sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Os desertos de ti



E esse teu olho de menino que me olha e me tira a roupa.. 
teu olho, meu amor..
duas esferas de ternura, 
dois peregrinos a acompanhar meu andar pela sala.. 
meu langor, meu pensar, 
meus braços, minhas pernas,
o meu dorso, teu colo,
minha mão, teu rosto.. 
Ah,  meu amor 
e andar sobre ti como pétala 
e refugiar minha alma no teu sorriso 
e sonhar teu beijo 
e acaletar meu seio.. 
Ah, meu amor e todas as tuas horas 
Porque são teus os meus minutos e cores 
E é meu o teu ar
E eu te respiro porque tu és toda a minha atmosfera e todas as galáxias 
E sem ti não há dia nem há chuva 
Tu és todas as areias e todos os oásis.. 
E eu o nômade, 
o nômade a me perder na exatidão dos teus desertos.. 


Os escafandristas argonautas

Nós, os argonautas em dia de chuva:
E então compraremos escafandros..
e haveremos de voar as águas da baia submersa..


As esperas e a ausência

A espera é flor árdua e tem gosto de terra acre.
Não sei o que fazer dos minutos mortos..


Ausências são os lapsos coloridos de tempo..
os breves silêncios que fazemos, às vezes, pela vida..


"...um pássaro invisível empenhava-se em que fosse breve o dia,
 explorando com uma nota prolongada a solidão circundante..." Marcel Proust

Atlas e eu no mundo visto de longe




Certo dia conversava com Atlas.
Contava-me como era pesado o mundo e como lhe doíam os ossos.
Dizia-me sobre o ofício inexaurível da carga e como lhe pesavam os homens e suas mágoas.
E assim confabulamos, durante horas, sobre o fardo humano.
Narrava-me Atlas que,  às vezes, olhava cansado o universo e que até temia cair-lhe dos ombros..
Mas que havia dias, os ensolarados dias, em que ele refugia-se no mar e no frescor das flores
E lembrava-se então que, mesmo cansado, a primavera haveria de surgir impávida e colorida
E que haverão os colibris e as libélulas, todas aquelas estranhas criaturas, todas elas, as sutis criaturas que o ajudariam  a transportar o pesado fardo da leveza...
E assim, Atlas se confortava.
E então o mundo, o mundo, nestes dias, tornava-se leve e mágico..


Novas notas sobre o ofício da pena




A minha vida se deu no meio das páginas..
Minhas sedas coloridas e desnudas
Os livros que me vestem única
As pérolas poemas que adornam
Folhas, milhares delas, milhares de folhas
Filhas de Gutemberg
Minhas companheiras amarelas e sem credo
Que destino aventuroso o nosso
Nuvens, fractais, bibliotecas mágicas
Flocos de neve, trovões, paralelepídedos..
Não há rua, nem cidade
O mundo é campo aberto e não existem muros
Tudo são pontes e abraços, beijos, arco-íris e árvores
E a vida, a vida é sempre uma folha nova e branca,
E nua, anda leve,
ansiosa pela mão suave capaz de pintá-la..





quinta-feira, 1 de setembro de 2011

E eu te amo tanto, meu amor


E eu te amo tanto, meu amor
tanto,
que eu,
esta estátua tua em sedas adornada respira o frêmito da alma tua.
E é tão profundo o meu amor
que o confundo com o sagrado,
o divino,
o metafísico..
Aí.. se ao menos eu te desse minha boca..
Mas já não a tenho mais
é tão tua e tão sedenta a minha boca
que então fico a contar o minutos para o encontro úmido com os lábios teus
E te dou a minha mão e o meu pé de bailarina
e te deixo as cores dos meus olhos, as tintas e os pincéis
Te deixo minha pele e as sedas desnudas caídas aos teus pés
Pinta-me, amor
Pinta-me com a ternura onde repousas o dedo teu..


Canova - Ninfa dormiente

Os Jardins do teu nome


Penso em ti e brindo teu nome com pétalas de astromélias e lisiantos!!
Cabem em ti todos os jardins.
Não são os Bobolis, nem as Tulleries, nem Versailles..
Em ti as flores são inesgotáveis..
Em ti sempre é primavera.







fotos: D. Possamai

Canções e outras melodias de amar

 


Eu não canto só ao amor
eu canto à vida
ora leve, ora densa
canto a cor das horas
e a beleza das flores que trazes na mão
eu canto a mim e ao meu amor de menina
amor de libélula pelo príncipe poema
eu canto a canção do fogo
e atravesso a vida de coração aberto e medos vários
eu canto a ti
porque o teu amor é luz e estrada
senderos de onde partem meus navios de desejo
caminhos por onde navegam minhas canções de mar e amar
canto-te música que a minha alma evoca
e se às vezes choro, amor
é por que sem ti sou coisa frágil
é por que sem ti, partem de mim, todos os meus navios
e tu, meu amor,
tu,
tu és o próprio mar..

21/junho


foto: d.possamai

Notas sobre o ofício da pena


Tudo o que escrevo sou eu!
Tudo, tudo sou eu..
Meus personagens, minhas angústias, meu riso imenso
Até a vírgula, até mesmo a vírgula sou eu.
A pausa, a estrofe mal colocada, o enredo dissonante.
E escrevo as confissões, os dramas, as alegrias..
quiçá escreva a mim sobre mim mesma..
quiçá escreva a vida e todos os minutos..
Eu desenho os encantos e a passagem das horas
Eu pinto o corpo e a fluidez errante da alma
Transformo a pedra, o pó, o sal
E cega, vejo as cores,
E são tantas as cores que, às vezes, me perco nas esquinas do arco-íris
Não há semáforo nem leis de trânsito onde sigo..
E sigo, eu mesma manuscrita, as confluências e curvaturas da letra..


A ficção é dama cujo adorno é cru.


A Lisboa do meu entardecer


E andava por Lisboa a encontrar as esquinas de Pessoa e os azulejos antigos
e foi então que surgiram, impávidos, estes espondaicos..
Eis que topei uma pedra pelo chão!
Já não era uma pedra,
era todo um poema em linha cinza e dura.
Versos que nasciam em turbilhão,
sem sentido, sem nexo, sem ínterim.
Palavras que cresciam da grama, das árvores e do Tejo.
Letras que invadiam os comboios no Baixo Chiado.
E tudo me chamava.
Tudo me atordoava.
Eu viera e cá estava tomada pela língua.
E cá eu estava a cantar os versos portugueses como outrora fizeram os lusíadas de todas as nações,
a embarcar nas Pintas, Ninas e Santas Marias do nosso século,
eu a colorir a alma no reflexo do sol sobre a ponte e o Tejo,
o Tejo que me olha plácido.
Eu a encantar-me do teu charme lusitano e sagaz.
A aventurar-me outra vez pelos teus muros mouros
e ouvir-te cantar Alfamas e São Jerônimos..
eu a perder-me em ti, Lisboa do meu entardecer.
A andar as tuas ruas estreitas e esmaltadas,
a beber teu vinho mágico,
teu Porto vintage,
tua simpatia atroz
teu heroísmo esquecido..
Eu a perder-me em ti, Lisboa de todos os fados e Amálias..
A encontrar-me, minha senhora, nos teu labirintos, perdida..


A noite é cega, as sombras de Lisboa
São da cidade branca a escura face.
(Sérgio Godinho)


Ao amigo Manuel Pintor, escritor de infinitudes..
E a todos os poetas portugueses que grande e sabiamente praticam o ofício da pena, os gigantes deuses de alma nua..






fotos: daniela  possamai

O dia em que perdi minha alma em Beirut



Escuta!!
Escuta o despertar da pétala que voa e chega à tua janela.
Faze silêncio!
Ouve as horas pálidas e as flores que se lançam aos teus pés como paixões suícidas.
Pisa leve!!
São de chumbo os passos.
Não firas a pétala caída.
Não pronuncies o desencanto nem pratiques o distrato.
As horas são sempre jovens!!
Não as repudie.
Não as canse com o mesmo.
Nem as aborreça.
Dai novos ponteiros ao relógio azul,
Renova a areia da ampulheta e a água da clepsidra
porque a vida, esta sim, é única
mas as horas, as horas, todas elas, são novas e inexatas.
E eu, eu já não sou a mesma
nem as minhas horas são iguais..
Trago em mim todos os abismos e todos os barcos
porque em mim cabem os mares, os desfiladeiros e todos os fiordes
eu mesma sou um penhasco a farejar os zéfiros e todas as pétalas coloridas
eu mesma sou o barco náufrago no Mar Vermelho e distante
eu navego as ondas e as todas as nuvens do oriente
eu, eu mesma, o pássaro, o mar e todo o abismo..




fotos: d.possamai