domingo, 16 de outubro de 2011

Shanshui e a poesia sem palavras


Eras tão desconhecida do lado de cá do mundo
Tão diferente, tão sedutora
que foi uma surpresa ver-te
Lembro-me bem dos desenhos que fazias sobre a água,
dos traços espalhados pelas notas de guzheng,
dos ecos delicados, quase pueris!

És a  poesia muda, afônica!
A poesia sem nenhuma palavra.
A poesia talvez inexistente aos nossos moldes tão ocidentais e cegos,
talvez inconcebível na mente dos duros.
Mas estavas lá!
A poesia sem palavras.
A poesia muda.
A poesia muda gritando, gritando, gritando.
E mesmo sem palavras cantavas aos meus ouvidos.
E então mesmo sem olhos, mesmo sem linhas
Eu te vi e ouvi
E te senti
Ecoando a face minha como o afago da mão apaixonada
E te senti ocupando a alma como a água no navio náufrago
E tomaste o teu lugar
E inebriaste meu mundo
E eu agora te abraço e te saúdo
És tão bela e tão delicada
Que lembro-me de ti na cor rosa
A cor dos algodões doces da minha infância..




Longe em um belo domingo de sol e então, eu tive o prazer de me deparar com o shanshui..
Escrevo estas linhas para celebrar a beleza que a mão humana cria.. Talvez os poetas do sanshui sejam anjos caídos, distraídos, a brincar de Deus, o Deus aquele, o dono de uma fazenda de formigas.


Lucerna, setembro/2011.
Fotos: Daniela Possamai

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