domingo, 16 de outubro de 2011

Os olhos de lágrima de meu pai


Lembro-me bem do teu olhar quando vias as malas, lá estáticas, aguardando a partida
Lembro-me das lágrimas que vertiam dos teus olhos
Do teu soluço engasgado,
O soluço de pai que tu engolias quando tínhamos de partir
E tu dizias com a voz trêmula: a casa fica vazia!
E as malas, o fim de domingo, os abraços, a partida..
Tudo, tudo eram gestos doídos
Mas tínhamos de partir, pai - essa é a vida: chegada, partida, morte, trem, mundo, muro..-
Tínhamos de construir a nossa casa, as nossas asas, os vôos solos..

As folhas secam e caem da árvore,
Vem o vento e as leva para longe
Mas há as sementes garantindo a primavera
Assim são os filhos, pai
Deixa que partam, deixa-os livres
Deixa que o vento os conduza
A primavera sempre virá
Porque tu deixaste lá as sementes
tu fizeste bem a colméia
Aguarda a floração
Os filhos virão como as abelhas..



Para o meu pai e a tudo que ele me ensinou.
Paris, 11 de outubro.

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