terça-feira, 24 de maio de 2011

Odisséia em três movimentos



I

Perdi-me nos labirintos da cama,
no poema que desenhei sobre os lençóis.
É o teu beijo a despertar meu rosto que dorme plácido
e a tua mão a tocar minha pele vestida de nudez.

II
Lembro-me da chuva que caía ontem sobre a casa
e dos corações apaixonados que saíam de nós e invadiam a sala.
Deixaste o esboço que fizeste de mim sobre a mesa.
Uns traços leves, febris,
uma alma curiosa, inquieta.
Vesti-me com a tua camisa,
andei pela casa..
pés descalços de ternura..
E diante da porta,
o beijo que me deixas antes de ir..
o adeus que se arrasta sem fim.

III
Amor, eu quero ir-me contigo onde fores
Descansa tua mão na minha e leva-me,
Leva-me junto
na odisséia do dia..



Penélope moderna sou eu, só pra estar contigo, na pele da alma tua,
na aura do coração meu..
Seriam inúteis os retalhos em crochê..

Antigas releituras



E virei um Sísifo cansado..
sem pedra..
sem nada!!


Sísifo - Tiziano (1549)

Da Vinci e a vã vaidade



Há dias imersa na vida e na obra do grande gênio Leonardo da Vinci, vi pinturas, projetos de voo, extensos ensaios sobre a maravilhosa anatomia humana, um estudo sobre as águas, as infinitas proporções do rosto, um belíssimo tratado sobre a pintura..

De tudo, de tudo o que vi, estudei e vivi fica premente em mim um diálogo..não são as pinturas, nem os ínfimos detalhes, nem os códigos reflexivos.. mas um diálogo.. um diálogo apenas..

Um colóquio que me inquieta a alma porque me reporta à brevidade e a não gratuidade da vida e algo que li, há anos, em Eclesiastes.. "vaidades, tudo são vaidades e vento que passa.."

Trata-se do diálogo entre o mestre e o seu imenso amigo, Francesco Melzi, nos dias anteriores a sua morte em 02/05/1519 em Amboise, França.


- Luce, luce, luce, lampada.
Quante parole che si sanno.
Lampada, luce, luzerna e Francesco.
Parole che sono cose precise.
Persone, sentimenti.
Ogni cosa una parola, anche la più picolla.
Granelo, formiche
E tutte queste infinite parole che si conoscono e le cose imparate, estudiate ed i ricordi.
Tutte queste cose que sono la nostra richezza acumulata.
Que sono noi stessi in un atimo.
Un atimo prima ci sono e solo un atimo dopo si muori.
No sono più nulla. No rimane piu nulla.

- Nulla no, e queste opere, queste quadri, studi??

- Povere cose, Francesco.. Povere cose..
Nulla, rimane nulla.

-Maestro, ma il ricordo!! Il ricordo di noi che gli altri se metttono e se metterano ad portare dentro..

- Forse quelo, soltanto quelo.



"Ele foi um homem que acordou cedo demais na escuridão, enquanto os outros continuavam a dormir."
— Sigmund Freud

Abstrações e outros retângulos geográficos

a geografia é uma esquina escondida à espera de encantos..


São pontes de aço os abraços entrecortados sobre o muro.
Berlim resiste..
quieta..
sólida..


No fim do mundo eu perco a noção dos dias..
 As horas são neves e os minutos se confluem em grandes blocos de gelo.
segundos de um relógio inóspito e gélido.





Essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura. (Charles Bukowski)
fotos: D. Possamai


 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O anelo da vida


Tão maravilhosa uma vida eternamente apaixonada,
tão maravilhosos os olhos de ternura
e as canções de amor dos amantes.
Deixas um bilhete sobre a cama
e uma rosa gentilmente esquecida entre os lençóis..
e eu,
eu acordo com a tua poesia, amor..
acordo com o perfume sutil que deixas em mim..
Tão inebriante a vida assim,
o renascer da alegria
a luz da manhã que desperta o meu olho de menina
e o eterno encontro dos apaixonados.
Tão enlouquecedora a poesia da vida
a poesia minha
que descreve a hora esquecida
o anelo de aventura
e o mágico desejo dos amantes.
O desejo que arde,
O desejo que chama,
O desejo que suplica..
clama..
por um beijo apenas..
o teu..


às vezes, o mundo está na tua boca, amor

D.


The Kiss, Theophile Alexandre Steinlen, 1895


The Kiss, Auguste Toulmouche, 1886

Quintaninha e os meus velhos quintanares

Quintaninha,
 um velho amigo de longa saudade.
Há de morar em alguma estrela distante.
Há de nos observar do alto de sua nuvem..
a mágica biblioteca dos poetas.


Meu agradecimento e afeto ao Festival Internacional de Poesia de Dois Córregos
pela bela iniciativa de fazer lembrar o
 grande poeta gaúcho Mário Quintana,
porque seus poemas são o testemunho de que
 também a primavera acontece nas palavras.


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Quimeras de Paris


Não me encantam a torre, nem o Louvre, nem teus campos elísios..
O que me encanta em ti não és tu,
mas o que, misteriosamente, provocas!!
São os teus arrabaldes..
tuas esquinas profusas..
tua inquietude quase musical.
A poesia tua desencontrada e cativa..
a cor imperceptível nos jardins de Monet,
e o grito de súplica na órfã de Claudel.
Para um pouco!
Silencia!
Ouve o que te digo!!
Não és tu!!
São os teus efeitos de absinto!!

Antes de Haussmann não eras nada, minha senhora!
Agora,
perdem-se em ti
os silenciosos e desconhecidos artistas do nosso tempo.
Cantam-te em luzes e os panos todos da tua bandeira,
flâmula de ultrapassados reis e uma coroa hipócrita.
Não, não são teus ícones populares
nem tua revolução utópica.
Não são tuas ruas bonitas, tua língua difusa..
nem teus falsos ares aristocráticos.
O que me encanta em ti é ver-te sob a perspectiva de uma quimera..
é debruçar-me no olhar de um monstro e inebriar-me da tua beleza.







Agrada-me mais outra perspectiva ao olhar atento dos teus milhões espalhados pela praça, minha senhora!!
Descubro que te prefiro como és.. em p&b!!
Fotos: Daniela Possamai
maio/2011

O verso interminável



Poetai, meu amor, o meu amor..
São tuas as doces folhas e as tintas de amar!!
Ou poetes na folha do coração a letra invisível e brilhante..
Poetai as laudas furta-cor do cotidiano enamorado do azul
e o vento misterioso que leva,
de presente,
meu cabelo à tua mão.

Poetai o ruído silencioso nas partituras que compõe minh'alma..
e o frescor das violetas no tapete mágico onde voam meus pés.
Poetai as preces de todos os anjos e santos e profetas,
os mantras, as suratas ou as valsas de Tchaikovsky.
Poetai a vida!!
Poetai Veneza serena e calma dos antigos doges
poetai o encontro e a paixão intensa e descontrolada.
Cantai!
Cantai a alegria dos dias,
o fim do outono,
e os refrões das nossas canções esquecidas.
Poetai todos os versos a minha porta!!
Poetai as flores, as grandes árvores e todos os colibris.
Poetai finalmente a mim.
Com tua boca de encanto, amor..
poetai a mim..





Entre os versos das duas estrofes há um espaço invisível de tempo que eu não sei precisar.. Os versos, os escrevo, os deixo de lado, os retomo, os alimento, mas nunca os sacio.. sempre haverão mais!!!
Existirão sempre mais lapsos temporais entre os novos versos, sim, por que eles haverão de surgir, fortes, hirtos, incólumes..A poesia nunca finda em mim, a poesia é contínua como um rio.. um rio de águas perenes.. Penso, no meu universo, que os  lapsos temporais e a poesia cotidiana são os prêmios dos cronópios.

D.


fotos: D Possamai

A tua boca de poemas





E todos os poemas que te escrevi 
pela sala espalhados.
Soltos,
avulsos,
dispersos..
São teus!
Recolhe-os.
Junta-os..
Sirva-me de palavras.
Todas elas. 
As doces, 
as profundas
as inquietas..
Todas,
Todas,
com o sabor da tua boca..

D.

As horas de Dali




Meu corpo era tão dele,
que pintou em mim,
à mão livre,
todo o surrealismo de Dali...

Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha ao Redor de Uma Romã
um Segundo Antes de Acordar - Dali