sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Vida






Eu quero uma vida tão efêmera,
tão fugidia -
definitivamente uma vida levada!
 E será preciso buscá-la..
 a cada hora..  
na esquina de casa..
lá onde vivem as nuvens!!



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Dos beijos que te deixo




I.    Que sejam os beijos asas coloridas de voar continentes..
II.   Que atravessem o Atlântico e cheguem, intactos e voluptuosos, à tua janela..
III.  Que abracem o mar e todas as tuas ondas..
IV.  Que te sejam envolventes como a noite e tragam a delicadeza da pétala que docemente deixo caída aos teus pés de menino..
V.    Que te peguem de surpresa meus beijos roubados.. porque eu nunca mais os devolverei..
VI.   Que te sejam mágicos e que te deixem macadâmias à boca..
VII.  Que eles te envolvam com o frescor dos ventos de outono..
VIII. Que sejam sempre insuficientes os beijos..
IX.   Que sejam todos eles, todos, únicos..
X.    Que a boca úmida encontre casa noutra boca, a tua..

Que tu encontres todos os meus beijos à tua espera.. na porta de casa, amor..




Paris, 13/outubro/2011
(fotos: Daniela Possamai)

As janelas do longe e um beijo no vento




As janelas, quando abertas, são portas para o infinito. 
O infinito..
esse que a gente faz..
rabiscando o céu..
com nosso lápis azul de poeta.. 
E pintamos as nuvens apagando o azul com nossa borracha mágica.
Lá, no céu,
a disfarçada biblioteca pintada de azul..  
Nos tapetes de nuvens,
onde brincam nuas as crianças andando de roda gigante.. 
Lá, bem longe,
onde estão teus olhos a devorar minhas linhas.
onde a brisa alcança meu cabelo..  
Longe,
onde está o vento a transportar o frescor do meu beijo até a tua boca de espera.. 

Abre a tua janela, amor.. e respira-me no vento.. 
Paris, 01/out


Fotos: Daniela Possamai

No jardim de Monet eu escrevo - II Ato



No jardim de Monet eu escrevo às ninféias e todas as suas pétalas..
Eu encontro os colibris e as borboletas numa dança aos tons de outono,
onde outrora, eu vira, bela e mágica, a primavera..
Entre as pontes e as flores, eu vivo ávida a vida e as minhas horas,
e são tantas e tão raras, como as estrelitzias e as dálias..


No verde da tua tela, poeta dos pincéis, a esperança numa luz renovada..
Um verde peralta, menino,
quiçá escondido entre as sombras e os sonhos..
E o que dizer dos amarelos,
os tons ocres,
os azuis desbotados do teu céu sem borracha..
Mas há também as matizes sem nome,
os reflexos do sol,
as nuances disfarçadas de folhas..
Hão de sorrir as pinceladas mais tênues como as estátuas de Canova,
E hão de chorar os negros borrões como trovões a matizar o sol de cinza..
No teu jardim, Monet, há uma aquarela infinita de cores e um pincel..
 um só pincel,
o da tua alma..


No teu jardim, Monet há a vida,
a minha, a tua e a de todas as flores..
Mas há também a morte e uma certeza,
a certeza de que amanhã virá também a primavera..
Ainda que do teu olho brilhem areias e brumas..


No jardim de Monet eu nova e finalmente brindo ao meu amor,
 as minhas estrelas e o teus pincéis, 
Eu brindo a vida, o outono e a primavera..
Que seja florida a vida..
que seja leve como são foram tuas sutis pinceladas,
 como fora outrora,  teu óleo derramado sobre a tela..



A cada estação renovam-se as cores e todas as folhas. Poderão mudar as matizes, mas a alma, a minha alma entra sorrindo no teu jardim..
Giverny, 02/out/2011.
Fotos: Daniela Possamai

Novos mapas e outras convergências



Certo dia a geografia ficou entediada.
E foi então que desenhei novos traçados de ruas e esquinas
 e novos rios e outros mares..
Também haviam outros continentes, as grandes ilhas
e outras pontes..
Mas todos os caminhos,
todos eles,
tem uma só convergência:
a tua boca, amor!

(Paris, 01/out/11)


O casamento sobre a Ponte de L’Archevêché



Não havia as tulipas,
 mas havia os amantes,
 a velha ponte
 e o desejo de verem, juntos,
 a vida..


Paris, 4 de outubro de 2011.
Fotos: Daniela Possamai

A persistência do outono



Eram só brumas sobre a relva.
E então veio o sol
e com ele todas as folhas.
Era outono.
E nas vinhas, quilômetros delas, as folhas dançavam em ciranda.

Mágicos são estes dias,
Mágicos e coloridos.
A paisagem ocre e seus tons de grená.
Os dias de sol e as vinhas
as vinhas, que no frescor da brisa, lançam suas folhas ao chão.
O vento cantava uma melodia invisível.
E então eu me pus a pintar.
A desenhar estas palavras.
São os esboços pueris do que vejo,
do vento que balança o meu cabelo e que, no mesmo instante, carrega a folha amarela.

E então, eu pinto, eu pinto todos os meus dias e versos aqui, longe,
quiçá no infinito..
Porque tudo é tão perto,
mas eu, eu estou tão longe..
Perto de mim, o vento..
O vento e todas as folhas de outono..

"Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.- Não me entristeças.- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho."
Carlos Drummond de Andrade - Fala, amendoeira (1957)




Chambolle-Mussigny - Bourgogne, 29/setembro/11
 Fotos: Daniela Possamai

domingo, 16 de outubro de 2011

E a poesia salvará o mundo


E um dia os poetas haverão de salvar o mundo
e, então, relógios e escaravelhos terão alma..

Bosch

Shanshui e a poesia sem palavras


Eras tão desconhecida do lado de cá do mundo
Tão diferente, tão sedutora
que foi uma surpresa ver-te
Lembro-me bem dos desenhos que fazias sobre a água,
dos traços espalhados pelas notas de guzheng,
dos ecos delicados, quase pueris!

És a  poesia muda, afônica!
A poesia sem nenhuma palavra.
A poesia talvez inexistente aos nossos moldes tão ocidentais e cegos,
talvez inconcebível na mente dos duros.
Mas estavas lá!
A poesia sem palavras.
A poesia muda.
A poesia muda gritando, gritando, gritando.
E mesmo sem palavras cantavas aos meus ouvidos.
E então mesmo sem olhos, mesmo sem linhas
Eu te vi e ouvi
E te senti
Ecoando a face minha como o afago da mão apaixonada
E te senti ocupando a alma como a água no navio náufrago
E tomaste o teu lugar
E inebriaste meu mundo
E eu agora te abraço e te saúdo
És tão bela e tão delicada
Que lembro-me de ti na cor rosa
A cor dos algodões doces da minha infância..




Longe em um belo domingo de sol e então, eu tive o prazer de me deparar com o shanshui..
Escrevo estas linhas para celebrar a beleza que a mão humana cria.. Talvez os poetas do sanshui sejam anjos caídos, distraídos, a brincar de Deus, o Deus aquele, o dono de uma fazenda de formigas.


Lucerna, setembro/2011.
Fotos: Daniela Possamai

A velha Europa putrefata 


Europa apodreceu e caiu da árvore.
Escrevam-se as lápides mortuárias:
Aqui jaz a velha e enrugada senhora
Aqui se enterram as antigas trevas
Dêem lugar ao inédito, ao estupefato, ao surpreendente!!
Que entre no palco o novo mundo envaidecido..
Que adentrem as novas luzes
E que corram pelo esgoto as águas classicistas e ultrapassadas
Nada de ventos anciãos
Nada de brasões medievais
Que seja só novo, o novo mundo
Que entrem pelos vitrais a luz e todas as borboletas..




Rothenburg ob der Tauber, 18 de setembro de 2011

fotos: Daniela Possamai

Gritos silenciosos em Hauptbahnhof




O silêncio no metrô era quase perturbador!!
Não havia um aí, um suspiro, um gemido.
Nada..
Só um silêncio afônico, mudo!!
Talvez fosse uma canção straussiana inaudível
Ou quem sabe os gritos calados e mortais perfurados à bala por Baader Meinhof ??
Em verdade, era nada..
Só o silêncio!!

Senti em mim, naquele momento, a vida pintada em 1984.
Aqueles organismos autômatos e sem expressão.
Aquelas figuras tristes, quase funerais.
Era uma manhã gélida.
Sentei-me enquanto olhava absorta os nomes impronunciáveis anunciados entre os vagões..
O metrô seguia os subterrâneos..
Nas estações, formava-se a fila..
Abriam-se as portas
E finalmente saiam
Saiam como bonecos em linhas de produção
Um a um,  em silêncio de abismo!!!
Observei aquilo num ínterim que parecia eterno..
Era outono..
Mas em mim, em mim, nascia naquele instante, a primavera!!!!


"Mas agora as sereias tem uma arma mais assustadora que o canto
 - o silêncio." Kafka


foto: daniela possamai

O silêncio que ouvi no metrô da velha cidade causou-me certo desconforto.
O silêncio daquela manhã foi lâmina cortante.. Talvez não o esqueça nunca!!! 
No encantamento de tantas palavras, eu vi o silêncio afônico..
Munique, 23/set/11

Os olhos de lágrima de meu pai


Lembro-me bem do teu olhar quando vias as malas, lá estáticas, aguardando a partida
Lembro-me das lágrimas que vertiam dos teus olhos
Do teu soluço engasgado,
O soluço de pai que tu engolias quando tínhamos de partir
E tu dizias com a voz trêmula: a casa fica vazia!
E as malas, o fim de domingo, os abraços, a partida..
Tudo, tudo eram gestos doídos
Mas tínhamos de partir, pai - essa é a vida: chegada, partida, morte, trem, mundo, muro..-
Tínhamos de construir a nossa casa, as nossas asas, os vôos solos..

As folhas secam e caem da árvore,
Vem o vento e as leva para longe
Mas há as sementes garantindo a primavera
Assim são os filhos, pai
Deixa que partam, deixa-os livres
Deixa que o vento os conduza.
A primavera sempre virá porque tu deixaste lá as sementes,
tu fizeste bem a colmeia!!
Aguarda a floração..
Os filhos virão como as abelhas..



Para o meu pai e a tudo que ele me ensinou.
Paris, 11 de outubro.

Os barcos, os portos e todos os abismos



E navegamos, insanos, sem destino..
Porque em ti há muitos portos e eu,
eu sou o barco
 e todos os abismos..

O mar e os barcos - Turner