sábado, 26 de março de 2011

Canção para Maiakovski e um epílogo




Sabes, poeta..
viver é coisa sem precedentes.
A neblina na relva,
o caminho de pedras e flores,
o amanhecer na praia.
E como andam fantasiadas as pessoas..
são os eternos carnavais de Veneza.
máscaras
máscaras
máscaras
prédios
prédios
prédios
nada
nada
nada
Poeta, viver é um morder o céu.
Canta-se a Deus e ao Diabo
as lamúrias nossas de cada dia
e chora-se,
chora-se por que há dor
e há dor
e há nada.
As revoluções, poeta, se perderam.
Há caminhos muitos e homens maus
enegrecendo a vida.
E sem ídolos, poeta, não há alegria
nem disparetes
nem fúrias apaixonadas.
Sempre é segunda, poeta..
Os dias são cinzas e pesam na alma.
Já não tenho mais horas,
nem dias,
nem canto ao sol.
Sou aquela que não mais crê..
e Deus é esse velho embuste
a fantasiar a cabeça de pusilânimes
e são tantos e tantos e tantos, poeta,
que pesam sobre a superfície do planeta..
Sabes, poeta..
viver é separar as águas
rios
mares
canais
e sonhos
sonhos sempre,
quimeras infindáveis.
Porque a vida não é senão sonho.
Já não somos reais..
nem eu, nem tu, nem as máscaras..



Epílogo:
as máscaras caíram
e perderam-se
e desmancharam-se..
aos pedaços..
no Grande Canal.
O Grande Canal, poeta..


Floripa, abril/2010, pelos 80 anos de morte do poeta Maiakoviski, um dos meus preferidos .. O leio avidamente..
fotos: Carnaval de Veneza (d. possamai)



Maiakovski

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