quinta-feira, 28 de julho de 2011

Resposta aos versos do amigo



São como pássaros os versos.
Ora livres no vento,
Ora ansiosos aguardando a mão gentil que os liberte da gaiola..
E quando soltos.. voam!
Voam insanos para o céu azul que os aguarda.
São os teus dedos de menino que os liberta.
e livres, em profundo agradecimento,
carregam os beijos em asas de ternura.
Sinta-os..
São os suspiros do vento a tocar a face tua,
os abraços invisíveis que trocam os amigos pelo ar..
Ahh, os amigos,
Pequenos deuses terrenos a nos dar a mão,
A nos ajudar a atravessar a ponte.
E quando os reconhecemos pela rua
a hora mágica se dá,
o momento único..
Quando os anjos, satisfeitos, decidem suspirar..



No dia do amigo, recebi do Henrique, um queridíssimo e lindo amigo de muitas horas e outras existências, uns versos maravilhosos de Wilde.. Aquelas linhas acalentaram a alma como um canção de ninar..
Não pude dizer nada.. só fiz usar a pena.. só fiz dedicar-lhe outros versos!!
Para Henrique, os novos versos..
"Amigos são os encontros que a gente faz com os nossos eus perdidos.."


D.
20/julho

Os dedos matiz de minha mãe



Sabes, mãe
Andei pensando na tua mão
Nos dedos de matiz a recriar a arte madura
No colorido das telas onde pintas teu coração..
E descubro-te grandiosa
Às vezes és flor, colibri, leveza
Carvão noutras horas
És tu uma leoa matizada!
Pinta, mãe!!
Pinta a vida, a beleza e o porvir
Pinta em cores furta-cor a leveza transparente e sutil das horas
as paisagens, os devaneios e os campos em flor
Pinta a folha invisível e a cor tênue
a matiz dourada dos teus cabelos
E o tom profundo e nobre da tua alma..
Deixa que corram livremente os teus dedos pela tela.
deixa que deslizem os pincéis,
que os pingos caiam
que as luzes adentrem o quadro como sóis incontroláveis e pálidos
Pinta, mãe..
pinta a tua tinta e ama..
Pinta e a vida e alma..
a cor do teu sorriso..
o teu desenho colorido
a criança e os seus pinçéis..


Mother and Her Daughter  - Risener


Mother Holding her Child in a Doorway -Ostade
Mother and Child - Grebber

O Discurso do Rei ao Barão das Abóboras



És tão triste e amargo
que as tuas agruras refletem a tua porta.
Passam os teus anos,
 mas tu, pedra sólida,
não te deslocas nem te tornas belo.
Quem são teus algozes, criança?
Que tamanho têm teus demônios?
Aniquila-os e vive..
Vive a existência que te deram os deuses
Goza a vida num olhar azul de céu.
Livre.
Sem os teus embustes moralistas vários,
sem teus dogmas ultrapassados,
sem tuas culpas tristes e pretas.
Acorda.
Anda.
A vida é só um piscar de olhos!!
Anoitece.
Amanhace.
Vêm a tarde.
Cai a aurora.
Vai-se a vã existência.
Nem nada, nem poeira ou coisa nenhuma ficará!!
De tudo,
 de todo teu orgulho inútil e vaidade,
só te restará a morte!
Nada permanecerá!
Nem o teu nome!!
Até mesmo o teu nome o tempo apagará da lápide..

Reino dos Embustes, ano II do calendário juliano

Pieter Bruegel “O Velho” - O Triunfo da Morte

As Elipses no reino da Gramática






E eu faço Elipses..
Elipses silvestres soltas à natureza selvagem..

E como se encondem as Elipses??
Inserem-se em metaformoses causuísticas..
Contemplam a linguagem como damas inocentes escondidas atrás de obscuros véus moralistas e dogmáticos..
Seriam frutos da sociedade que respira hipocrisia e outros perfumes??
Seriam elas senhoras  ingênuas e provocativas a esconder-se de ti?
Ou da vida, quem sabe??

- Não, as Elipses são minhas - disse a Filha da Baronesa envolta de uma pseudoconfiança burguesa..
- As tenho comigo desde a infância, as comprei em sonhos infantis e meus broquéis de menina..
- Deixe-as em paz!!!

Mas as Elipses, curiosas pérolas humanas, desejavam vida.. Desejam romper estes grilhões oxidados e putrefatos. Eram de azul seus anelos.. Eram de curiosidade e estupefação seus desejos..

Um belo dia, Paradoxo, o príncipe e sua armadura, aproveitando-se do sono da baronesa, as libertou..

E elas, as Elipses, voaram insensatas pelos céus de outono..apropriaram-se de todos os versos e redesenharam os manuscritos da Gramática, reino onde outrora viviam enclausuradas..
Gramática, país de aldeões e vacas mundanas, agora tornara-se jardim de enciclopédias e outros livros.. Os Poemas, as Elegias, as Antíteses, os Hipérbatos, todos, todos imigrantes desesperados pelo mundo que se erguia novo e brilhante..

Elipse, encantada com a bravura do bom rapaz, prometou casar-se com Paradoxo.. Um anel de diamantes surge impávido no dedo de Elipse.. os dois, noivos agora, aguardam novas luas e o ano vindouro para finalmente casarem-se na Igreja do Santo Pleonasmo...
Passavam-se os dias e algumas horas e ela, linda dama, num passeio primaveril e ingênuo, sem querer, inocentemente, apaixonara-se por Hipérbato. Era um amor proibido e portanto, recluso aos muros externos da Gramática.. A paixão entre eles crescia nas progressões geométricas e então, ensandecidos os dois, Elipse e Hipérbato, deixam Gramática,  e fora dos muros, nos limites do exílio, expatriados, degredados, juntos foram viver..
Apenas o reino do Dicionário os acolhe. E lá, longe de tudo e todos, no frio profundo do fim do mundo, criam seus filhos e vivem o que lhes resta da existência .. Elipse morre após dar a luz ao terceiro filho do casal e Hipérbato, desolado e só, suicida-se!!


Escura é a noite,
mas juntos agora,
dormem os amantes..


Mark Rothko - Black on Grey

Epílogo: órfãs, as três crianças, Esfera, Cilindro e Algoritmo, são adotadas pela bondosa e bela Matemática.. Hoje, ainda civilmente incapazes, moram no reino da Geometria, estudam volapuque e praticam rabeca nas horas vagas..
Os mais velhos tem ínfimas recordações dos pais; o menor, de nada lembra.. Matemática os conforta mostrando antigos retratos e contado-lhes histórias de cujo amor heróico e gigante foram frutos.. A tragédia de outrora, por obra da Matemática, renascia menos trágica..
A triste história que vos contei, finalmente fora convertida em partitura melodiosa  pelas mãos caridosas de Circulus Geometricus, célebre compositor de outrora, e ainda hoje é entoada como requiem nos feriados e dias festivos pelas ruas da Geometria..

Escura é a noite!
O dia, mesmo que imerso na mais dura neblina,
ainda surgirá brilhante..

Mark Rothko - White Cloud over Purple
 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Os livros, os poemas e o vento



Abre o livro e voa..
pega carona nas folhas soltas de te transportar a outros mundos.
Viaja no livro que lês!!
Ali estarão as anêmonas, as clepsidras e as astronaves do todos os tempos..
Livros são grandes pássaros
e mesmo que voem ao alto e te deem medo,
jamais cairás da nave..
livros são zeppelins de respirar,
e ainda que percam altitude..
livros são os próprios paraquedas..


Faz o poema e foge..
deixe que ele saia da tua mão e parta..
deixe que voem de ti os versos azuis de vento..


A estética da ausência



Ausência, uma porção de dor!!
e como machucam tuas horas
e como são difíceis os teus dias..
te olho de relance, Ausência..
és tão fria e tão longe
que sequer ouso te chamar..
mas tu vens mesmo assim
e entras na sala
e me olhas nos olhos como quem busca a alma..
és o tormento onde residem os amores perdidos
os vácuos meus por onde navegam os pensamentos órfãos..
mas és também um jardim
um jardim onde florescem as flores cinzas da perda..
As margaridas sem água,
As pétalas de ontem..
és tu o próprio retrato da insensata morte
A morte, mesmo quando ainda se vive..



"Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde."
(J. Luis Borges)



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Arqueologia de folha avulsa


Não sei se são cidades que desabam na distância,
 não sei se sou eu a face do estranhamento..
já não me sinto igual.
Ensandeci..



Arqueologia de moleskine




E então andava perdida


 - pelas cavernas de Lascaux -


a procurar a própria alma..



Entre Wilde e Gaiman, o coração das coisas frágeis..




No ano passado, por conta de um amigo apaixonado pelo herói Sandman, personagem de Neil Gaiman, li um texto que, de tempos em tempos, percorre a minha alma pela beleza, simplicidade e verdade do que diz..

A peculiaridade da maioria das coisas que consideramos frágeis é o modo como elas são, na verdade, fortes. Havia truques que fazíamos com ovos, quando crianças, para demonstrar que eles são, apesar de não nos darmos conta disso, pequenos salões de mármore capazes de suportar grandes pressões, e muitos dizem que o bater de asas de uma borboleta no lugar certo pode criar um furacão do outro lado de um oceano.
Corações podem ser partidos, mas o coração é o mais forte dos músculos, capaz de pulsar durante toda a vida, setenta vezes por minuto, e não falhar quase nunca. Até os sonhos, que são as coisas mais intangíveis e delicadas, podem se mostrar incrivelmente difíceis de matar. Histórias, assim como pessoas, borboletas, ovos de aves canoras, corações humanos e sonhos,
também são coisas frágeis...”
 (Neil Gaiman)

Oscar Wilde, autor de O Retrato de Dorian Gray, cuja história me fascina, diz algo humanamente semelhante, não em termos de coisas frágeis, mas sobre o modo como podemos, facilmente, com a força da palavras e outros artifícios, envenenar estes mesmos corações.. 

A gente sempre destrói aquilo que mais ama -
em campo aberto ou numa emboscada.
Alguns, com a leveza do carinho;
outros, com a dureza da palavra.
Os covardes destroem com um beijo;
 os valentes, destroem com a espada...
(Oscar Wilde)


Dos excertos, leio: cuida do coração que bate dentro do teu, cuida com dedos de leveza e não fere.. não fere nunca a alma, corações não são feitos de papel e a palavra.. a palavra, às vezes, é espada..



A pobre louca Esperança




A pobre louca Esperança cai do balão luminoso.
Voa, luz incandescente, no universo das nuvens.
Corra, pelo tapete mágico, as pradarias mais surreais.
Na queda, Esperança fraturou-se.
Machucada, internou-se no hospital mais próximo..
passaram-se nebulosos meses e
a pobre louca ganhou alta.
É filha do Desvario e da Inocência,
anda em trapos pedindo esmolas, pobre louca atormentada!
Vá, cruza as pontes, menina
planta teus devaneios,
colha tuas flores..
No fim, verás que andarás de mãos dadas com o mundo..
E trarás invisíveis alegrias aos teus..
e talvez, venha a morar nos corações mais duros..
Um dia,
todos te chamarão.
Um dia,
todos saberão teu nome, Esperança!!!




















Fotos: Capadócia - daniela possamai

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Loucura


Não vejo o sentido do azul
cinza são os móveis,
os prédios,
as escrevaninhas..
Cinza são os minutos impávidos
as horas tristes.
as flores brancas.


Praha - d. possamai

Exílio





e aqui.
eu.
 criança nua.
 como a nudez eterna.
 céus de outono.
 o mar.
o exílio.
 o deserto.
as palavras.


Praha - d.possamai

Tristeza




Pensamentos tristes,
dispersos.
Palavras inúteis,
 perdidas,
afônicas,
soltas pela folha nua.
Dias sem poesia.
Horas cinzas.


"Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que,
em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste por que vocês são burros e feios
E não morrem nunca..." Quintana

Praha - d.possamai

Interrogatório ao meio dia




E se eu quisesse essa insensatez?
E se eu não fizesse terapia?
E se eu enlouquecesse de uma vez e rompesse a clausura?
Se eu gritasse muda??
Se eu fugisse para a Ásia?
Se eu me pintasse de preto e recitasse todos os poemas do mundo?
Se eu fizesse yoga??
Se eu fosse náufraga?
Se eu saísse do meu escafandro e fosse para Vênus?

- Silencia..Ouve o que te digo! A realidade é cinza e pesa na alma. Viver é pura insistência. Viver é insistentemente respirar.. disse o mestre!





segunda-feira, 4 de julho de 2011

Una cancion de amor y un verso sencillo



e quando não te vejo,
imagino tua boca.
um beijo terno,
longe,
delicado..
e fico a sonhar todos os sonetos
e todas as canções de amor 
e então faço estes versos simples
Acolhe-os!!
Aninha-os na tua mão de menino.
são como pétalas os versos.
são linhas de voar no vento.
ouça-os.
vêm de mim como música..
partituras que pinto no ar
leves canções por onde voam meu amor.
escuta-o..
em silêncio..
bem baixinho..
ele é colorido e não dói..
tem cheiro de flor em primavera
e teimoso,
te repete em mantra..

Música - Klimt

domingo, 3 de julho de 2011

Que o soneto nos pegue de surpresa

Desde a infância me encantam as artes..
Como outrora, sigo ávida às salas de cinema..
a sétima arte sempre me foi uma das formas de encantamento e fantasia..
Nesta inusitada manhã de domingo, pulei da cama e fui ao cinema..
Vi Lope, um filme do brasileiro Andrucha Waddington,
sobre a biografia do poeta e dramaturgo espanhol Lope de Vega..
Sim, a canção e o soneto retumbam na minha alma como os ecos no azul...
As deixo contigo..




Soneto

(Lope de Vega)

Desmayarse, atreverse, estar furioso,

áspero, tierno, liberal, esquivo,

alentado, mortal, difunto, vivo,

leal, traidor, cobarde y animoso;

no hallar fuera del bien centro y reposo,

mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,

enojado, valiente, fugitivo,

satisfecho, ofendido, receloso;

huir el rostro al claro desengaño,

beber veneno por licor suave,

olvidar el provecho, amar el daño;

creer que un cielo en un infierno cabe,

dar la vida y el alma a un desengaño;

esto es amor, quien lo probó lo sabe.


Dos encantamentos de Atlântida


A mim,
 sempre encantaram os naufrágios, os escafandros, as anêmonas..
as Atlântidas do nosso tempo!!

Turner - El naufragio

A sombra de Isadora




Não te bastaram os palcos
nem as sapatilhas.
Tu querias a poesia que gritava presa nos cárceres de Moscou.
Não te bastaram os aplausos
nem a cortina azul que te separava da platéia .
Tu querias Wagner a movimentar o corpo.
Já não dançavas..
Parecias levitar!
Já não eras tu.
Eram teus desejos mais recônditos,
o novo que desenhavas colorido
e uma virtude atônita e helênica.
Tu e a essa fera enclausurada,
sufocada,
presa!!
Podia ouvir-te da coxia, Isadora!!
Os gritos silenciosos,
as súplicas atrozes.
Mas tu, dama comum..
tu já não dançavas!
tu sonhavas a morte dos teus filhos no Sena,
tu olhavas o cinza dos telhados..
Essa era a vida..
E a tua echarpe de seda, Isadora,
mortalha vil que te levou ao fim,
tua companheira de travessia!!
Adeus, Isadora, adeus..
Do Hades, sei que fostes à gloria..


Em memória de Isadora e seus pés de leveza no palco azul.
"Adeus, amigos. Vou para a glória."

Isadora Duncan (1877-1927)

Les enfants de Itapuã




Eram três.
Três lindos meninos negros..
chegaram à minha volta,
adornaram-me em miçangas,
contaram-me seus nomes e anos.
Falavam dos anseios de infância
e farejaram curiosos
a vida que se punha ante seus pés.
Eram três.
Três vivazes anjos de Itapuã.
Três deuses ébanos e sapecas,
filhos de Nanã e Ogum,
orfãos do mar e do sol daquela ilha distante..
Os tenho na fotografia da memória.
Os tenho vívidos no coração de menina
esse coração meu
que procura inconstante
o vento azul da praia.






Nas minhas memórias do distante e longuínquo, eu lembro-me com carinho e alegria de vós, ébanos dourados de Itapuã, Edson, Robson e Cleison