quinta-feira, 28 de julho de 2011

As Elipses no reino da Gramática






E eu faço Elipses..
Elipses silvestres soltas à natureza selvagem..

E como se encondem as Elipses??
Inserem-se em metaformoses causuísticas..
Contemplam a linguagem como damas inocentes escondidas atrás de obscuros véus moralistas e dogmáticos..
Seriam frutos da sociedade que respira hipocrisia e outros perfumes??
Seriam elas senhoras  ingênuas e provocativas a esconder-se de ti?
Ou da vida, quem sabe??

- Não, as Elipses são minhas - disse a Filha da Baronesa envolta de uma pseudoconfiança burguesa..
- As tenho comigo desde a infância, as comprei em sonhos infantis e meus broquéis de menina..
- Deixe-as em paz!!!

Mas as Elipses, curiosas pérolas humanas, desejavam vida.. Desejam romper estes grilhões oxidados e putrefatos. Eram de azul seus anelos.. Eram de curiosidade e estupefação seus desejos..

Um belo dia, Paradoxo, o príncipe e sua armadura, aproveitando-se do sono da baronesa, as libertou..

E elas, as Elipses, voaram insensatas pelos céus de outono..apropriaram-se de todos os versos e redesenharam os manuscritos da Gramática, reino onde outrora viviam enclausuradas..
Gramática, país de aldeões e vacas mundanas, agora tornara-se jardim de enciclopédias e outros livros.. Os Poemas, as Elegias, as Antíteses, os Hipérbatos, todos, todos imigrantes desesperados pelo mundo que se erguia novo e brilhante..

Elipse, encantada com a bravura do bom rapaz, prometou casar-se com Paradoxo.. Um anel de diamantes surge impávido no dedo de Elipse.. os dois, noivos agora, aguardam novas luas e o ano vindouro para finalmente casarem-se na Igreja do Santo Pleonasmo...
Passavam-se os dias e algumas horas e ela, linda dama, num passeio primaveril e ingênuo, sem querer, inocentemente, apaixonara-se por Hipérbato. Era um amor proibido e portanto, recluso aos muros externos da Gramática.. A paixão entre eles crescia nas progressões geométricas e então, ensandecidos os dois, Elipse e Hipérbato, deixam Gramática,  e fora dos muros, nos limites do exílio, expatriados, degredados, juntos foram viver..
Apenas o reino do Dicionário os acolhe. E lá, longe de tudo e todos, no frio profundo do fim do mundo, criam seus filhos e vivem o que lhes resta da existência .. Elipse morre após dar a luz ao terceiro filho do casal e Hipérbato, desolado e só, suicida-se!!


Escura é a noite,
mas juntos agora,
dormem os amantes..


Mark Rothko - Black on Grey

Epílogo: órfãs, as três crianças, Esfera, Cilindro e Algoritmo, são adotadas pela bondosa e bela Matemática.. Hoje, ainda civilmente incapazes, moram no reino da Geometria, estudam volapuque e praticam rabeca nas horas vagas..
Os mais velhos tem ínfimas recordações dos pais; o menor, de nada lembra.. Matemática os conforta mostrando antigos retratos e contado-lhes histórias de cujo amor heróico e gigante foram frutos.. A tragédia de outrora, por obra da Matemática, renascia menos trágica..
A triste história que vos contei, finalmente fora convertida em partitura melodiosa  pelas mãos caridosas de Circulus Geometricus, célebre compositor de outrora, e ainda hoje é entoada como requiem nos feriados e dias festivos pelas ruas da Geometria..

Escura é a noite!
O dia, mesmo que imerso na mais dura neblina,
ainda surgirá brilhante..

Mark Rothko - White Cloud over Purple
 

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