sábado, 26 de março de 2011

Os olhos teus




Embriago-me de sol e dos ventos coloridos.
As flores são tantas
e há pétalas muitas encerradas em mim.
Vários são os aromas do céu.
E tantos são os caminhos de nuvem
Embriago-me de tudo o que vive e canta.
O piano, as notas sutis..
Os tons de Matisse.
Embriago-me de vida e de rumores inquietos.
Mas há os teus olhos..
Esses teus olhos a torna-me ébria..
E então..meu mundo são teus olhos!!
Teus olhos..quando me sorriem..


Matisse - A alegria de viver



Notas para o crepúsculo

Cai a noite e todas as suas neblinas.
lembro-te vinho amarelo
e rio tranquilo.


 

Sophia de ti

Sempre me encantaram, de forma profunda, os poetas portugueses.. Há em especial Sophia de Mello Breyner que me faz comover a alma de sorrisos..
Esta semana me encontrei com estes versos..  não dela, mas sobre ela..
Deixo aqui, arquitetado no templo, as recordações de outro que faço minhas..
As recordações de ti, Sophia..


sophia de ti
disseram-me que
recitavas poemas
em voz alta nos eléctricos
que cantavas nas ruas de Lisboa
enquanto os teus filhos te procuravam
(viram a mãe, aquela que troca tudo e não confunde nada)
e dançavas frente ao espelho dos teus olhos
sempre sempre ao desafio

ah sophia
sofia eras
sophia és

(passeei pelo teu jardim
tão abandonado estava
deu-me vontade de chorar)

in Aluimentos, Bénédicte Houart, Livros Cotovia, 2009, p. 56.

Canção para Maiakovski e um epílogo




Sabes, poeta..
viver é coisa sem precedentes.
A neblina na relva,
o caminho de pedras e flores,
o amanhecer na praia.
E como andam fantasiadas as pessoas..
são os eternos carnavais de Veneza.
máscaras
máscaras
máscaras
prédios
prédios
prédios
nada
nada
nada
Poeta, viver é um morder o céu.
Canta-se a Deus e ao Diabo
as lamúrias nossas de cada dia
e chora-se,
chora-se por que há dor
e há dor
e há nada.
As revoluções, poeta, se perderam.
Há caminhos muitos e homens maus
enegrecendo a vida.
E sem ídolos, poeta, não há alegria
nem disparetes
nem fúrias apaixonadas.
Sempre é segunda, poeta..
Os dias são cinzas e pesam na alma.
Já não tenho mais horas,
nem dias,
nem canto ao sol.
Sou aquela que não mais crê..
e Deus é esse velho embuste
a fantasiar a cabeça de pusilânimes
e são tantos e tantos e tantos, poeta,
que pesam sobre a superfície do planeta..
Sabes, poeta..
viver é separar as águas
rios
mares
canais
e sonhos
sonhos sempre,
quimeras infindáveis.
Porque a vida não é senão sonho.
Já não somos reais..
nem eu, nem tu, nem as máscaras..



Epílogo:
as máscaras caíram
e perderam-se
e desmancharam-se..
aos pedaços..
no Grande Canal.
O Grande Canal, poeta..


Floripa, abril/2010, pelos 80 anos de morte do poeta Maiakoviski, um dos meus preferidos .. O leio avidamente..
fotos: Carnaval de Veneza (d. possamai)



Maiakovski

volúpia tua


Eram belos os castelos de areia que fizeste na praia de mim..
estaleiros de sal
onde viviam presos
teus navios de volúpia!

sexta-feira, 18 de março de 2011

filho meu




sonhei com teu rostinho,
filho que eu quero ter.
filho que é unção
que é prova de amor de uma mulher
um filho pra carregar na barriga
um filho que é benção,
poesia,
doação..
entrega desmedida de carinho
parte minha de felicidade

um filho pra ler muitos Quintaninhas
pra jogar bolita,
pra passear no vento
pra tomar banho de chuva..
bebê de dedos frágeis que quero meu
filho pra te dar sentido
um filho pra mim
um filho pro mundo..


escrito em setembro/2010

Quintana


É preciso,
 é preciso urgentemente defender a morte da poesia.
 Poeta, onde estás tu que não me ouves?
 Por que deixaste de preencher vazios nos corações humanos?
 Lembra que a beleza de tuas palavras traziam alegria aos nossos olhares.
 E que a placidez de teus dizeres contemplavam a amargura infinita de nossas vidas.
Oh, poeta, renasce mais uma vez desse mundo sombrio e vens para celebrar o encanto da poesia.
Vens dizer-nos que tu resistes à passagem dos teus anos
 e confirma mais uma vez a beleza da palavra no transcorrer fugaz da tua vida.


 para Quintaninha em 03.05.94

terça-feira, 15 de março de 2011

Poema de folha invisível


Escrevo para ti um poema de folha invisível
na alma minha inquieta desenhado.
um poema sem linha ou rima.
poema  nude que sinto penetrar a pele
como percorrem em mim
sempre sedentos
teus dedos de magia.
a folha invisível te descreve velozmente
tuas mãos de querer profundas
teu rosto que me olha quieto
olhos que parecem admirar essa estátua inacabada
eu, a estátua nua, buscando teus braços
pontes que nos ligam como amálgamas
tu és o manancial das águas minhas de mar
e eu te refaço em poema
pra dizer-te do meu amor ingênuo
do meu amor calmo e cais
faze meus teus dias
e canta-me nos versos teus
na areia que desenhaste sob os meus pés..

segunda-feira, 14 de março de 2011

Coração urgente



Perdoa-me por todo o amor que senti..
meu coração é urgente e não sabe morrer
eterna flecha de cupido
sempre apaixonado
coração de nuvem
sonhador
coração que ama,
ama,
ama,
ama,
nada mais..

A nuvem que via o mar



Tudo era branco, pálido, morto
A loucura insensata branca
e as pardas paredes brancas
bardos colares brancos
penas,
santos,
deuses
cinza branco
cimento branco
árvore branca
o mundo era branco
vácuo branco
galáxia nula
poeira nihil
planeta inexistente
satélite nada
anti matéria branca
só o mar
o mar sim,
o mar era Negro e Morto e Marmara
Brincando de nuvem eu vejo o mundo de longe..
não é azul..
é branco de tudo e negro de nada..



às vezes me imagino nuvem e brinco de pintar o mundo em cores primárias..alcança-me o verde pra eu pintar as araucárias e os sorrisos amarelos.. sorrisos amarelos verdes de esperança.. para um amanhã melhor e furta-cor!!


Orfeu da margem do rio






entre Orfeu e o que sou
há apenas uma margem
uma margem de rio desenhado a nanquim.
gaivotas voando longamente o azul
e a felicidade travestida em pedra.
há também alguns panfletos
panfletos rasgados de uma greve falida.
e guitarras sufocadas de nevoeiros,
e há muitas pontes
pontes entulhadas por suicidas apressados.

entre Orfeu e o que sou
eu escolho um jantar de vela solitária
e brindo à literatura crucificada.
uma só taça sobre a mesa.

no dia mundial da poesia, eu brindo a mágica da letras..

fotos: D. Possamai

Diluição de mim..


" (...) teu corpo dilui-se nos ossos da página,

 contamina as cartilagens das sílabas (...)."


Al Berto, in "Degredo no Sul"

"Nymphea", fotografia de Philippe Berthier


Penso-te!!


E eu passaria o resto da minha vida lendo-te..
 linha a linha..
 letras que navegam no grande oceano da tua alma..
 Poemas de mar e amar..
 Tu tens alguma metafísica incompreensível aos meus olhos humanos
 e sim, tua beleza tem sempre algo de indízivel..
Penso-te!!
 E eu não me canso de te pensar!!
 Tu és todo um poema que eu recito a uma lassidão invisível..
 Isto és tu..
 e eu adoro dizer-te!!





Odisséia


Regressei a Ítaca
perdi-me distante nas ruas
já não eram minhas..
nem Helena..
Helena já não era bela
perderá sua força
tornara-se um misto de pó e dor.
Já não havia sinais da guerra..
os muros outrora imponentes
eram agora frágeis espólios de uma riqueza perdida.

Ulisses partira no porto
Eu olhava atônita os restos..
ah, os restos..
eram tantos
eram grandes
eram fantasmas evocando vida
Já não havia mais nada
nem cais
nem navios
nem o muro.
O frio é muito
e muitos são os detritos da história.
Já vão longe os anos.
A odisséia continua
sem regresso
nem espera agônica.
Depois de um longo tempo adormecidos
que os heróis ajudem a escapar ao Hades.


Poema escrito em algum lugar no Egeu a caminho de Santorini - 2005




foto: D. Possamai

quarta-feira, 2 de março de 2011

Boca de laranja poema


E que meus olhos não me bastem para ver-te.
Que eu viva à sombra tua,
ouvindo da tua boca
pronúncia,
pranto,
promessa.

Boca de laranja poema.
Dedos de orvalho a percorrer meu cabelo,
lenço teu dourado..
no vento silencioso do mar.
Eu..
Tua..

És ardil.
És manhã.
És canto de se sentir na alma..
na pele nua..
a pele esta,
que espera..
..
a poesia tua..





Escrever é navalhar-se




Escrever é navalhar-se!!
Cortar-se aos pedaços a cada nova linha..
Imprimir-se em tintas carmim,
de sangue
Partes de alma desfeitas em letras..
Escrever é partir-se..
Espalhar-se pela casa..
Desfazer-se em folhas..
Escrever é retirar a maquiagem
 É andar descalço..
Palavras são protestos, lamentos, amores..
Isto sou eu..
 Crua,
Liquefeita,
 Me desfazendo aos pedaços.
rendas de bilro que rasgo..
 folhas que vão para o lixo..
Palavras que perdi no grande escafandro de mim..



Van Gogh e o azul na escuridão








Porque eu vi os corvos voando no azul,
o óleo negro pintando na tela.
O que viam teus olhos, VanGogh?
Não sabia-te mestre?
Nem gênio?
Que devaneios tu enxergaste naquela tarde?
Não eram corvos, pintor!
Eram anjos caídos a te buscar.
Eram as letras à pena escritas nas cartas ao teu irmão.
O dia enegreceu, mestre.
Os corvos,
pontos alados em azul na escuridão,
sonhos negros,
letras negras,
gatos voadores negros.
A tua loucura, mestre
é devaneio de angelitudes e amarelo.
Amam-te as tintas e todas as tuas matizes.
Amam-te como amantes apaixonadas
e correm a face tua como lágrimas de Deus.
A vida, mestre..
A vida é tinta preta
e branca
e cor.
Estuda o azul e o amarelo..
O dia logo vem!!!
Os corvos..
os corvos..esses também
São os eus negros a voar no azul de ti.