quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Adágios sobre o tempo - Parte VI



O tempo é uma abajur funesto que deixamos no canto da sala..
meio indefinido, meio sem cor..
uma variável da existência, que nós, seres de tantos deuses,
 nos achando muito espertalhões, fingimos que driblamos..
Mas um dia, de repente, e de forma não muito solene
 o abajur vira um elefante rosa lá, no meio da sala, atrapalhando a passagem..
e já é tarde, meu amigo!
O tempo nem te esperou!!
Menino bobo, saiu correndo pela janela, pegou carona num foguete e,
pelo andar do vento, talvez não volte mais..


Elefantes - Dali

Adágios sobre o tempo - Parte V

O tempo é um espantalho inútil,
 boneco de pano e palha onde,
mesmo sem permissão ou coragem,
pousam as andorinhas selvagens das horas..

Espantalho - Portinari

Adágios sobre o tempo - Parte IV

O tempo é a arte dos relógios..
Um depositório de horas gastas onde permanecem presos nossos suspiros,
os suspiros, intervalos físicos que alguém, curiosamente, chamou de minuto..


Reloj - Dali

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Lamento do amor perdido



E eu vou cantar ao amor,
ao amor perdido, ultrajado, gasto..
E escreverei estes versos com cimento,
pelo chão da noite, na escuridão - que é pra não vê-los!
Que é para que sejam pisados como gramas pelas vacas.

Não há nada de belo num amor perdido,
não há grinaldas nem flores,
nem melodias alegres.
Há um luto negro infame e dolorido,
um par de promessas arremessadas ao chão como lixo
e um corte doente, sem amálgama, na vértebra de sustenção.

E se canto ao amor perdido eu também canto aos naufrágios.
Porque o amor perdido é o próprio barco náufrago
cujas velas desapareceram como espantos.
Sim, caro amigo, não há nada de belo num amor perdido..
Não há nada heróico.
Não há nenhuma benção
e nenhum louvor..

E essa canção vai assim ficando.
Assim quieta, assim pálida..
Morrendo aos poucos
Como os meus olhos gastos,
fenecendo de tanto olvidar-te..


Me vesti com a dor da perda!!
E quando fiz estes versos, meu queridíssimo amigo Henrique..
era pensando em nossas conversas..

Turner - Naufrágio

Das horas gastas




E eu fico pensando em todas as horas que perdi,
horas gastas,
horas jogadas pelo chão como pequenos outonos incandescentes.
Horas impróprias.. porque tu não estavas..
E então eu me pergunto em que mundo inquieto nos habitávamos
que não nos era possível enxergarmo-nos..
Em que mundo estranho e sem cor eu morava sem a presença da tua boca, amor??


Cupido e Psique - Claude Augustin



Outonos na alma



Ainda que o outono persista e que sejam incertos nossos rumos..
ainda que o vento sopre e que todas as folhas desfaleçam em danças fúnebres..
E que as árvores magicamente passem do verde para o ocre..
Ainda assim, amor,
do teu nome eu farei estes cocares de primavera..
Os deixarei sob os telhados cinzas, a beira do Sena..
A corrente os fará atravessar o Atlântico..
Recebe-os..
São as flores da minha alma e todos os beijos que te quero dar..
Sinta-os nos lábios teus..
entreabertos..
à procura da boca minha..


Monet

Corações embrutecidos

A beleza do poeta,
a verdadeira beleza do poeta,
está em açucarar os tristes corações embrutecidos..





Os falsos poetas e os santos profetas




Morreram todos.
Morreram na cruz.
Morreram como morrem os mortos,
em negros e funestos panos,
numa cruz amarga e tosca,
Adornados de uma moral vestida de injustiça
Em espinhos de ódio e julgamentos alheios
Morreram todos,
Morreram os falsos poetas
Porque não há poesia que nasça do jaleco encardido
Nem da vontade inútil
a poesia é a filha primeira da nudez
irmã da bondade e da beleza
E são sempre covardes os versos dos falsos poetas
Covardes e apócrifos
Como são os rinocerontes disformes

Morreram os santos profetas
Porque não há boa nova e nem ingênuos rebanhos
Nem mansos são os homens
Morreram ambos escondidos sob o escudo putefrato de Aquiles
Morreram envaidecidos
Porque grande mesmo são suas vaidades amarelas e o seu falso discernimento
Morreram sem lápide nem honras
Sem réquiens e sem sinos
Morreram na hora exata e inequívoca,
ordinários, na vala comum
E sem lápide
Não sabemos sequer o seu nome.

"O evangelho morreu na cruz."
Nietszche - O Anticristo


20/ago

Acorda, Maria - um releitura de Drummond




Acorda, Maria!
O marido morreu.
O filho chorou.
A casa voou.
O salário acabou.
e o mês não findou.
Acorda, Maria!
O dia nem raiou, mas você tem de trabalhar, Maria.
Você tem de ganhar umas moedas.
Você tem de pagar o funeral do companheiro que morreu infectado.
Você tem de fazer exames e te alimentar e alimentar teu rebento.
Vem, Maria.
O ônibus lotou, mas você tem de chegar.
Mas você, Maria,
Você tem olhos fundos de cansaço.
Você não dormiu.
Você chorou a falta da comida,
a incapacidade,
a lucidez atroz de uma geladeira vazia
Mas você tem fé, Maria!
Você tem esperança na novela
Você sonha a mesa farta,
a casa arrumada,
o namorado novo
Mas você não tem nem dentes, Maria
Nem escova, nem chinelo.
Nem janela tem o teu barraco.
Você só tem fé!
Fé no estado,
Fé na política,
Fé no presidente,
Fé na lei,
Fé na igreja.
Você tem olhos de esperança, Maria!
Você tem mãos de trabalho e lentidão.
E o trânsito não anda, Maria
e você nao chega.
Você não chega nunca, Maria.
E o patrão já olha o relógio,
E já retira algumas moedas.
Mas você não tem culpa,
Você não tem carro, nem bicicleta,
você não tem metrô, nem van,
nem transporte público você tem,
você não tem quase nada, Maria.
Você tem um cão magricela e sarnento,
um barraco invadido em área de risco,
um caixão pra pagar
e 5 filhos pra alimentar.
Você não tem quase nada, Maria,
mas você tem fé,
Uma fé de que tudo vai terminar,
de que a geladeira vai lotar,
de que o governo vai ajudar,
de que o salário vai aumentar.
De que a vida vai melhorar
Acorda, Maria!
Acorda!

E o ônibus fez greve.
E você se amontou na van clandestina.
E o patrão na porta, batendo o pé na soleira,
mas finalmente você chegou. Você chegou!
O patrão reclama,  mas você, você engole a seco os sapos.
Você escuta quieta a voz que lhe xingava.
Você põe o rabo entre as pernas e você chora, Maria!
Você tem olhos de tristeza e medo.
Medo de perder o emprego,
medo de morrer,
medo de dormir,
medo de viver.
Mas você vive, Maria!
Você tem fé, Maria!
O dia é difícil,  mas mais difícil ainda é você e a vida.
E você trabalha.
E você ganha o dia.
E sonha a geladeira cheia.
A comida dos teus.
o filho advogado,
o caixão pago,
a janela do barraco.
Você insiste, Maria!
Você insiste!
E a faxina acaba,
e a escuridão assombra,
e você volta para casa,
e beija os teus filhos.
Mas a panela tá vazia, Maria!
A comida não sobrou.
A geladeira não encheu.
E você chorou, Maria!
Chorou de impotência,
de revolta, de incapacidade, de raiva.
Mas depois você se confortou,
a mão do tráfico comprou o seu silêncio com feijão.
E você contou os grãos e alimentou teus filhos e você sorriu,
finalmente você sorriu.
Mas o cansaço a pegou pelas costas
e então você dormiu.
E você sonhou!
Sonhou a vida que tinha na novela.
Sonhou a janela nova.
O caixão pago.
O imposto na rua.
O governo ajudando.
A vida melhorando.
Mas você não acorda, Maria..
Você não acorda..

Despertei  martelando n'alma o verso de Drummond "Mas você não morre, você é duro, José".
E como uma psicografia, surgiram todas estas linhas..
Fiz do martelo de Drummond a inspiração do meu poema..



Mulher chorando com lenço - Picasso


       Mulher chorando - Picasso

De Platão a Aristóteles



De Platão a Aristoteles há um ponto!
Um único ponto.
Quase uma ponte.
Um longo caminho.
Uma idéia.
Um sentido.
Talvez a percepção do mundo.
Quiçá o elo perdido.
Entre Platão e Aristoteles há a vida
Grandiosa.
Miserável.
Há os banquetes.
Há Timeu..
E há eu..
sempre a procura
de luz,
Talvez..


Uruguay, 21/07/2011

Rafael Sanzio - Platão e Aristóteles

A poética da casa



A velha casa guardava tantas lembranças,
uns rabiscos soltos, uns vidros quebrados
certas ausências.
e os móveis, ali, me olhavam quietos sobre os tapetes,
 fitavam-me impávidos e colossais.. 
às vezes falavam comigo.. 
Noutros momentos permaneciam mudos como cedros.
Noutra noite, a sala de jantar me convidou a sentar
Sentei-me..
Filosofamos durante horas..
Bebíamos um bom vinho,
recitamos um pouco de Cortazar,
maldizemos Proust,
cantamos uma mitologia estóica.
Por fim, sorrimos.. Fui dormir!

A casa amarela - Van Gogh


A casa amarela de noite - Van Gogh



O amor entre Faunos e Sátiros




Tirena-ápia, antiga Roma, 30 de fevereiro de 3024.

Este breve relato da história é narrado
pelo antropólogo e arquiteto  Bacantes Tirésias
da Apia Nuovissima Universita. O relato ilustra
 os meandros iniciais do que hoje chamamos de 
arquitetura gótica - estilo muito difundido na idade
hodierna - o século das trevas e apagões.  


No antigo Lácio Central, onde hoje restam em ruínas os pedaços de Roma, numa época cuja efeméride não pode ser contada, brincavam juntos, Faunos e Sátiros. Andavam vestidos de fraque a fim de disfarçar seu imenso rabo de bode, perfumavam-se entre os odores nefastos das violetas sem cor - eram assustadores!! Não tinham amigos, nem regras, nem viviam sob o jugo das leis. Os demais convivas da localidade evitavam comparecer diante de presença tão monstruosa. Os dois, sozinhos e isolados, só tinham a si mesmos.. Eis que criaram seu mundo à parte..

Nas proximidades da urbe, numa antiga ruína abandonada, Faunos e Sátiros, numa tentativa impar de demonstrar seu sentimento um pelo outro, começaram a edificar um templo em cristal de tamanha pureza, que desafiava as nuvens com sua limpidez. Construíram inicialmente um arco em forma de ogiva, depois outro, e mais outro e mais outro.. Nascia ali, impávido e palaciano, um sem número de arcos em ogiva, todos eles erguidos no mais puro cristal. A construção era tão despótica que começara a desafiar os céus do povoado - sua imensidão era espantosa - o edifício resplandecia tanto com seu brilho que ofuscava todas as nuvens do céu!!  O sol nunca se punha sem que adentrasse devasso naqueles arcos.. Faunos e sátiros ergueram ali um monumento ao amor puro. Era a própria construção do amor de cristal, a edificação do sentimento em estado de pureza jamais encontrada.  Batizaram-no, os dois, em segredo, de “A Paixão de Fauno pelo Sátiro Amante”.

A imensidão do amor edificado ali, em cristal, começou a despertar a curiosidade dos civitas da urbe já que, não havia em lugar nenhum no mundo, material tão belo ou até mesmo similiar àquele. Cristais só existiam nos sonhos dos antigos argonautas e desde então  inexistentes pelos confins e muros do planeta. Aos poucos, em bandos ou sós, os aldeões davam início à incursões sobre o belo monumento e ali permaneciam, durante horas, extasiados com tamanha e única maravilha arquitetônica. Quem teria sido responsável por inebriante obra de engenharia? -  perguntavam-se os habitantes da pequena aldeia. Os rumores sobre a construção aumentavam, criaram-se mitos, lendas e um número sem fim de histórias. A cidade permanecia ávida sob o cetro audaz da curiosidade. Alguns ganhavam seus patagões oferencendo visitas guiadas aos arcos, dizendo aos ignaros que aqueles cristais provinham do Grande Allāh, que os mesmos haviam sido roubados pelos anjos astronautas nos céus, que o transporte dos cristais até Tirena era feito pela transmutação alquímica, que os cristais só eram cristais diante dos olhos dos bons, que os malvados só enxergariam ali, rochas putrefatas.. Inventavaram-se as histórias mais estapafúrdias e surreais. O fato era que ninguém nunca soubera exatamente os motivos de tal construção, nem de onde vieram os cristais ali utilizados. Tudo permanecia no mais absoluto e negro mistério.

Passaram-se muitos anos, mas o enigma sobre a edificação permanecia ali, inquieto, sem resposta. Até que finalmente, numa manhã cinza de primavera, um menino negro adentra o monumento acompanhado do Escafandro robô, seu amigo. Embasbacados com a grandeza da imensidão, dispersaram-se os dois pelos arcos da gigantesca construção. Horas depois, vendo-se perdido, o menino resolve partir para casa, deixando o Escafandro só, sem conhecer o caminho de volta. Depois de algum tempo, Faunos e Sátiros percebem aquela estranha criatura chorando perdida entre os arcos. A incomum imagem de lata em nada lembrava os humanos tão cruéis, sempre assustados, sempre repulsivos. Comovidos com o sentimento de desamparo daquele amontoado de metal, foram até ele e lhe oferecem ajuda.


O Escafandro ficou imóvel, espantado!! Em tempo algum tinha se deparado com um horror tão belo e tão amoroso. Passado alguns minutos, o Escafandro, entendeu que aquele monumento era mais que uma construção, era a edificação do próprio amor e que aquela era a morada de dois jovens apaixonados e mais humanos que qualquer humano que havia pisado sobre a terra.

Com o auxílio cordial dos namorados, o Escafandro, finalmente, pode voltar para casa. Seu coração de lata, tomado por uma bondade infinita, calou-se.. nem uma palavra fora dita. Nada do que tinha visto foi repassado aos demais da aldeia. O bom Escafandro queria proteger Faunos e Sátiros da cobiça e especulação desumana.

Os arcos resistiam à passagem dos anos!! Belos, permaneciam lá, encantando o sol e a urbe. Ninguém nunca soubera a realidade sobre o monumento, só o Escafandro!! Mas a verdade permaneceu enclausurada, submersa nele..
07/dez/2010

William-Adolphe Bouguereau - El Fauno y la Bacante