segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Acorda, Maria - um releitura de Drummond




Acorda, Maria!
O marido morreu.
O filho chorou.
A casa voou.
O salário acabou.
e o mês não findou.
Acorda, Maria!
O dia nem raiou, mas você tem de trabalhar, Maria.
Você tem de ganhar umas moedas.
Você tem de pagar o funeral do companheiro que morreu infectado.
Você tem de fazer exames e te alimentar e alimentar teu rebento.
Vem, Maria.
O ônibus lotou, mas você tem de chegar.
Mas você, Maria,
Você tem olhos fundos de cansaço.
Você não dormiu.
Você chorou a falta da comida,
a incapacidade,
a lucidez atroz de uma geladeira vazia
Mas você tem fé, Maria!
Você tem esperança na novela
Você sonha a mesa farta,
a casa arrumada,
o namorado novo
Mas você não tem nem dentes, Maria
Nem escova, nem chinelo.
Nem janela tem o teu barraco.
Você só tem fé!
Fé no estado,
Fé na política,
Fé no presidente,
Fé na lei,
Fé na igreja.
Você tem olhos de esperança, Maria!
Você tem mãos de trabalho e lentidão.
E o trânsito não anda, Maria
e você nao chega.
Você não chega nunca, Maria.
E o patrão já olha o relógio,
E já retira algumas moedas.
Mas você não tem culpa,
Você não tem carro, nem bicicleta,
você não tem metrô, nem van,
nem transporte público você tem,
você não tem quase nada, Maria.
Você tem um cão magricela e sarnento,
um barraco invadido em área de risco,
um caixão pra pagar
e 5 filhos pra alimentar.
Você não tem quase nada, Maria,
mas você tem fé,
Uma fé de que tudo vai terminar,
de que a geladeira vai lotar,
de que o governo vai ajudar,
de que o salário vai aumentar.
De que a vida vai melhorar
Acorda, Maria!
Acorda!

E o ônibus fez greve.
E você se amontou na van clandestina.
E o patrão na porta, batendo o pé na soleira,
mas finalmente você chegou. Você chegou!
O patrão reclama,  mas você, você engole a seco os sapos.
Você escuta quieta a voz que lhe xingava.
Você põe o rabo entre as pernas e você chora, Maria!
Você tem olhos de tristeza e medo.
Medo de perder o emprego,
medo de morrer,
medo de dormir,
medo de viver.
Mas você vive, Maria!
Você tem fé, Maria!
O dia é difícil,  mas mais difícil ainda é você e a vida.
E você trabalha.
E você ganha o dia.
E sonha a geladeira cheia.
A comida dos teus.
o filho advogado,
o caixão pago,
a janela do barraco.
Você insiste, Maria!
Você insiste!
E a faxina acaba,
e a escuridão assombra,
e você volta para casa,
e beija os teus filhos.
Mas a panela tá vazia, Maria!
A comida não sobrou.
A geladeira não encheu.
E você chorou, Maria!
Chorou de impotência,
de revolta, de incapacidade, de raiva.
Mas depois você se confortou,
a mão do tráfico comprou o seu silêncio com feijão.
E você contou os grãos e alimentou teus filhos e você sorriu,
finalmente você sorriu.
Mas o cansaço a pegou pelas costas
e então você dormiu.
E você sonhou!
Sonhou a vida que tinha na novela.
Sonhou a janela nova.
O caixão pago.
O imposto na rua.
O governo ajudando.
A vida melhorando.
Mas você não acorda, Maria..
Você não acorda..

Despertei  martelando n'alma o verso de Drummond "Mas você não morre, você é duro, José".
E como uma psicografia, surgiram todas estas linhas..
Fiz do martelo de Drummond a inspiração do meu poema..



Mulher chorando com lenço - Picasso


       Mulher chorando - Picasso

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