quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Poema para a volta do Exílio



A sala fria e branca do exílio me acolhia.
me senti tão pequena, tão ínfima.
e então eu vi que o que sabia da mim era nada,
que a existência minha era vácuo de significado algum.
Andei em círculos, fiz amigos vários
viajei pelo mundo, vi ruas e povos
Admirei os jardins de flores cinzas
os palácios de outrora e os parlamentos pífios..
mas há sempre um vazio,
um vazio que me olha do canto da sala,
lá, devidamente sentado,
de pernas cruzadas e cachimbo
e eu tenho medo
eu tenho medo que esse vazio contenha o teu nome..


Degredo




para o exílio frio da Sibéria naveguei minha alma.
tudo é branco e gélido!
e o degredo tem um hálito próprio,
de uma cal cinza funesto.
mas eu tenho os teus olhos!
sempre estes teus olhos a me acompanhar..
e então a paisagem ganha cor
e o exílio vira menos exílio.
mas os dias ainda tem aquela negra névoa de degredo
e eu então me sinto meio livre,
meio enclausurada,
meio argonauta,
meio escafandrista.
Alegres, só os teus olhos!!
esses teus olhos de ternura que me olham de longe.
inesquecíveis!
introspectos!
olhos de menino e curiosidade.
olhos que me invadem a pele e povoam a alma..
dois intrusos em mim
a me fazer sorrir
ainda que em pensamento
ainda que no exílio
ainda que de longe..
de mim
de ti
do vento..


Demais, fora tão longe na arruaça, que a derrota seria a prisão, ou talvez a forca, ou o degredo.
(Machado de Assis)

Fotos: D. Possamai

Anatomia de um anjo e o abismo





era um humano,
mas a menina, insistentemente, chamava-o de anjo!
ela acreditava ser um anjo. 
um anjo despido 
enclausurado numa gaiola.
um anjo sem maldade, 
sem embustes!
ela, a estátua ingênua, tinha olhos de credulidade..
e assim o anjo podia voar junto dela.. 

mas vieram muitos abismos!!
pontes imensas cujo final não existia,
travessias incalculáveis,  
tábuas intransponíveis. 
vieram os abismos e o anjo caiu imerso nos paredões de pedra!!
lhe ofereceram a soltura, mas o anjo não sabia voar sozinho.. 
na queda suas asas quebraram-se
e ele ficou enclausurado na sua própria clausura.. 
o abismo o engoliu voraz.. 
A menina nunca  mais o viu!! 
e o anjo, o anjo já  não voa mais..



 Fotos: D. Possamai

Antigos Devaneios e Outros Traumas misturados a Debussy e Magritte



A psique desumana tem algo de próprio que me inquieta..
E então, olho absorta a alma escondida entre escaravelhos e clepsidras..
Encontro neles algum desconforto..
A culpa é a mãe de todos os males.
O medo é a gênese de todos os dogmas..
 Felizes são os cronópios.
Feliz é a menina ingênua isenta de moldes e outros vícios..


Mas há na escuridão
 um blend de fumaças e almas penadas..
 Rumores incertos com inveja do vento invisível e transparente..


Bosch, Bruegel e os Bestiários..
Nos antigos manuscritos e enciclopédias
 é que podemos perceber o quanto estreitamos nossa visão
sobre o fantástico, sobre o mundo, sobre nós mesmos..
e eu fico a me perguntar se a idade das trevas não é, necessariamente, a nossa.




As telas de Magritte são respectivamente: The fake mirror, The Dominion of Lights e The invention of life.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Poema da Entrega


Eu te entrego minha poesia, amor
e esse meu corpo leve.
meu corpo teu de mar
um corpo frágil e suave
como pétala branca que cai e não te fere.

Eu te entrego minha poesia
e a minha alma de flor em primavera
essa alma minha inquieta, febril, curiosa
alma de arco-íris em dias de chuva.
Bebe-a..

Eu te entrego minha poesia
e finalmente te entrego a mim
Toma-me!!
Cuida-me!!
Leva-me contigo..
Diante de ti sou folha
sou coisa que o vento carrega
flor nua que guardas como jóia preciosa na palma da tua mão
Diante de ti sou nada
sou grão de areia,
sou coisa nenhuma,
apenas sorrisos
esses sorrisos meus que tu amas
esses sorrisos meus que te brindam..
que te brindam quando me olhas..



Eu te entrego todas as minhas horas..
cuida-me.. sou só escafandro imenso de coisas mágicas..

Os gritos de Artaud






Compreendi a tua loucura, Artaud!
Imaginei-me no teu corpo,
em partes estilhaçadas.
E de longe, bem longe, pude me observar.
Pude te ver com meus olhos.
Tua loucura, Artaud, era branca!
Era uma insanidade quase facínora,
algo um tanto poética.
A sombra da racionalidade voava longe de ti
ou dos outros.
Mas tu,
tu tinhas os eletrochoques que te davam os outros, os loucos..
Que limiar, que linha tênue é essa Artaud??
Eu a escrever-te sobre a loucura,
a tua, a minha, a deles..
Os outros nunca nos compreenderam..
Quiçá nós mesmos.
Apenas voávamos!
Tínhamos nossas nuvens,
cavalo azul de asas e toda uma imensa avenida de céu..
Mas os outros, Artaud??
Os outros, urubus estáticos..
Ahhh eles nos observam atônitos
como se em nós houvesse pecados e ruídos colossais.
Quem eram eles, Artaud??
Quem eram?
Semi deuses vestidos de branco??
Juízes togados na cátedra??
Não!!
Não eram nada, Artaud!
Não eram nada!
Talvez pó e uma existência pseudograndiosa..
Mas a ceifa do julgamento é quase uma obscenidade vil
e não há olhos nos julgadores!
Há cegueira, há longas vendas cinzas..
E são sempre tristes os julgadores
De uma amargura profunda e preta..
Da negra ceifa surgiram teus gritos
Eu os ouvi.. do outro lado do muro!
Eram de angústia e desespero teus gritos.
Mas tu, Artaud, tu gritava-te em versos.
Tu gritavas teus diálogos teatrais..
Grita!!
Os outros não te ouvirão mais..
Os outros são todos surdos.
E a vida,
A vida Artaud..
A vida é musica de se cantar só, 
Lá, naquela cela, naquele quarto minúsculo onde te enfiaram..
Grita!!
As paredes, todas elas, tem ouvidos..
Mas os humanos,
nós os humanos, jumentos de Deus,
nós não..



20/julho/2011

fiz de ti e dos teus gritos de dor, Artaud, a inspiração da minha música. Cantei tua vida nos meus versos..

“Não quero que ninguém ignore meus gritos de dor e quero que eles sejam ouvidos”.
Antonin Artaud (1896-1948)

Pequeno Imaginário Islâmico


 

Dias de Ramadã..
Céus de Ankara
e ouço o muezim chamar-te para a oração.
O sol não havia se posto,
mas minha fome é outra...


foto: D. Possamai

Poetizar


Na inexatidão dos versos,
ela deixava impressa a inquietude de uma alma faminta.
E cada palavra tinha um quê de confissão..
 eram dela os poemas incompletos,
 as estrofes vívidas
as folhas quietas 
as letras paradas..
Viver era em versos respirar
Viver era, definitivamente, poetizar!!!

Foto: D. Possamai

O amor em três atos semióticos



(A beleza solitária e o amor)
E ele perguntava-se o que amaria nela,
afinal não possuíra beleza nenhuma,
não era doce, nem poeta..
soturnamente, ele via-se só..
Era a solidão diminuida que o encantava..
Nada mais..

Hopper - Room in New York


(O amor perfeito)
 Era um amor tão possível que morreu..
 Morreu de tédio e frio e nhê, nhê, nhê..
 um amor mulherzinha..
o amor perfeito é flor apenas.

Hopper - Room in Brooklyn


(O amor quando cai a noite)
Era noite. Tateava as lembranças do amor.
A cama vazia e as paredes nuas. 
Já não a tinha mais. Já não percorriam suas mãos a pele.
O amor, quando não esquecido, dorme entre os amantes.
a escuridão é sempre a mãe das lembranças..


Hopper - Empty Room

Adágios sobre o tempo - parte III


O tempo é o relógio que o avô, velhinho já, esqueceu sobre a mesa,
antes de partir!!
E não há acordo..
vem a ceifa má e nos atropela com seus mil açoites..




Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Carlos Drummond de Andrade)
Na enfermaria - Munch

Adágios sobre o tempo - parte II



O tempo é um incômodo..
 Um móvel velho sobre a sala a olhar-me estático..
a observar-me quieto.
O tempo..
Abajur de nácar e outras trevas.. 


É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
A margem de nós mesmos...
(Fernando Pessoa)

Hopper - Eleven a.m

Adágio sobre o tempo - parte I

E se pensarmos que o tempo já é a própria arte dos relógios...

A persistência da memória - Dali