terça-feira, 14 de junho de 2011

A esquina onde encontrei a orelha de Van Gogh


Lá estava tua orelha
caminhando sozinha,
percorrendo a esquina de Montmartre.
Andava quieta, hirta.
Cabisbaixa.
Só, imensamente só!
De uma solidão contagiante que a esquina,
 abruptamente,
mudava do amarelo para o cinza.
Tua orelha.
Ali.
Parada.
Não parecia perdida.
Talvez andasse noutros mundos..
numa metafísica incompreensível,
nos intervalos inimagináveis para o nosso tempo.
Tua orelha imersa em quimeras de corvos.
Tua orelha.. lúgubre e fria.
A orelha que afaga o esvair-se das coisas,
que debocha do teu irmão, marchand atroz.
Mestre, tua orelha e tu mesmo..
Figuras atormentadas e inquietantes,
desenhos em linhas contínuas,
vácuos em matizes e outros tons..
Na tela onde derramas teu óleo
um pedaço ínfimo e grande da tua alma
um devaneio da tua inquietude e cor.
Tua orelha, mestre
uma partícula.
Uma partícula miniatura do universo que há em ti.
Os átomos da tua alma..



Matizes e pincéis que tu, mestre
Deixaste lá,
abandonados..






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