quarta-feira, 27 de abril de 2011

No jardim de Monet eu escrevo




Que faço contigo agora, já que és a lua,
as flores, a noite, os cachorros,
 todos os amigos??



E se as flores murcharem, meu amor??
que faço??
desenho-te pétala na pele?
ou busco-te no jardim de mim?


E as magnólias no vaso da sala..
olham-me agora..absortas
cataventos de pétalas
onde pousam tuas mãos de veludo..


Giverny, abril-maio/2011

Prece a Iansã

Iansã me dê um punhado de ti pintado de verde,
 montanha,
 pra eu te ficar contemplando,
 água tua,
do mar..

Devaneios de Goya quando menino

(dos devaneios de infância)
Eu via aqueles argonautas e tinha medo..
eram homens grandes.
lacanianos construindo cidades na metafísica..



(das confissões do menino)
sempre me encantaram as sentenças inúteis
 e as árvores com o tronco pintado de branco..


(da maturidade)
Quando menino, atraíam-me os crepúsculos,
os arrabaldes e a desventura;
agora, as auroras de outono e a serenidade.
Já não encontro graça em Hamlet.


embriaguei-me de ti, Goya..
nos museus,
quis pensar-te como pensavas..
"o sono da razão produz monstros."

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A imensidão do branco


Francisco Moreno nem te chegou a conhecer.
Tuas catedrais de gelo,
teus arcos ogiva,
tuas arquitravas de Chartes ..
O grande Deus imponente
e a imensa nave gótica diante do meu olho..
Eu, ínfima, me curvo diante de ti..
Tua imensidão branca,
tuas grutas azuis e o canto teu..
sinfonias que emanas sobre as águas..
És tão grande e tão denso
que feres os desprevenidos de mãos nuas..
Mas és também como um abraço
um abraço que aninha, consola..
um longo abraço branco..
Sê grandioso e imponente ante os deuses!
Não te deixes castigar pela cobiça humana
nem pelo descaso com a casa tua..
Celebro-te como diamante que a água lapida,
e canto-te
canto-te como os gritos de condores sobre a montanha,
como o estrondo que derramas sobre o rio
como a fúria plácida da natureza.
Cuida-te, Perito
Conserva-te para os que virão depois de amanhã
Conserva-te assim,
templo de gelo,
imenso e branco..




Fotos: Daniela Possamai

El fin del mundo

Me puse a caminar
y encontré el fin del mundo.
Es tan lejos el fin del mundo
y tan solitario.
Pero hay su poesia de mar.
En el fin del mundo hay un perro que llama Antares
y también hay un faro,
un viento que grita,
algunos albatros
y un canto de sirenitas,
donde se escucha el beso del Atlántico con el Pacífico.
En el fin del mundo encontré conmigo misma
y hasta encontré la poesía desde el fin del mundo.
Me puse a llorar.
Yo, la poesía y el fin del mundo,
los confines de la tierra y el comienzo del mar.
En el fin del mundo me puse a caminar.
Soy solo caminante
y camino ahora hasta al cielo que se cae azul ante mis ojos.
El final es siempre el mismo principio.
Ahora dejo el mar,
me voy
adelante,
adelante,
adelante
a mi me gusta caminar..



















escrito em 17/04/2011, conforme a profusão das minhas lembranças, entre El Calafate e BUE. O fim do mundo está mesmo em nós..

fotos: Daniela Possamai

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A poesia de Hornos

E na ilha de Hornos eu tive a emoção de encontrar poesia em estado bruto, desenhada na pedra .. lembrei-me da história das navegações, da coragem dos bravos que se lançaram ao mar desconhecido e me pus a chorar..


"Soy el albatros que te espera en el final del mundo,

Soy el alma olvidada de los marinos muertos,

Que cruzaron el Cabo de Hornos,

Desde todos los mares de la tierra.

Pero ellos no murieron en las furiosas olas,

Hoy vuelan en mis alas,

Hacia la eternidad,

En la última grieta de los vientos antárticos” .

(Sara Vial)




Foto: Daniela Possamai
 momumento ao albatroz do Cabo de Hornos

A mulher do fim do mundo

Imagino a tua solidão, mulher..
Dói-me ousar pensá-la..
És tão jovem para o fim do mundo
e só há teu homem,
teu filho,
teu cão..
o vento que vem da Antártida
e o mar..
o mar todo a tua volta..
Dói-me pensar-te,
mas entendo-te..
Tens tudo.
Tens Deus.





Dedicado à Carmen Gloria Leiva.. pela árdua tarefa de viver isolada do mundo, sob os ventos gelados da Antártida, a guarda-parques da Ilha de Hornos.
Fotos: Daniela Possamai

terça-feira, 12 de abril de 2011

Périplos twitterianos

No mar do teu corpo eu
encontrei os faróis e portos onde fiz minha casa..
Os périplos que desenhei na anatomia de ti..

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Samba dos adeuses..




Adeuses são pássaros que voam libertos..
no azul.. 
 tempos à espera de acontecerem..
Quiçá..
 Um dia..
 libélulas verdes a quem chamamos Esperança..
as velhas mãos trêmulas que parecem abanar ao nada.
Adeuses são intervalos,
interins,
entrementes,
espaços vazios,
vácuos.
imensos vácuos negros..
A vida é sempre um grande trem de menino..
São vagões amarelos os adeuses..
parados..
estáticos..
 na estação!!




Escrito à bordo do Via Australis, em algum lugar entre o Cabo Horn e a passagem de Drake, depois de muito observar os adeuses no Porto de Ushuaia.
Entre o fim do mundo e mim - 07/04/2011

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Meu amor invisível





E eu amo tanto
que já nao tenho mão, nem pé..
sou coração levado pelo vento
como folha vermelha de outono,
visivelmente feliz..
Eu amo como amam os poetas
Inocente.
Silenciosa.
Apaixonada.
E o meu amor é tão imenso
que não ouso sentí-lo noutras horas.
E tão valioso que nem a distância dos dias o transmuta.
Meu amor tem cor de fruta colhida na primavera
e canta, silencioso canta, a melodia em dó menor.
Meu amor é tão longe
que eu, amando, te sinto no perfume do vento
E tão perto que não é preciso
mãos para tocar-te
Nem olhos para ver-te..
Eu amo como amo a vida e as flores,
as cidades e os rios
e as grandes invenções de século.
Eu amo a ti, minha metade
Um amor santo,
Benção,
Prece,
Templo.
Meu amor é coisa invisível
mas tu o sentes invadir os poros e a alma
como invadem a ti as notas florais
E então,
meu amor não precisa explicação
nem teoria
nem acidentes geográficos..
Meu amor era meu, mas apareceste tu,
minha filosofia, e eu..
eu te dei o meu amor como quem doa um coração acidentado..
um coração que só ama..
e amando, sofre..
Sofre as noites de solidão e silêncio
Sofre os dias sem a canção tua
E eu vivo então meio morta
à espera..
à espera das milagrosas noites..
as noites em que finalmente
eu possa ainda te sonhar..