sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Por que isso me faz lembrar de ti..



..sempre me fará lembrar de ti..
e às vezes,
ainda entre os lençóis,
te ouço.
és tu o meu primeiro sopro..
dias de chuva,
dias em que o sol adentra intruso minhas janelas
dias em que eu desejo a escuridão da noite
pra que eu volte a sonhar contigo 
sim, és tu o sopro meu primeiro
e também o último..


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Poeto-te, amor..



E no silêncio das minhas mãos febris
poeto versos no teu corpo.
Sussurro o sibilado vocábulo
 amo-te...


Sussurro - Bruno Varatojo

Letras para a chuva





chove.
vejo a ponte.
carros formigas na travessia.
a ilha fica triste sob os dias de chuva.
 porção de terra onde sopram ventos de água.




O sol não brilha na ilha.
sol entediado.
triste.
sol de passear escondido nas avenidas de nuvens.




Das janelas de ver o mar,
 a menina sonhava ventiladores gigantes
 para espantar as nuvens de chuva sobre a ilha..





Fotos: D. Possamai

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Saudade minha



Às vezes, meu amor, a saudade é tanta 
 que espalho teus retratos...
pela casa..
para ver-te..



Memórias do Distante - Burkina Faso



Minha alma e eu em Burkina Faso..
dias de céu de azuis vazio..
Ando por entre as casas de arquitetura peculiar,
pequenos pedaços de barro a enfeitar o nada..
Tu me vens à mente..
horas de sol queimando a pele e a alma..
Tu, aquele fantasma rondando as casas e as crianças..
o calor derrete meu pensamento..
te esvais em lembranças tuas extensas..
lembranças que eu insisto em guardar..
lembranças que vejo se perderem ali, longe
.. em Burkina Faso..









Fotos: Daniela Possamai - Burkina Faso

Quimeras


Quimera minha.
Pintar tua volúpia em mim.
Colorir-me.
Andar nua vestida de ti.


Nu feminino - Enrico Bianco

Pedaços de infinito


Meus olhos,
 estes dois peregrinos inquietos,
 perdendo-se no infinito dos teus contornos de terra..

Dami mille baci - Catullo

Atabaques e afins


De puro encanto esses velhinhos músicos a afinar seus trumpetes na praça XV.
Recordam-me os antigos retratos revelados em albumina..



corujas tristes
 as canções desafinadas daquele velho piano de cauda,
 estático,
 sozinho,
 no hall do teatro vazio.


batucadas,
atabaques,
sambas de raiz que ouço ecoando nas rodas..
músicas e partituras de se dançar no vento..

 

Dispersões enquanto durmo

E as libélulas que voam livres,
tão sutis,
no azul;
foguetes de transportar o peso da leveza..



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

As quatro estações - Outono

Grandes amores em dias de outono..
Uma folha amarela,
outra vermelha..
Sob a copa da velha árvore,
amantes,
beijando-se ao vento!!


Parque Nacional Pukaskwa - Canadá



Construção




Às vezes me pego construindo,
imaginariamente,
no ar amarelo,
as linhas tuas,
os contornos mágicos,
os limites que há em ti.
E és todo um universo que eu não sei traduzir,
palavras são crianças frágeis.
E tão imenso que não te posso desenhar em croquis de menina,
nem pintar-te em azul como Picasso.
A beleza de ti é curva,
concreto armado,
canções de metal e água.
arco-íris desenhados depois da chuva..
Linhas de engenharia onde quero morar..
Mas tu, meu amor, és também o arquiteto de mim
Alicerça tua casa,
aninha teu braço no que sou eu,
essa porção tua de alma minha.
mãos a tocar as paredes de açúcar
a percorrer as curvas que tu desenhaste
usa o braile, amor..
para aprender-me..


Memórias do distante - Deuses de Batur



Ali, aos pés do Kintamani
foi assim que o vi
templo hindu imponente e belo
deuses que habitam tuas margens, Batur
santos católicos, fariseus, fundamentalistas de todos os tipos..
ali onde as religiões são escolhas simples
onde as crianças nuas se banham nos riachos
onde os jasmins manga voam pela brisa e adentram os véus..
te vi assim, ilha misteriosa e índica
cores, pratas, esculturas de madeira..
deuses para cada coisa sob o céu
deuses das montanhas, das águas,
deuses para o simples ofício de viver..
e vives, ilha linda,
vives em meio ao caos maravilhoso do oriente
és tão diferente, tão colorida
e mesmo tão distante
sinto-me em casa..
templos que vejo a cada esquina
oferendas pelo mar
flores, frutas, campos de arroz..
teu nome é doçura, ilha..




Fotos: Daniela Possamai - Indonésia

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Memórias do Distante - Istambul





Era um café em Taksim Square..
era um poema o café.
Um poema de narguilés fumegantes,
aromas de uma língua desconhecida.
Névoa que misturava-se à palavras impronunciáveis
Até o café, líquido cintilante, tinha um cheiro novo..
cardamonos sólidos sobre a xícara..
Da janela, ao longe, a Mesquita Azul
de um azul tão profundo que se confundia com o céu
entre os minaretes, neons anunciando o Ramadã
No vento, cortando as nuvens, surge a canção do imã,
Aquela era a última oração do dia..
Premente em mim a fotografia do Chifre de Ouro
De um sol se derramando em vermelho,
Tudo era um poema..
Um poema que surge na tapeçaria espalhada pelo chão
Um verso nu, novinho em folha, sentado na mesa ao lado
um poema que nasce espreitando quieto as horas
Horas de uma tarde onde vi surgir a poesia tua, Constantinopla minha..




Fotos: Daniela Possamai - Turquia


Palimpsestos





E eu te refaço em palimpsestos
papiros onde imprimo teu rosto de menino..
traços teus que encontro no vento..
E de longe,
suavemente,
te pronuncio..
Te pronuncio com boca de volúpia,
essa boca minha,
 na pele tua confundida..


Um beijo de saudade - Maria João Franco

Os dons - J. L. Borges




Da minha literatura diária, ando devorando Jorge Luis Borges.. este viejo hermano que foi ficando cego "como um lento entardecer de verão" e que sobretudo amava enciclopédias. De sua obra sempre me encantaram os contos em "O Aleph".
A América, esse continente nosso multicultural e colorido,  me fez desejar um mergulho num mar de Borges.. Recomecei com "O Livro de Areia", escrito exatamente no ano do meu nascimento, obra que faz nítida alusão ao mundo cego..
Na continuidade da minha total embriaguez de Borges, sigo lendo o "Atlas" e me deparo com um poema que me deixa emocionada...Eis:

Os dons


Foi-lhe ofertada a música invisível
que é um dom do tempo e que no tempo cessa;
foi-lhe ofertada a trágica beleza,
foi-lhe ofertado o amor, coisa terrível.

Foi-lhe ofertado saber que em meio às belas
mulheres deste mundo há apenas uma;
pode uma tarde descobrir a lua
e com a lua a álgebra das estrelas.

Foi-lhe ofertada a infâmia. Docilmente
ele estudou infrações de espada,
a ruína de Cartago, a apertada
batalha do Oriente com o Poente.

Foi-lhe ofertada a língua, essa mentira,
foi-lhe ofertada a carne, que é argila,
foi-lhe ofertado o obsceno pesadelo
e na vidraça o outro, o que nos mira.

Dos livros que o tempo acumulou
foram-lhe concedidas poucas folhas;
de Eleia, paradoxos comedidos,
que o desgaste do tempo não gastou.
O altivo sangue do amor humano
(a imagem é de um grego) lhe foi dado
por Esse cujo nome é uma espada
e que recita as letras para a mão.

Mais coisas lhe ofertaram, com seus nomes:
o cubo e a pirâmide e a esfera,
a inumerável areia, e a madeira
e um corpo para andar em meio aos homens.

Foi digno do sabor de cada dia;
eis tua história, que é também a minha..




quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Memórias do Distante - Caracol de Viento


Caracol de vento.

O movimento em vermelho.
Quando te vi achei que sonhava.
Tu, nota invisível e deliciosa
Sinto-te nos arrepios que fazes quando me tocas a face.
Sopros de se ouvir no mar.
Lá, onde o amanhecer é da deusa Ixchel
Lá, nos cantos de um mundo.
Tu, quebra-vento, escutas a curvatura do mapa
E te debruças sobre as janelas.
Anfisbenas que encontram o sol.
Curvas onde a terra olha o céu.
Ao longe,
a cidade,
perdida em meio à ilha,
A cidade tua.. tua serva
Ventos de Atlântico que dançam contigo,
Teus espaços pela brisa percorridos
Teus limites
Tuas entranhas..
Feliz arquitetura em escarlate
Abissais volumes sobre o mar..
Esse mar teu, azul,
Olhando-te,
caracol de vento...
em vermelho..





Nota de Rodapé:  Caracol de Viento (Pedro Cervantes) - Parque Escultórico Punta Sur - México.
"La fraga y el martillo hicieran su obra genial y en vez de armas, forjaran sueños que permanecerán aqui, para siempre, como testimonio del genio creativo de la humanidad.."
Fotos: Daniela Possamai - México/2011





Coração de Duchamp em versos simples

Coração meu que ama,
caixinha de cultivar amor e tulipas..
Desconheço qualquer outra utilidade pra o meu coração,
esse músculo-motor arcaico..
Nem Duchamp, o velho inventor,
traria novo uso para ele.
Eis que o ouço bater
às vezes calmo,
às vezes fora de ritmo
às vezes inquieto.
E ele sofre
E chora
E sorri..
Ahhh, coração meu,
motorzinho de vida,
bomba eficiente onde cabem os sentimentos meus
e tu,
SEMPRE TU!!!

(Tortolla - British Virgin Islands)





segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Versos em dois atos - Palíndromos

E eis a minha literatura:
Farei palíndromos de ti..
reversíveis aliterações com o teu nome..



Sim,
eu desenharei palíndromos de ti,
poeta meu..
palíndromos sem fim..
releituras tuas que trago comigo,
no coração meu
de menina..

Foto: Daniela Possamai - Canadá

eu, escultura tua



Foste tu quem me desenhaste.
Esculpia-me em barro,
como aos deuses maori.
Dedilhava-me a pele com tuas mãos,
mãos de invento.
gentis.
ansiosas.
tuas.
Do barro,
silenciosamente,
a forma única da criação tua.
E me deste ar
E me fizeste olhar o mundo.
Esse mundo nosso, tão nosso,
A Meca humana em flores de asfalto.
Esculpiste a mim e me deste vida
essa vida minha de libélula,
Sim, tu pintaste minha alma
e me deste teus desejos..
os guardei todos
no baú cilíndrico da memória
Poções de ti que trago na pele.
Cocares teus grudados em mim
anexos,
palavras tuas,
inventos,
sonhos nossos,
tu, pedaço de mim..
E me deste asa de Fênix
e renasci nas tuas mãos
e voo,
livremente voo
nestes céus teus de almíscar
busco-te nas nuvens,
onde cantas as melodias tuas
e se parto, meu amor,
quase moro.
Deixo-te, mas rezo.
Rezo ao Olimpo para voltar.
Cerro meu olho e voo.
Volto,
volto sedenta para ti.
Dá-me tuas mãos, amor
 e me ensinas a cantar..




terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Trilogia da Saudade

Foram teus todos os meus dias..
Cronologia de ti..
Dias e horas em que vivi à sombra da saudade tua.



E sim, a saudade,
aquela nuvenzinha brincalhona,
 que insiste em atrapalhar o sorriso do sol..



E hoje, meu amor,
 a saudade é tanta e estamos tão longe...
 e eu já não sei como cantar-te..



Nota de Rodapé:
1. Van Gogh's Room at Arles, 1889 - São três versões distintas da mesma pintura, ao que eu chamaria de "A tela mais solitária do mundo" (México - Jan/2011)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Faz-me respirar



E leio o presente que ganhei de ti, poeta.
Invades meu rosto em águas,
Lágrimas em linhas de mel,
Versos de ouro que fizeste para mim..
Amo-te, poeta meu!
És o dono desta alma minha
Inquieta, curiosa, humana..
Inalo teu perfume entre as brisas do café.
E trago comigo, na alma, o som da tua boca,
cantando em dó menor, teus versos.
Sim, teus versos, poeta
Entranham em mim como chuva.
Chuva que se derrama na terra
Escorrendo a pele em dedos teus de poesia
E percorres o dorso em néctares que ganhei de ti.
Poeta, tu és água onde banho minha alma nua.
Vestes a mim com tuas sedas coloridas.
Inebria-me de ti, poeta
Faz-me respirar..
Quero respirar-te..
Respirar-te assim tão meu, tão doce, tão singelo.
Poeta, canta-te em mim
Sou só instrumento de se tocar
E a tua poesia, amor, é tato.
 E eu quero-te nas manhãs da minha vida,
Quero-te luz diante da persiana
Quero-te café, vinho, ócio
 Mar de me banhar,
Água de ti,
ar de respirar..

(México - jan/2011)





Poema que voa nas linhas do vento



E eu desenho o último poema,
um poema de quimeras angelicais,
devaneios de esperança para o ano.
Um poema leve, solto em linhas de vento
poema de cantar em voz doce.
Foram tantas canções que fizemos, eu e tu, poesia,
músicas sacras que cantamos ao amor,
desejos nossos de liberdade azul.
Companheira de eternidades,
tu, poesia minha,
és a nuvem onde me debruço para olhar o mundo,
são tão íntimos nossos laços,
elos que fizemos no decorrer da vida,
e já derramamos tantas lágrimas
e alegrias muitas de infância.
Contigo fiz da minha vida uma melodia de se pintar,
poesia onde canto as dores minhas,
os céus em nuvens de baunilha
e esse mar à minha janela..
Mares meus onde tu flutuas em ondas
Vens e vais em águas rasas
incessantes canções de infinito
Oceanos de poesia onde mergulho
versos
onde encontro perdida a alma minha.

Nusa Dua

Monólogo da Tristeza

E sim, meus versos nascem da dor
lâmina de cortar a alma,
dilacerando a carne.
Tristes poemas imersos no mar,
infindáveis águas profundas.
Eu fui outrora rio que desaguava no Índico
Rio de cores muitas,
deuses vários,
flores tantas.
Faróis que vi neste oceano
iluminando meu olho de lágrima
lágrimas que vertiam neste rosto
este rosto meu..
triste,
sozinho..


Estaleiro



Eu era vazia de ventos, poeta..
Mas tu me trouxeste a tempestade!!
E rompes minha alma,
E invades a mim
E eu vejo aqueles teus olhos..
Ahhhhh esses teus olhos, poeta!!
Olhos de areia onde eu,
ave deserta, voo procurando água.
Dunas de ti que cruzo na imensidão do azul para encontrar-te.
És sombra, árvore, fruto..
és cais de areia onde atraco.
E eu, barco à vela, desejo nunca partir..
Quilômetros que andei..
Oceanos que vi no horizonte!
Sim, poeta, és tu o estaleiro meu..


foto: D. Possamai - Davenport - N. Zelândia

As tuas flores, amor



E sim, te deixo junto as flores umas palavras minhas..
Ramos que colhi ao amanhecer em mim. 
Petálas tão singelas, tão humildes.
 Aceita-as, carrega-as contigo!
 As trouxe para ti!
Tuas são porque nada mais sei de mim.
Quero apenas dividí-las contigo,
 presentes que te quero dar...
Sou sombra tua que espera,
 a cada manhã,
 o sol refletir nos versos teus.
Ansiosa,
para que no cálice de vinho,
 eu me embriague da poesia de ti.


 


América de mi pueblito




Minha alma é da cor negra
E o meu coração América
Latina de todos os cantos
E eu te ouço América minha
em batuques tantos e fiestas
Atabaques, tambores teus
Pueblos que vi..
Me haces llorar, América mia
tienes tantos colores
Y tu voz entre los rios y la gente tuya
São todos filhos teus
Expatriados,
Ingênuos nativos
imigrantes de coração livre,
condores que riscam teu céu.
Acolhes a todos, madre tierra
E és tão grande e tão bela..
E se te canto, América,
mujer hermosa
es porque soy tu hija
É porque te sinto minha
Mi sangre se confonde con el tuyo,
madre tierra de nosotros
Y te amo, América
Soy tuya..

(México - jan/2011)



Fotos: D. Possamai - Altiplanos/Caminito

Intróito para o Ano Novo




E então passam os dias
os minutos
a vida..
Passam-se as horas findas
e o Ano chega,
novinho em folha
cheio de esperanças renovadas,
sonhos que a gente cria durante o período,
desejos que lançamos ao mar..
jogando flores à Iemanjá.
E damos adeuses ao Ano que passa,
velhinho já,
cheio de rugas.
Na estação, junto à plataforma,
o Ano sobe no trem.
A locomotiva parte em apitos muitos,
apitos fumegantes anunciando a passagem.
O Ano finalmente parte
Deixando-nos apenas lembranças
umas contas para pagar
e quimeras tantas.
Mal saímos da estação
e do outro lado,
surge brilhante o novo..
O tempo novo em seu boné de menino
peralta, sapeca, levado
e ele vem acompanhado de Esperança,
a linda deusa de coral
e nos incumbe de cuidados generosos
e desejos sem fim.
Braços abertos,
ansiosa espera,
recebemos o Ano que se aproxima..
E é um jovem tão curioso o Ano Novo
e tão cheio de planos
que os traçamos todos num só dia.
E então, saímos da estação como quem foge da prisão..
insanos, velozes..
Ávidos
pela rua...
procurando no vento invível
as matizes de Renoir.