segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O amor entre Faunos e Sátiros




Tirena-ápia, antiga Roma, 30 de fevereiro de 3024.

Este breve relato da história é narrado
pelo antropólogo e arquiteto  Bacantes Tirésias
da Apia Nuovissima Universita. O relato ilustra
 os meandros iniciais do que hoje chamamos de 
arquitetura gótica - estilo muito difundido na idade
hodierna - o século das trevas e apagões.  


No antigo Lácio Central, onde hoje restam em ruínas os pedaços de Roma, numa época cuja efeméride não pode ser contada, brincavam juntos, Faunos e Sátiros. Andavam vestidos de fraque a fim de disfarçar seu imenso rabo de bode, perfumavam-se entre os odores nefastos das violetas sem cor - eram assustadores!! Não tinham amigos, nem regras, nem viviam sob o jugo das leis. Os demais convivas da localidade evitavam comparecer diante de presença tão monstruosa. Os dois, sozinhos e isolados, só tinham a si mesmos.. Eis que criaram seu mundo à parte..

Nas proximidades da urbe, numa antiga ruína abandonada, Faunos e Sátiros, numa tentativa impar de demonstrar seu sentimento um pelo outro, começaram a edificar um templo em cristal de tamanha pureza, que desafiava as nuvens com sua limpidez. Construíram inicialmente um arco em forma de ogiva, depois outro, e mais outro e mais outro.. Nascia ali, impávido e palaciano, um sem número de arcos em ogiva, todos eles erguidos no mais puro cristal. A construção era tão despótica que começara a desafiar os céus do povoado - sua imensidão era espantosa - o edifício resplandecia tanto com seu brilho que ofuscava todas as nuvens do céu!!  O sol nunca se punha sem que adentrasse devasso naqueles arcos.. Faunos e sátiros ergueram ali um monumento ao amor puro. Era a própria construção do amor de cristal, a edificação do sentimento em estado de pureza jamais encontrada.  Batizaram-no, os dois, em segredo, de “A Paixão de Fauno pelo Sátiro Amante”.

A imensidão do amor edificado ali, em cristal, começou a despertar a curiosidade dos civitas da urbe já que, não havia em lugar nenhum no mundo, material tão belo ou até mesmo similiar àquele. Cristais só existiam nos sonhos dos antigos argonautas e desde então  inexistentes pelos confins e muros do planeta. Aos poucos, em bandos ou sós, os aldeões davam início à incursões sobre o belo monumento e ali permaneciam, durante horas, extasiados com tamanha e única maravilha arquitetônica. Quem teria sido responsável por inebriante obra de engenharia? -  perguntavam-se os habitantes da pequena aldeia. Os rumores sobre a construção aumentavam, criaram-se mitos, lendas e um número sem fim de histórias. A cidade permanecia ávida sob o cetro audaz da curiosidade. Alguns ganhavam seus patagões oferencendo visitas guiadas aos arcos, dizendo aos ignaros que aqueles cristais provinham do Grande Allāh, que os mesmos haviam sido roubados pelos anjos astronautas nos céus, que o transporte dos cristais até Tirena era feito pela transmutação alquímica, que os cristais só eram cristais diante dos olhos dos bons, que os malvados só enxergariam ali, rochas putrefatas.. Inventavaram-se as histórias mais estapafúrdias e surreais. O fato era que ninguém nunca soubera exatamente os motivos de tal construção, nem de onde vieram os cristais ali utilizados. Tudo permanecia no mais absoluto e negro mistério.

Passaram-se muitos anos, mas o enigma sobre a edificação permanecia ali, inquieto, sem resposta. Até que finalmente, numa manhã cinza de primavera, um menino negro adentra o monumento acompanhado do Escafandro robô, seu amigo. Embasbacados com a grandeza da imensidão, dispersaram-se os dois pelos arcos da gigantesca construção. Horas depois, vendo-se perdido, o menino resolve partir para casa, deixando o Escafandro só, sem conhecer o caminho de volta. Depois de algum tempo, Faunos e Sátiros percebem aquela estranha criatura chorando perdida entre os arcos. A incomum imagem de lata em nada lembrava os humanos tão cruéis, sempre assustados, sempre repulsivos. Comovidos com o sentimento de desamparo daquele amontoado de metal, foram até ele e lhe oferecem ajuda.


O Escafandro ficou imóvel, espantado!! Em tempo algum tinha se deparado com um horror tão belo e tão amoroso. Passado alguns minutos, o Escafandro, entendeu que aquele monumento era mais que uma construção, era a edificação do próprio amor e que aquela era a morada de dois jovens apaixonados e mais humanos que qualquer humano que havia pisado sobre a terra.

Com o auxílio cordial dos namorados, o Escafandro, finalmente, pode voltar para casa. Seu coração de lata, tomado por uma bondade infinita, calou-se.. nem uma palavra fora dita. Nada do que tinha visto foi repassado aos demais da aldeia. O bom Escafandro queria proteger Faunos e Sátiros da cobiça e especulação desumana.

Os arcos resistiam à passagem dos anos!! Belos, permaneciam lá, encantando o sol e a urbe. Ninguém nunca soubera a realidade sobre o monumento, só o Escafandro!! Mas a verdade permaneceu enclausurada, submersa nele..
07/dez/2010

William-Adolphe Bouguereau - El Fauno y la Bacante

Nenhum comentário: