quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Adágios sobre o tempo - Parte VI



O tempo é uma abajur funesto que deixamos no canto da sala..
meio indefinido, meio sem cor..
uma variável da existência, que nós, seres de tantos deuses,
 nos achando muito espertalhões, fingimos que driblamos..
Mas um dia, de repente, e de forma não muito solene
 o abajur vira um elefante rosa lá, no meio da sala, atrapalhando a passagem..
e já é tarde, meu amigo!
O tempo nem te esperou!!
Menino bobo, saiu correndo pela janela, pegou carona num foguete e,
pelo andar do vento, talvez não volte mais..


Elefantes - Dali

Adágios sobre o tempo - Parte V

O tempo é um espantalho inútil,
 boneco de pano e palha onde,
mesmo sem permissão ou coragem,
pousam as andorinhas selvagens das horas..

Espantalho - Portinari

Adágios sobre o tempo - Parte IV

O tempo é a arte dos relógios..
Um depositório de horas gastas onde permanecem presos nossos suspiros,
os suspiros, intervalos físicos que alguém, curiosamente, chamou de minuto..


Reloj - Dali

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Lamento do amor perdido



E eu vou cantar ao amor,
ao amor perdido, ultrajado, gasto..
E escreverei estes versos com cimento,
pelo chão da noite, na escuridão - que é pra não vê-los!
Que é para que sejam pisados como gramas pelas vacas.

Não há nada de belo num amor perdido,
não há grinaldas nem flores,
nem melodias alegres.
Há um luto negro infame e dolorido,
um par de promessas arremessadas ao chão como lixo
e um corte doente, sem amálgama, na vértebra de sustenção.

E se canto ao amor perdido eu também canto aos naufrágios.
Porque o amor perdido é o próprio barco náufrago
cujas velas desapareceram como espantos.
Sim, caro amigo, não há nada de belo num amor perdido..
Não há nada heróico.
Não há nenhuma benção
e nenhum louvor..

E essa canção vai assim ficando.
Assim quieta, assim pálida..
Morrendo aos poucos
Como os meus olhos gastos,
fenecendo de tanto olvidar-te..


Me vesti com a dor da perda!!
E quando fiz estes versos, meu queridíssimo amigo Henrique..
era pensando em nossas conversas..

Turner - Naufrágio

Das horas gastas




E eu fico pensando em todas as horas que perdi,
horas gastas,
horas jogadas pelo chão como pequenos outonos incandescentes.
Horas impróprias.. porque tu não estavas..
E então eu me pergunto em que mundo inquieto nos habitávamos
que não nos era possível enxergarmo-nos..
Em que mundo estranho e sem cor eu morava sem a presença da tua boca, amor??


Cupido e Psique - Claude Augustin



Outonos na alma



Ainda que o outono persista e que sejam incertos nossos rumos..
ainda que o vento sopre e que todas as folhas desfaleçam em danças fúnebres..
E que as árvores magicamente passem do verde para o ocre..
Ainda assim, amor,
do teu nome eu farei estes cocares de primavera..
Os deixarei sob os telhados cinzas, a beira do Sena..
A corrente os fará atravessar o Atlântico..
Recebe-os..
São as flores da minha alma e todos os beijos que te quero dar..
Sinta-os nos lábios teus..
entreabertos..
à procura da boca minha..


Monet

Corações embrutecidos

A beleza do poeta,
a verdadeira beleza do poeta,
está em açucarar os tristes corações embrutecidos..





Os falsos poetas e os santos profetas




Morreram todos.
Morreram na cruz.
Morreram como morrem os mortos,
em negros e funestos panos,
numa cruz amarga e tosca,
Adornados de uma moral vestida de injustiça
Em espinhos de ódio e julgamentos alheios
Morreram todos,
Morreram os falsos poetas
Porque não há poesia que nasça do jaleco encardido
Nem da vontade inútil
a poesia é a filha primeira da nudez
irmã da bondade e da beleza
E são sempre covardes os versos dos falsos poetas
Covardes e apócrifos
Como são os rinocerontes disformes

Morreram os santos profetas
Porque não há boa nova e nem ingênuos rebanhos
Nem mansos são os homens
Morreram ambos escondidos sob o escudo putefrato de Aquiles
Morreram envaidecidos
Porque grande mesmo são suas vaidades amarelas e o seu falso discernimento
Morreram sem lápide nem honras
Sem réquiens e sem sinos
Morreram na hora exata e inequívoca,
ordinários, na vala comum
E sem lápide
Não sabemos sequer o seu nome.

"O evangelho morreu na cruz."
Nietszche - O Anticristo


20/ago

Acorda, Maria - um releitura de Drummond




Acorda, Maria!
O marido morreu.
O filho chorou.
A casa voou.
O salário acabou.
e o mês não findou.
Acorda, Maria!
O dia nem raiou, mas você tem de trabalhar, Maria.
Você tem de ganhar umas moedas.
Você tem de pagar o funeral do companheiro que morreu infectado.
Você tem de fazer exames e te alimentar e alimentar teu rebento.
Vem, Maria.
O ônibus lotou, mas você tem de chegar.
Mas você, Maria,
Você tem olhos fundos de cansaço.
Você não dormiu.
Você chorou a falta da comida,
a incapacidade,
a lucidez atroz de uma geladeira vazia
Mas você tem fé, Maria!
Você tem esperança na novela
Você sonha a mesa farta,
a casa arrumada,
o namorado novo
Mas você não tem nem dentes, Maria
Nem escova, nem chinelo.
Nem janela tem o teu barraco.
Você só tem fé!
Fé no estado,
Fé na política,
Fé no presidente,
Fé na lei,
Fé na igreja.
Você tem olhos de esperança, Maria!
Você tem mãos de trabalho e lentidão.
E o trânsito não anda, Maria
e você nao chega.
Você não chega nunca, Maria.
E o patrão já olha o relógio,
E já retira algumas moedas.
Mas você não tem culpa,
Você não tem carro, nem bicicleta,
você não tem metrô, nem van,
nem transporte público você tem,
você não tem quase nada, Maria.
Você tem um cão magricela e sarnento,
um barraco invadido em área de risco,
um caixão pra pagar
e 5 filhos pra alimentar.
Você não tem quase nada, Maria,
mas você tem fé,
Uma fé de que tudo vai terminar,
de que a geladeira vai lotar,
de que o governo vai ajudar,
de que o salário vai aumentar.
De que a vida vai melhorar
Acorda, Maria!
Acorda!

E o ônibus fez greve.
E você se amontou na van clandestina.
E o patrão na porta, batendo o pé na soleira,
mas finalmente você chegou. Você chegou!
O patrão reclama,  mas você, você engole a seco os sapos.
Você escuta quieta a voz que lhe xingava.
Você põe o rabo entre as pernas e você chora, Maria!
Você tem olhos de tristeza e medo.
Medo de perder o emprego,
medo de morrer,
medo de dormir,
medo de viver.
Mas você vive, Maria!
Você tem fé, Maria!
O dia é difícil,  mas mais difícil ainda é você e a vida.
E você trabalha.
E você ganha o dia.
E sonha a geladeira cheia.
A comida dos teus.
o filho advogado,
o caixão pago,
a janela do barraco.
Você insiste, Maria!
Você insiste!
E a faxina acaba,
e a escuridão assombra,
e você volta para casa,
e beija os teus filhos.
Mas a panela tá vazia, Maria!
A comida não sobrou.
A geladeira não encheu.
E você chorou, Maria!
Chorou de impotência,
de revolta, de incapacidade, de raiva.
Mas depois você se confortou,
a mão do tráfico comprou o seu silêncio com feijão.
E você contou os grãos e alimentou teus filhos e você sorriu,
finalmente você sorriu.
Mas o cansaço a pegou pelas costas
e então você dormiu.
E você sonhou!
Sonhou a vida que tinha na novela.
Sonhou a janela nova.
O caixão pago.
O imposto na rua.
O governo ajudando.
A vida melhorando.
Mas você não acorda, Maria..
Você não acorda..

Despertei  martelando n'alma o verso de Drummond "Mas você não morre, você é duro, José".
E como uma psicografia, surgiram todas estas linhas..
Fiz do martelo de Drummond a inspiração do meu poema..



Mulher chorando com lenço - Picasso


       Mulher chorando - Picasso

De Platão a Aristóteles



De Platão a Aristoteles há um ponto!
Um único ponto.
Quase uma ponte.
Um longo caminho.
Uma idéia.
Um sentido.
Talvez a percepção do mundo.
Quiçá o elo perdido.
Entre Platão e Aristoteles há a vida
Grandiosa.
Miserável.
Há os banquetes.
Há Timeu..
E há eu..
sempre a procura
de luz,
Talvez..


Uruguay, 21/07/2011

Rafael Sanzio - Platão e Aristóteles

A poética da casa



A velha casa guardava tantas lembranças,
uns rabiscos soltos, uns vidros quebrados
certas ausências.
e os móveis, ali, me olhavam quietos sobre os tapetes,
 fitavam-me impávidos e colossais.. 
às vezes falavam comigo.. 
Noutros momentos permaneciam mudos como cedros.
Noutra noite, a sala de jantar me convidou a sentar
Sentei-me..
Filosofamos durante horas..
Bebíamos um bom vinho,
recitamos um pouco de Cortazar,
maldizemos Proust,
cantamos uma mitologia estóica.
Por fim, sorrimos.. Fui dormir!

A casa amarela - Van Gogh


A casa amarela de noite - Van Gogh



O amor entre Faunos e Sátiros




Tirena-ápia, antiga Roma, 30 de fevereiro de 3024.

Este breve relato da história é narrado
pelo antropólogo e arquiteto  Bacantes Tirésias
da Apia Nuovissima Universita. O relato ilustra
 os meandros iniciais do que hoje chamamos de 
arquitetura gótica - estilo muito difundido na idade
hodierna - o século das trevas e apagões.  


No antigo Lácio Central, onde hoje restam em ruínas os pedaços de Roma, numa época cuja efeméride não pode ser contada, brincavam juntos, Faunos e Sátiros. Andavam vestidos de fraque a fim de disfarçar seu imenso rabo de bode, perfumavam-se entre os odores nefastos das violetas sem cor - eram assustadores!! Não tinham amigos, nem regras, nem viviam sob o jugo das leis. Os demais convivas da localidade evitavam comparecer diante de presença tão monstruosa. Os dois, sozinhos e isolados, só tinham a si mesmos.. Eis que criaram seu mundo à parte..

Nas proximidades da urbe, numa antiga ruína abandonada, Faunos e Sátiros, numa tentativa impar de demonstrar seu sentimento um pelo outro, começaram a edificar um templo em cristal de tamanha pureza, que desafiava as nuvens com sua limpidez. Construíram inicialmente um arco em forma de ogiva, depois outro, e mais outro e mais outro.. Nascia ali, impávido e palaciano, um sem número de arcos em ogiva, todos eles erguidos no mais puro cristal. A construção era tão despótica que começara a desafiar os céus do povoado - sua imensidão era espantosa - o edifício resplandecia tanto com seu brilho que ofuscava todas as nuvens do céu!!  O sol nunca se punha sem que adentrasse devasso naqueles arcos.. Faunos e sátiros ergueram ali um monumento ao amor puro. Era a própria construção do amor de cristal, a edificação do sentimento em estado de pureza jamais encontrada.  Batizaram-no, os dois, em segredo, de “A Paixão de Fauno pelo Sátiro Amante”.

A imensidão do amor edificado ali, em cristal, começou a despertar a curiosidade dos civitas da urbe já que, não havia em lugar nenhum no mundo, material tão belo ou até mesmo similiar àquele. Cristais só existiam nos sonhos dos antigos argonautas e desde então  inexistentes pelos confins e muros do planeta. Aos poucos, em bandos ou sós, os aldeões davam início à incursões sobre o belo monumento e ali permaneciam, durante horas, extasiados com tamanha e única maravilha arquitetônica. Quem teria sido responsável por inebriante obra de engenharia? -  perguntavam-se os habitantes da pequena aldeia. Os rumores sobre a construção aumentavam, criaram-se mitos, lendas e um número sem fim de histórias. A cidade permanecia ávida sob o cetro audaz da curiosidade. Alguns ganhavam seus patagões oferencendo visitas guiadas aos arcos, dizendo aos ignaros que aqueles cristais provinham do Grande Allāh, que os mesmos haviam sido roubados pelos anjos astronautas nos céus, que o transporte dos cristais até Tirena era feito pela transmutação alquímica, que os cristais só eram cristais diante dos olhos dos bons, que os malvados só enxergariam ali, rochas putrefatas.. Inventavaram-se as histórias mais estapafúrdias e surreais. O fato era que ninguém nunca soubera exatamente os motivos de tal construção, nem de onde vieram os cristais ali utilizados. Tudo permanecia no mais absoluto e negro mistério.

Passaram-se muitos anos, mas o enigma sobre a edificação permanecia ali, inquieto, sem resposta. Até que finalmente, numa manhã cinza de primavera, um menino negro adentra o monumento acompanhado do Escafandro robô, seu amigo. Embasbacados com a grandeza da imensidão, dispersaram-se os dois pelos arcos da gigantesca construção. Horas depois, vendo-se perdido, o menino resolve partir para casa, deixando o Escafandro só, sem conhecer o caminho de volta. Depois de algum tempo, Faunos e Sátiros percebem aquela estranha criatura chorando perdida entre os arcos. A incomum imagem de lata em nada lembrava os humanos tão cruéis, sempre assustados, sempre repulsivos. Comovidos com o sentimento de desamparo daquele amontoado de metal, foram até ele e lhe oferecem ajuda.


O Escafandro ficou imóvel, espantado!! Em tempo algum tinha se deparado com um horror tão belo e tão amoroso. Passado alguns minutos, o Escafandro, entendeu que aquele monumento era mais que uma construção, era a edificação do próprio amor e que aquela era a morada de dois jovens apaixonados e mais humanos que qualquer humano que havia pisado sobre a terra.

Com o auxílio cordial dos namorados, o Escafandro, finalmente, pode voltar para casa. Seu coração de lata, tomado por uma bondade infinita, calou-se.. nem uma palavra fora dita. Nada do que tinha visto foi repassado aos demais da aldeia. O bom Escafandro queria proteger Faunos e Sátiros da cobiça e especulação desumana.

Os arcos resistiam à passagem dos anos!! Belos, permaneciam lá, encantando o sol e a urbe. Ninguém nunca soubera a realidade sobre o monumento, só o Escafandro!! Mas a verdade permaneceu enclausurada, submersa nele..
07/dez/2010

William-Adolphe Bouguereau - El Fauno y la Bacante

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pequeno poema em asas de borboleta




Eu faria um poema para falar da doçura que são os teus olhos, mas hoje, amor..
Hoje eu não quero cantar-te!!
Quero apenas jogar-te meus beijos pelo vento..
Recolhe-os..
Aninha-os com ternura, como fazes com as borboletas em voo..
Os beijos estarão ali, no ar, ansiosos à procura da tua boca.
Não os devolva, são teus..
São meus beijos poemas
Os beijos que lancei no vento
Lá, no alto, naquela nuvem que te espia pela vidraça..




 

A mágica mão de poeta



Que versos antigos, que nada!!
Belos serão os versos que ainda não desabrocharam..
Aqueles que ainda residem, impávidos, nas nuvens..
Os versos que, ansiosos, esperam a mão que os faça nascer - a mágica mão de poeta!!



Le secret - Rodin
(Museu Rodin)
Foto: Daniela Possamai

Pequeno manual para amar


E a esse meu amor inquieto..
escuta-o.. 
Abre a tua persiana verde, 
E ele entrará, vento branco, pela vidraça 
E se acalentará no teu colo
E te sorrirá
E te dirá silencioso estas palavras
Esses poemas todos que desenho para ti 
Escuta-me, amor
Escuta-me porque sou manuscrita em braile 
É difícil compreender-me, eu sei, 
Às vezes sou tão obtusa e pétala
Mas usa tua mão, amor,
 usa teus dedos mágicos para adivinhar-me..

Mains d'amants - Rodin
(Museu Rodin)
Foto: Daniela Possamai

E então eu danço ao vento


Repara como são mágicos os dias de vento -
os dias em que finalmente
as folhas coloridas dançam valsas..


"Quando capturamos o vento em uma caixa, ele não está lá."
(ditado chinês)



Insônias e outros contos




Insônia, menina levada, acordou mais do que desperta - acordou ávida!! Vestiu seu trágico penhoir e agora, sentada na cama, chora o amor de Morpheus, seu anelo fugidio!!

Morpheus, o príncipe desencantado, a abandonou há alguns dias.. Não lhe telefonara desde então, não lhe mandara nenhum outro beijo e sequer lhe devolvia o sono.

A dama, jovem Insônia, curiosa e febril, consultava seus oráculos - todos apontavam para o amor, o novo amor de Morpheus - a linda e perplexa Adrenalina..
Morpheus fugira com Adrenalina, deixando abandonada Insônia e suas camisolas de seda..
Adrenalina lhe roubara mais do que a vida, lhe roubara os sonhos.. e sem sonhos, a jovem Insônia fenecerá em lágrimas e olheiras..

- Volte, Morpheus ingrato!! - rezava ela aos deuses..
Caíam as noites e adentravam as auroras sem que Morpheus retornasse aos braços de Insônia.

Mas eis que surge do horizonte amarelo, um amável cavalheiro noturno - Stylnox 10 mg.. Espantosa e rapidamente, Insônia se apaixona pelo lindo e loiro cavalheiro. - Ahhh, aqueles olhos!! Dois mares azuis a me enclausurar a alma.. - dizia Insônia.

Gentil, Stylnox finalmente lhe devolvera o sono e a mágica alegria dos sonhos..

Casaram-se os dois e vivem agora, felizes, à espera das cegonhas noturnas e todas as suas fraldas..

Fim


"Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo." (Álvaro de Campos)

Nas madrugadas de insônia minha imaginação ganha contornos inquietos.
Estes são os registro pueris dos meus voos noturnos..


Morfeu - Houdon (Louvre)
foto: daniela possamai

Pequeno conto desamoroso




E mesmo depois de tanto esforço o amor morreu..
estraçalhado, na lata de lixo, só!!
Morrera jovem!!
Não deixara filhos nem legado algum..
Ficara lá - um coração abandonado -
largado nas calçadas do pretérito..



fotos: Daniela Possamai

O sonho da janela



E que é a mão do poeta,
 senão 5 dedos trêmulos que nos prometem as nuvens -
as nuvens..
aqueles infinitos azuis com que sonha a tua janela..



A mão estendida na Gare de Lyon



Como navalha tua mão penetrou a alma e as mazelas.
Vi alí a mão suplicante de Claudel,
os dedos de choro estendidos
a dor desconfortante
a agonia desesperada
Não esqueço da tua mão, mulher..

Quisera dar-te uma flor.
Quiçá algumas moedas,
mas não te dei nada..
nem um sorriso.
Faço-te esses versos
e te deixo minhas lágrimas sob o papel onde escrevo.
Compadeço da tua dor, desconhecida!
Dói-me a alma e a cara navalhada.
Dói-me a vida ao ver-te.
Ver-te humilde, miserável, suplicante..
Nada te dei, mas rezo.
Rezo ao mundo,
que o mundo te dê mais que moedas.
Que o mundo faça brilhar teu olho,
que olhes o futuro porque hão de vir os dias iluminados
e tu não haverás de suplicar.
Que o mundo te dê mais, minha senhora!!
Que saias das escadas do metrô,
que te libertes destes negros véus
que andes pela superfície e o sol inebrie teu rosto.
Que finalmente sim, estendas a tua mão..
e da tua mão de súplica surjam as flores e todos os afagos..



Paris, 05 de outubro de 2011.
Sentada, na Gare de Lyon, uma muçulmana suplicante,
um olhar triste e a mão estendida..
O instante congelou na minha memória..
E de ti, desconhecida, faço estes versos..







Sermão da nova boa aventurança 




Fazia frio e o frio vinha acompanhado de desemparos e outras sedas. Era noite. Luziam no céu, estrelas e nebulosas..
E então,  ouviam quietos a boa nova, os cronópios de todas as galáxias..
O mestre poeta professava a nova aventurança:  

"Bem-aventurados os lúcidos do nosso tempo.  
Bem-aventurados os que não viram e não creram.
Afortunados os que não praticam os métodos,
os que não engolem as pílulas da fé,
os que têm esperança e sonhos,
mas não tem senhores nem acreditam em equivocadas leis.  
Bem-aventurados aos que não aceitam à falsa culpa imposta pelos ignaros doutos.
Aos que vivem sem deuses,
 aos que não depositam seus desejos e saúde aos queres e desígnios de um falso deus.
Bem-aventurados os que não tem nenhum  ismo, porque é deles a verdadeira sabedoria..  Aventurados os leviatãs do nosso tempo,
os augustos e os cesáres do novo mundo,
os capitães de todas as naus naufragadas.
Bem-aventurados os anônimos e aqueles que não sabem rezar,
 porque é deles o novo mundo e todas as suas árvores.. "

Finda a boa nova, houve a libertação total. Os Cronópios riam efusivos.. E então os poetas salvaram o mundo!!!

Que sejam eles os espíritos livres do nosso tempo.

"Aquilo que choca o virtuoso filósofo deleita o poeta camaleão...
Um poeta é o que há de menos poético em tudo o que existe;
como não tem identidade, tende continuamente a encarnar em outros corpos...
O poeta não possui nenhum atributo invariável;
certamente é a menos poética de todas as criaturas de Deus." Keats


Poor poet - Carl Spitzweg

A incerteza do poeta - Giorgio de Chirico

Quimeras


Quanta beleza há nas quimeras..
Lindos monstros disfarçados de sonhos..


Fotos: Daniela Possamai

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Vida






Eu quero uma vida tão efêmera,
tão fugidia -
definitivamente uma vida levada!
 E será preciso buscá-la..
 a cada hora..  
na esquina de casa..
lá onde vivem as nuvens!!



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Dos beijos que te deixo




I.    Que sejam os beijos asas coloridas de voar continentes..
II.   Que atravessem o Atlântico e cheguem, intactos e voluptuosos, à tua janela..
III.  Que abracem o mar e todas as tuas ondas..
IV.  Que te sejam envolventes como a noite e tragam a delicadeza da pétala que docemente deixo caída aos teus pés de menino..
V.    Que te peguem de surpresa meus beijos roubados.. porque eu nunca mais os devolverei..
VI.   Que te sejam mágicos e que te deixem macadâmias à boca..
VII.  Que eles te envolvam com o frescor dos ventos de outono..
VIII. Que sejam sempre insuficientes os beijos..
IX.   Que sejam todos eles, todos, únicos..
X.    Que a boca úmida encontre casa noutra boca, a tua..

Que tu encontres todos os meus beijos à tua espera.. na porta de casa, amor..




Paris, 13/outubro/2011
(fotos: Daniela Possamai)

As janelas do longe e um beijo no vento




As janelas, quando abertas, são portas para o infinito. 
O infinito..
esse que a gente faz..
rabiscando o céu..
com nosso lápis azul de poeta.. 
E pintamos as nuvens apagando o azul com nossa borracha mágica.
Lá, no céu,
a disfarçada biblioteca pintada de azul..  
Nos tapetes de nuvens,
onde brincam nuas as crianças andando de roda gigante.. 
Lá, bem longe,
onde estão teus olhos a devorar minhas linhas.
onde a brisa alcança meu cabelo..  
Longe,
onde está o vento a transportar o frescor do meu beijo até a tua boca de espera.. 

Abre a tua janela, amor.. e respira-me no vento.. 
Paris, 01/out


Fotos: Daniela Possamai

No jardim de Monet eu escrevo - II Ato



No jardim de Monet eu escrevo às ninféias e todas as suas pétalas..
Eu encontro os colibris e as borboletas numa dança aos tons de outono,
onde outrora, eu vira, bela e mágica, a primavera..
Entre as pontes e as flores, eu vivo ávida a vida e as minhas horas,
e são tantas e tão raras, como as estrelitzias e as dálias..


No verde da tua tela, poeta dos pincéis, a esperança numa luz renovada..
Um verde peralta, menino,
quiçá escondido entre as sombras e os sonhos..
E o que dizer dos amarelos,
os tons ocres,
os azuis desbotados do teu céu sem borracha..
Mas há também as matizes sem nome,
os reflexos do sol,
as nuances disfarçadas de folhas..
Hão de sorrir as pinceladas mais tênues como as estátuas de Canova,
E hão de chorar os negros borrões como trovões a matizar o sol de cinza..
No teu jardim, Monet, há uma aquarela infinita de cores e um pincel..
 um só pincel,
o da tua alma..


No teu jardim, Monet há a vida,
a minha, a tua e a de todas as flores..
Mas há também a morte e uma certeza,
a certeza de que amanhã virá também a primavera..
Ainda que do teu olho brilhem areias e brumas..


No jardim de Monet eu nova e finalmente brindo ao meu amor,
 as minhas estrelas e o teus pincéis, 
Eu brindo a vida, o outono e a primavera..
Que seja florida a vida..
que seja leve como são foram tuas sutis pinceladas,
 como fora outrora,  teu óleo derramado sobre a tela..



A cada estação renovam-se as cores e todas as folhas. Poderão mudar as matizes, mas a alma, a minha alma entra sorrindo no teu jardim..
Giverny, 02/out/2011.
Fotos: Daniela Possamai

Novos mapas e outras convergências



Certo dia a geografia ficou entediada.
E foi então que desenhei novos traçados de ruas e esquinas
 e novos rios e outros mares..
Também haviam outros continentes, as grandes ilhas
e outras pontes..
Mas todos os caminhos,
todos eles,
tem uma só convergência:
a tua boca, amor!

(Paris, 01/out/11)


O casamento sobre a Ponte de L’Archevêché



Não havia as tulipas,
 mas havia os amantes,
 a velha ponte
 e o desejo de verem, juntos,
 a vida..


Paris, 4 de outubro de 2011.
Fotos: Daniela Possamai

A persistência do outono



Eram só brumas sobre a relva.
E então veio o sol
e com ele todas as folhas.
Era outono.
E nas vinhas, quilômetros delas, as folhas dançavam em ciranda.

Mágicos são estes dias,
Mágicos e coloridos.
A paisagem ocre e seus tons de grená.
Os dias de sol e as vinhas
as vinhas, que no frescor da brisa, lançam suas folhas ao chão.
O vento cantava uma melodia invisível.
E então eu me pus a pintar.
A desenhar estas palavras.
São os esboços pueris do que vejo,
do vento que balança o meu cabelo e que, no mesmo instante, carrega a folha amarela.

E então, eu pinto, eu pinto todos os meus dias e versos aqui, longe,
quiçá no infinito..
Porque tudo é tão perto,
mas eu, eu estou tão longe..
Perto de mim, o vento..
O vento e todas as folhas de outono..

"Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.- Não me entristeças.- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho."
Carlos Drummond de Andrade - Fala, amendoeira (1957)




Chambolle-Mussigny - Bourgogne, 29/setembro/11
 Fotos: Daniela Possamai

domingo, 16 de outubro de 2011

E a poesia salvará o mundo


E um dia os poetas haverão de salvar o mundo
e, então, relógios e escaravelhos terão alma..

Bosch

Shanshui e a poesia sem palavras


Eras tão desconhecida do lado de cá do mundo
Tão diferente, tão sedutora
que foi uma surpresa ver-te
Lembro-me bem dos desenhos que fazias sobre a água,
dos traços espalhados pelas notas de guzheng,
dos ecos delicados, quase pueris!

És a  poesia muda, afônica!
A poesia sem nenhuma palavra.
A poesia talvez inexistente aos nossos moldes tão ocidentais e cegos,
talvez inconcebível na mente dos duros.
Mas estavas lá!
A poesia sem palavras.
A poesia muda.
A poesia muda gritando, gritando, gritando.
E mesmo sem palavras cantavas aos meus ouvidos.
E então mesmo sem olhos, mesmo sem linhas
Eu te vi e ouvi
E te senti
Ecoando a face minha como o afago da mão apaixonada
E te senti ocupando a alma como a água no navio náufrago
E tomaste o teu lugar
E inebriaste meu mundo
E eu agora te abraço e te saúdo
És tão bela e tão delicada
Que lembro-me de ti na cor rosa
A cor dos algodões doces da minha infância..




Longe em um belo domingo de sol e então, eu tive o prazer de me deparar com o shanshui..
Escrevo estas linhas para celebrar a beleza que a mão humana cria.. Talvez os poetas do sanshui sejam anjos caídos, distraídos, a brincar de Deus, o Deus aquele, o dono de uma fazenda de formigas.


Lucerna, setembro/2011.
Fotos: Daniela Possamai

A velha Europa putrefata 


Europa apodreceu e caiu da árvore.
Escrevam-se as lápides mortuárias:
Aqui jaz a velha e enrugada senhora
Aqui se enterram as antigas trevas
Dêem lugar ao inédito, ao estupefato, ao surpreendente!!
Que entre no palco o novo mundo envaidecido..
Que adentrem as novas luzes
E que corram pelo esgoto as águas classicistas e ultrapassadas
Nada de ventos anciãos
Nada de brasões medievais
Que seja só novo, o novo mundo
Que entrem pelos vitrais a luz e todas as borboletas..




Rothenburg ob der Tauber, 18 de setembro de 2011

fotos: Daniela Possamai