quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Os dons - J. L. Borges




Da minha literatura diária, ando devorando Jorge Luis Borges.. este viejo hermano que foi ficando cego "como um lento entardecer de verão" e que sobretudo amava enciclopédias. De sua obra sempre me encantaram os contos em "O Aleph".
A América, esse continente nosso multicultural e colorido,  me fez desejar um mergulho num mar de Borges.. Recomecei com "O Livro de Areia", escrito exatamente no ano do meu nascimento, obra que faz nítida alusão ao mundo cego..
Na continuidade da minha total embriaguez de Borges, sigo lendo o "Atlas" e me deparo com um poema que me deixa emocionada...Eis:

Os dons


Foi-lhe ofertada a música invisível
que é um dom do tempo e que no tempo cessa;
foi-lhe ofertada a trágica beleza,
foi-lhe ofertado o amor, coisa terrível.

Foi-lhe ofertado saber que em meio às belas
mulheres deste mundo há apenas uma;
pode uma tarde descobrir a lua
e com a lua a álgebra das estrelas.

Foi-lhe ofertada a infâmia. Docilmente
ele estudou infrações de espada,
a ruína de Cartago, a apertada
batalha do Oriente com o Poente.

Foi-lhe ofertada a língua, essa mentira,
foi-lhe ofertada a carne, que é argila,
foi-lhe ofertado o obsceno pesadelo
e na vidraça o outro, o que nos mira.

Dos livros que o tempo acumulou
foram-lhe concedidas poucas folhas;
de Eleia, paradoxos comedidos,
que o desgaste do tempo não gastou.
O altivo sangue do amor humano
(a imagem é de um grego) lhe foi dado
por Esse cujo nome é uma espada
e que recita as letras para a mão.

Mais coisas lhe ofertaram, com seus nomes:
o cubo e a pirâmide e a esfera,
a inumerável areia, e a madeira
e um corpo para andar em meio aos homens.

Foi digno do sabor de cada dia;
eis tua história, que é também a minha..




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