras à porta pela noite
escondido nas névoas da madrugada
onde cantas tua poesia de deus.
Poeta adorado,
és flor de lótus
pétala branca, alva, cheirosa.
brancas são as folhas tuas.. todas
tu as pega, as ama,
as transforma
em mulheres tuas, sedentas, amantes.
Beijos teus que imprimes em nanquim.
Poeta das manhãs de sol em primavera
Teu poder transformador de sonhos
Quimeras de menino
Porque menino és tu
São tuas mãos pueris
dedos inocentes a vagar pela folha
Desenhando poesias, versos teus
A arquitetura melancólica dos aflitos,
A hora parada dos apaixonados
Tu constróis sonhos, poeta
Devaneios teus de profunda confissão
despes a tua roupa humana
e sem pudores declamas ao mundo a paixão
paixão pela palavra,
tua namorada de outrora
deusa tua de ébano, linda, colorida
colibri que encanta teu olhar
tua leve pena de poeta
asas de deus para voar
devaneios longínquos de além-mar
e voas como Ícaro livre, sem medo, sem morte
voas em céus de azuis insanos
porque não há loucura que não te compreenda, poeta
nem vento que não carregue tua asa
cavalos alados pra transportar a silaba
pipa de menino que soltas enquanto escreves
sim, poeta, as pipas tuas no ar, são borboletas cintilantes
de se ver longe..
não te vás nunca, poeta
porque sem ti
todas as folhas serão tristes
e as linhas terão sorrisos amarelos
não te vás nunca, poeta
porque sem ti
toda dor é menos doída
toda guerra é de algodão
toda mentira é fábula
não te vás, poeta...
...
...
Poeta
...
Não!!

Voos e letras



E se escrevo é pra me libertar
deste eu inquieto,
um eu ávido, faminto.
Escrevo pra dar vazão ao que não cabe em mim
Escrevo cega em linhas tênues, ínfimas
Papéis brancos, manuscritos meus
escrevo porque não sei dizer
palavras, a-palavras
métrica, rima, hemistíquios
nomenclaturas sem sentido
escrevo porque é tudo o que sei
porque tenho asas e voo
escrevo porque não sei cantar
e se canto, escrevo..


Mitologia da Tristeza

Não, não é a tristeza que nos invade.
somos nós que invadimos a tristeza.
corvo fúnebre,
branco,
à espreita..
O pescamos no ar,
em mórbido voo putrefato.
A tristeza é libélula ensandecida,
voa no vento,
adentra as janelas nossas
e sem que a convidemos,
dorme na nossa cama,
junta-se a nós na mesa de jantar.
Tristeza é feita de panos negros
que encobrem o rosto nosso,
restos amargos do dia.
poções ínfimas de veneno.
tristeza vem a galope,
em corcéis selvagens..
açoites funestos.
Lúgubres migalhas a adentrar nossa alma.
tristeza é roupa de luto..
...
morfina sem efeito
...
tristeza é vácuo..



Girassóis



Meus olhos,
dois girassóis encantados,
 a procurar teus poemas no amanhecer do dia.
 Chove.
 e os girassóis,
olhos de súplica,
cantam ao sol que venhas!




terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Pequeno Imaginário II



Era um homem só.
Chegava em casa e,
 diante do piano,
contemplava-o. tocava-o
 como quem dedilha o dorso da mulher amada.



Constantinopla


Era um café em Taksim Square..
era um poema o café.
Um poema de narguilés fumegantes,
aromas de uma língua desconhecida.
Névoa que misturava-se à palavras impronunciáveis
Até o café, líquido cintilante, tinha um cheiro novo..
cardamonos sólidos sobre a xícara..
Da janela, ao longe, a Mesquita Azul
de um azul tão profundo que se confundia com o céu
entre os minaretes, neons anunciando o Ramadã
No vento, cortando as nuvens, surge a canção do imã,
Aquela era a última oração do dia..
Premente em mim a fotografia do Chifre de Ouro
De um sol se derramando em vermelho,
Tudo era um poema..
Um poema que surge na tapeçaria espalhada pelo chão
Um verso nu, novinho em folha, sentado na mesa ao lado
um poema que nasce espreitando quieto  as horas
Horas de uma tarde onde vi surgir a poesia tua, Constantinopla minha..


à deriva

mares que naveguei,
mares distantes,
mares cujo olhar minha pupila ainda não viu.
ilhas que vejo agora.
ilhas de ti onde me encontro perdida.
sem norte,
sem sorte,
à deriva.
barco sem porto,
barco à vela quebrado,
porto distante que já não o vejo.
cais de pedra.
solidão..


Charlotte Amalie , 2008
Fotos: Daniela Possamai - Charlotte Amalie

Quimeras de Dorian Gray



És tão bela, amor - dizia-lhe.
 Um dia, a loucura o tomou de assalto.
 A emoldurou!!
 E ficava admirando-a,
imóvel,
 ali,
na parede
 nua..



 


Twiteriana



E andavas tu a despir minh'alma como se nela houvesse a roupa tua!!



domingo, 5 de dezembro de 2010

imaginário




Agrada-me imaginar-te uma ilha em ti perdida...



Grande Barreira de Corais - Foto: D. Possamai

Infinitos nossos

E se escrevo é pra celebrar-te
é pra bendizer meu coração que agora é teu.
escrevo-te porque imagino-te.
cheiro-te em ventos coloridos,
zéfiros de ti que desenhei invisíveis
com a lembrança do teu perfume

amo-te e por amar-te assim,
brisa melíflua,
te celebro em segundos de olfato.
te celebro nestas linhas minhas,
poemas que faço pra sentir-te.
te celebro, amor, porque te quero infinito
neste infinito que cabe na palma da minha mão
o infinito de nós..


Quando me calo, amor

E às vezes emudeço triste..
 Quando me calo é por que te peço que venhas..


Devaneios meus ao longo do dia



Na inconcretude do teu olhar meu corpo vaga..



Ah essa insensatez minha... que faz procurar no vento.. o cheiro teu..


E eu te escrevo para que me ouças.. nos dias... nestes longos dias.. em que não poderei cantá-lo!!!




Invento-te



 fonemas para falar-te, amor.
letras minhas delicadas,
canções que faço de ti.
para ti.
música minha que és tu.
quero tocá-lo a cada segundo.
nesta ânsia de ti que me faz
perder a hora e os sentidos
tu, esta busca insensata que meu corpo deseja
teu cheiro no vento
tuas mãos de horizontes
busco-te nos sonhos, na pupila do olho meu
e se não estás, amor,
invento-te meu..



Eros e Psique

Beijo roubado


não gosto de imaginar-te...
 gosto de tê-lo ali,
bem ali,
 onde minhas mãos alcançam tua face..
ali,
onde posso roubar teu beijo..





Linhas de arquiteto



nunca te pensei arquiteto das minhas curvas,
mãos tuas onde o meu corpo se desfaz inteiro...





à espera de poesia



Eu, soldado ferido,
 à espera de mais e mais poesia.
poesia de segundos,
de trincheiras,
de guerras em flores,
de armas de papel
e versos em balas de canhão..
Poesia que te procuro no céu,
na pedra,
na rua.
poesia minha 
de encantos coloridos.
poesia nossa de cada dia
poesia pra fugir da vida crua
poesia pra viver a vida nua..


Bratislava - Foto: Daniela Possamai


versos de ti, ilha



E eu faço poesia de ti, ilha minha..
És tão bela que pareces quimeras de Netuno sobre o mar..


Foto: Daniela Possamai - Florianópolis