quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pequeno poema em asas de borboleta




Eu faria um poema para falar da doçura que são os teus olhos, mas hoje, amor..
Hoje eu não quero cantar-te!!
Quero apenas jogar-te meus beijos pelo vento..
Recolhe-os..
Aninha-os com ternura, como fazes com as borboletas em voo..
Os beijos estarão ali, no ar, ansiosos à procura da tua boca.
Não os devolva, são teus..
São meus beijos poemas
Os beijos que lancei no vento
Lá, no alto, naquela nuvem que te espia pela vidraça..




 

A mágica mão de poeta



Que versos antigos, que nada!!
Belos serão os versos que ainda não desabrocharam..
Aqueles que ainda residem, impávidos, nas nuvens..
Os versos que, ansiosos, esperam a mão que os faça nascer - a mágica mão de poeta!!



Le secret - Rodin
(Museu Rodin)
Foto: Daniela Possamai

Pequeno manual para amar


E a esse meu amor inquieto..
escuta-o.. 
Abre a tua persiana verde, 
E ele entrará, vento branco, pela vidraça 
E se acalentará no teu colo
E te sorrirá
E te dirá silencioso estas palavras
Esses poemas todos que desenho para ti 
Escuta-me, amor
Escuta-me porque sou manuscrita em braile 
É difícil compreender-me, eu sei, 
Às vezes sou tão obtusa e pétala
Mas usa tua mão, amor,
 usa teus dedos mágicos para adivinhar-me..

Mains d'amants - Rodin
(Museu Rodin)
Foto: Daniela Possamai

E então eu danço ao vento


Repara como são mágicos os dias de vento -
os dias em que finalmente
as folhas coloridas dançam valsas..


"Quando capturamos o vento em uma caixa, ele não está lá."
(ditado chinês)



Insônias e outros contos




Insônia, menina levada, acordou mais do que desperta - acordou ávida!! Vestiu seu trágico penhoir e agora, sentada na cama, chora o amor de Morpheus, seu anelo fugidio!!

Morpheus, o príncipe desencantado, a abandonou há alguns dias.. Não lhe telefonara desde então, não lhe mandara nenhum outro beijo e sequer lhe devolvia o sono.

A dama, jovem Insônia, curiosa e febril, consultava seus oráculos - todos apontavam para o amor, o novo amor de Morpheus - a linda e perplexa Adrenalina..
Morpheus fugira com Adrenalina, deixando abandonada Insônia e suas camisolas de seda..
Adrenalina lhe roubara mais do que a vida, lhe roubara os sonhos.. e sem sonhos, a jovem Insônia fenecerá em lágrimas e olheiras..

- Volte, Morpheus ingrato!! - rezava ela aos deuses..
Caíam as noites e adentravam as auroras sem que Morpheus retornasse aos braços de Insônia.

Mas eis que surge do horizonte amarelo, um amável cavalheiro noturno - Stylnox 10 mg.. Espantosa e rapidamente, Insônia se apaixona pelo lindo e loiro cavalheiro. - Ahhh, aqueles olhos!! Dois mares azuis a me enclausurar a alma.. - dizia Insônia.

Gentil, Stylnox finalmente lhe devolvera o sono e a mágica alegria dos sonhos..

Casaram-se os dois e vivem agora, felizes, à espera das cegonhas noturnas e todas as suas fraldas..

Fim


"Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo." (Álvaro de Campos)

Nas madrugadas de insônia minha imaginação ganha contornos inquietos.
Estes são os registro pueris dos meus voos noturnos..


Morfeu - Houdon (Louvre)
foto: daniela possamai

Pequeno conto desamoroso




E mesmo depois de tanto esforço o amor morreu..
estraçalhado, na lata de lixo, só!!
Morrera jovem!!
Não deixara filhos nem legado algum..
Ficara lá - um coração abandonado -
largado nas calçadas do pretérito..



fotos: Daniela Possamai

O sonho da janela



E que é a mão do poeta,
 senão 5 dedos trêmulos que nos prometem as nuvens -
as nuvens..
aqueles infinitos azuis com que sonha a tua janela..



A mão estendida na Gare de Lyon



Como navalha tua mão penetrou a alma e as mazelas.
Vi alí a mão suplicante de Claudel,
os dedos de choro estendidos
a dor desconfortante
a agonia desesperada
Não esqueço da tua mão, mulher..

Quisera dar-te uma flor.
Quiçá algumas moedas,
mas não te dei nada..
nem um sorriso.
Faço-te esses versos
e te deixo minhas lágrimas sob o papel onde escrevo.
Compadeço da tua dor, desconhecida!
Dói-me a alma e a cara navalhada.
Dói-me a vida ao ver-te.
Ver-te humilde, miserável, suplicante..
Nada te dei, mas rezo.
Rezo ao mundo,
que o mundo te dê mais que moedas.
Que o mundo faça brilhar teu olho,
que olhes o futuro porque hão de vir os dias iluminados
e tu não haverás de suplicar.
Que o mundo te dê mais, minha senhora!!
Que saias das escadas do metrô,
que te libertes destes negros véus
que andes pela superfície e o sol inebrie teu rosto.
Que finalmente sim, estendas a tua mão..
e da tua mão de súplica surjam as flores e todos os afagos..



Paris, 05 de outubro de 2011.
Sentada, na Gare de Lyon, uma muçulmana suplicante,
um olhar triste e a mão estendida..
O instante congelou na minha memória..
E de ti, desconhecida, faço estes versos..







Sermão da nova boa aventurança 




Fazia frio e o frio vinha acompanhado de desemparos e outras sedas. Era noite. Luziam no céu, estrelas e nebulosas..
E então,  ouviam quietos a boa nova, os cronópios de todas as galáxias..
O mestre poeta professava a nova aventurança:  

"Bem-aventurados os lúcidos do nosso tempo.  
Bem-aventurados os que não viram e não creram.
Afortunados os que não praticam os métodos,
os que não engolem as pílulas da fé,
os que têm esperança e sonhos,
mas não tem senhores nem acreditam em equivocadas leis.  
Bem-aventurados aos que não aceitam à falsa culpa imposta pelos ignaros doutos.
Aos que vivem sem deuses,
 aos que não depositam seus desejos e saúde aos queres e desígnios de um falso deus.
Bem-aventurados os que não tem nenhum  ismo, porque é deles a verdadeira sabedoria..  Aventurados os leviatãs do nosso tempo,
os augustos e os cesáres do novo mundo,
os capitães de todas as naus naufragadas.
Bem-aventurados os anônimos e aqueles que não sabem rezar,
 porque é deles o novo mundo e todas as suas árvores.. "

Finda a boa nova, houve a libertação total. Os Cronópios riam efusivos.. E então os poetas salvaram o mundo!!!

Que sejam eles os espíritos livres do nosso tempo.

"Aquilo que choca o virtuoso filósofo deleita o poeta camaleão...
Um poeta é o que há de menos poético em tudo o que existe;
como não tem identidade, tende continuamente a encarnar em outros corpos...
O poeta não possui nenhum atributo invariável;
certamente é a menos poética de todas as criaturas de Deus." Keats


Poor poet - Carl Spitzweg

A incerteza do poeta - Giorgio de Chirico

Quimeras


Quanta beleza há nas quimeras..
Lindos monstros disfarçados de sonhos..


Fotos: Daniela Possamai