segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A persistência do outono



Eram só brumas sobre a relva.
E então veio o sol
e com ele todas as folhas.
Era outono.
E nas vinhas, quilômetros delas, as folhas dançavam em ciranda.

Mágicos são estes dias,
Mágicos e coloridos.
A paisagem ocre e seus tons de grená.
Os dias de sol e as vinhas
as vinhas, que no frescor da brisa, lançam suas folhas ao chão.
O vento cantava uma melodia invisível.
E então eu me pus a pintar.
A desenhar estas palavras.
São os esboços pueris do que vejo,
do vento que balança o meu cabelo e que, no mesmo instante, carrega a folha amarela.

E então, eu pinto, eu pinto todos os meus dias e versos aqui, longe,
quiçá no infinito..
Porque tudo é tão perto,
mas eu, eu estou tão longe..
Perto de mim, o vento..
O vento e todas as folhas de outono..

"Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.- Não me entristeças.- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho."
Carlos Drummond de Andrade - Fala, amendoeira (1957)




Chambolle-Mussigny - Bourgogne, 29/setembro/11
 Fotos: Daniela Possamai

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