segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Poeminha para o Ano Novo






E se te dessem um Ano Novo?
Um ano novinho em folha
Um ano tinindo de novo,
Jovenzinho e curioso, belo e afobado..

E se entrasse na tua porta agora e te carregasse no colo como a um recém-nascido?
Tu te entregarias?
Tu dançarias valsas com o Ano Novo?
Ou ficarias estanque e inerte detrás dos teus óculos de enxergar a vida?

Ahh, meu caro amigo
Doa-te!!
Doa-te ao novo
Abraça o estupefato, o surpreendente, o desconhecido..
Deixa que entre o Ano Novo..
Deixa que o anunciem com fogos e guizos..
Liberta tuas amarras e voa..
À tua espera há um ceuzinho azul.
Tão azul, que se por ventura, caíres..
Deus te dará asas..



Para minha queridíssima Carla Hendges,
para que o Ano Novo tenha o sabor das macadâmias!

foto: d.possamai

Versos de acordar o amor






Ahh, amor!!
Não despertes nunca do teu sono porque o mundo lá fora é o caos
Há tanta violência e desordem,
que eu prefiro ver-te entre os lençóis,
assim, protegido e meu.

Fica aqui pra eu cuidar do teu sono
Fica aqui que eu faço dos meus braços um abrigo dos ventos..
E se chover, amor,
eu desenho um solzinho tímido e pinto um arco-íris para os teus olhos..


"Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti"
Mia Couto 


Minha caixa de Pandora





Abri a minha caixa de pandora
E o que havia lá???
Amor..
Um amor tão imenso que até a caixa tornava-se minúscula
Um amor de se sentir sozinho e amiúde,
Um amor assim gigante,
Assim bonito,
Mas um amor assim quieto, assim calado..

Sei que o mundo muda a toda hora.
Sei da vida.
Sei da morte.
Mas amor, ainda que passem esses breves minutos
Ainda que a aurora desperte verde,
Meu amor - este amor -  estará lá..
Forte e pedra..
Incólume as tempestades e aos ventos..
E sim, amor, eu te amo tanto que já não tenho mais sinônimos..
Por favor, silencia essa minha voz..
E só escuta..
Escuta..
"até onde te espero:
estaremos sempre sozinhos,
estaremos sempre tu e eu
sozinhos na terra
para começar a vida."

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"


Naufrágio e uma ilha perdida



Às vezes,
 faço do verso o mar.
E vivo naufraga,
à deriva,
perdida..
Imensamente perdida de ti..
 E nessas longas horas de naufrágio,
um dia talvez,
encontres eu um cais, um porto qualquer,
uma parte ínfima de terra,
sim, um pedaço de terra..
 uma terra que me aquiete a alma e sussure o silêncio..
Quiçá sejas tu uma ilha??


"Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar."

Mia Couto, in "idades cidades divindades"





Da mágica dos dias nublados



E me ponho eu a divagar no porquê desses céus cor de estanho..
Penso eu, na minha alma de menina,
que os dias cinzas são aqueles em que as nuvens acordam de péssimo humor,
 se vestem de chumbo,
e se põe a caminhar pelas avenidas celestes à procura de namorados..

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Esses meus poemas feitos de ti..



Tu tens o dom de aparecer onde nunca havias estado,
e sobretudo tens o dom de perpertuar-se nas minhas linhas..
Penso que tu moras nos meus poemas.
Tu os habita e fazes deles a tua casa.
Talvez sejas tu a parede da estrofe ou o verso escondido,
Talvez seja tu uma sílaba nessas minhas já tantas entrelinhas..

E eu, eu escrevo sobre hipotenusas e hipocampos,
Sobre as matizes de Renoir, os tons de Van Gogh
Sobre o anoitecer das quimeras,
e sobre a metafísica desses dias já tão estranhos..
E tu, tu surges sempre imprevisto..
Imprevisto e grandioso.

Eu já não carrego outros sinônimos para ti
E perdoa-me, amor, esse vocabulário meu tão pobre
Perdoa-me porque todos os meus versos são de ti
E é porque habitas minha alma que eu insisto em escrever-te..

 

Poema para o teu vazio



Esse não é um poema feito da tua ausência.
É antes um desenho, um rasgo na parede,
um gosto amargo de café..
É antes um grito, uma nota de rodapé,
um testemunho da minha boca vazia.
É uma partitura composta de vácuos,
sem sustenidos ou dós menores..

Esse é um poema feito do invisível,
de ventos que sopram do sul..
Feito de quereres insensatos.
É um poema que grita ao som de megafones:
- eu troco a tua ausência por 5 beijos amputados;
- eu troco a tua ausência por 2 pétalas destroçadas;
- eu troco a tua ausência por um solzinho cálido e por todas, todas as primaveras..



A anatomia das asas




Os urubus seriam gotas de petróleo, que num instante de descuido, 
fogem aos céus à procura de aventuras??? 

 Ou quiçá sejam as abelhas modernos carros voadores..
anti-poluentes e selvagens???  

E o que dizer dos besouros então??  
Pequenas aeronaves gordas e preguiçosas.. 

 Asas, muitas asas e todos os azuis é o sonho de toda a gente 
- nós - os pequenos Ícaros de castigo..

"According to Brueghel 
When Icarus fell
It was spring..."

William Carlos Williams




A retórica dos grafismos - parte III





As reticências são velhas carolas inseparáveis..
Na missa, sentam-se uma ao lado da outra,
 e observam a vida alheia numa continuidade espantosa..

 O hífen é o irmão franzino.. 
Tímido, inveja a espantosa grandeza do travessão..


O apóstrofo são aspas tristes e solitárias..
Tão solitários que vivem à procura de novas amantes..




A retórica dos grafismos - parte II






As aspas são pontos finais tão aventureiros, que vivem nas alturas..
 - naqueles balões coloridos -
lá, nos azuis das nuvens..

O ponto de interrogação é um ponto final que faz terapia..
Lê Nietzsche e vive questionando sua vã existência.
Confuso, submerge em profunda crise..

A exclamação é um ponto final bipolar: 
cabem-lhe, numa exatidão matemática, 
as alegrias e as tristezas mais nefastas..


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Pequeno poema triste



Escuta esse meu último movimento

Porque dói.

Dói como veneno corroendo lá dentro.
Dói como a perda da visão,
como os acidentes aéreos e os barcos à deriva..
Dói porque já não somos dois..

E eu insisto num tempo onde tu afagavas meu rosto
E me punhas, indefesa, nos teus braços..
Tu gostavas tanto da minha boca..
e eram teus os meus quadris..

Mas isso era quando tínhamos a mesma cama
e eram feitas de laços nossas pernas..
Hoje estamos quebrados e ardem nossos ossos como feridas abertas
Hoje somos pedaços aos abutres e vos convido ao meu enterro..

O amor suicidou-se afogado nas rosas e nas mentiras.
Fechem o caixão. Enterrem-no de uma vez!!
Morreu o amor de insuficiência respiratória.
Prematuro. Prematuro como eu e o esse poema maldito.

O amor ruiu como ruíram as velas e os cais..
Tudo é outrora e só há pó nos meus olhos..
Tudo já não é nada!
Nada..

(Aos poetas caberíam os poemas de amor..
Os desamores que fossem morar em Saturno, largados como poeira cósmica..
Sós como cachorros abandonados nas esquinas de uma cidade fantasma.)

domingo, 11 de novembro de 2012

Fragmento de poema



Conta-me de ti e do teu sorriso que eu adoro.
Fala-me do amor e do tempo.
Pronuncia as tuas horas
e os minutos que vivi sem ti..
Fala-me dos teus olhos e das tuas mãos.
Olha-me como o verde dos teus olhos e soletra-te..
Soletra-te, meu amor
no meu corpo..
Soletra-te cego
Com dedos de braile, amor..

O rapto da Proserpina - Bernini

Melancolia



A guirlanda na porta do vizinho me faz perceber o natal 
e eu, então, aninho no peito uma melancolia
 - aquela menina - 
cujos olhos se instalam em mim
como dois peregrinos inquietos..

Durer - Melancolia

Poeminha da hora da separação



A fumaça,
o desacordo,
a impaciência.
Alicerces de um  desamor..

Os beijos foram jogados ao vento.
As ternuras escoaram pelas ruas.
E o amor, cambaleante de outros tempos,
dilacerado, morre..

Ficaram os imóveis, os tapetes, as pratarias - monte de objetos inadequados.
Restaram as cinzas do teu cigarro aceso.
Restaram os porta-retratos emoldurando a felicidade de um dia de outrora..
Restou um vazio aninhado no peito
e uma porção de senãos sufocando a alma..

O grande amor morreu esvaziado de carinhos e abraços.
Morreu trapaceado e enganoso.
O grande amor - falso como a política.
Vil, como as arbitrariedades.
De plástico, como as flores velhas..


"Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor."
Carlos Drummond de Andrade


Poeminha da hora da desilusão




Tive um grande mestre!!!
Com o tempo, aprendi a tornar-me ácida.
Depois fugi, me esgueirei pelos arrabaldes, ultrapassei os sinais..
Por fim me violentei.
Impus a mim mesma mais uma proteção -  plástico inútil!!
Já há tempos as uso.
Já há tempos não me sei,
mas me violento a cada dia.
Permito-me abusar de mim mesma num estupro quase diário.
Às vezes finjo que gosto.
Noutros momentos, viro pro lado e choro..
Vida inútil feita de seres de plástico, de homens feios, de gente burra..
Me violentar é viver nesse esgoto planetário, me cercar de gente como vós e sorrir..
E tu, já sorriste hoje??


Bem aventurados os covardes e os rinocerontes.. 
Porque é deles a cidade imunda e fria!!  
Bem aventurados os vulgares e os vis, 
porque sempre haverão de usar as máscaras da vergonha, 
porque a paz nunca os acompanhará.. 

foto: D. Possamai

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O último beijo





Ainda que deus pinte o dia de cinza
e que as rosas brotem inodoras.
Ainda que a feiura adorne o relevo
e que se desfaleçam no chão todas minhas crenças..
Há sempre algo que diz que chegará a brisa a limpar-me o  pó dos olhos..
Sei que haverá o dia e tu terás chegado.
Basta que chegues, meu amor..
Basta que venhas e os meus olhos riem..
É isso que me salva!!
E então, me ponho a escrever.
E escrevo sobre as rosas espalhadas na tua sala,
Sobre o verde dos teus olhos,
Sobre a cor tênue da ternura,
Sobre ti emoldurando minha cama.
E outra vez meu olhar fica bonito,
porque em tudo que escrevo
apareces tu escondido.
Talvez sejas tu minha ferida!!
dessas que não curam nunca.
Mas de ti minhas linhas se escrevem sozinhas
Sem mágoas ou poréns..
Talvez sejas tu um milagre!
Uma alegria disfarçada ou um menino bonito.
Sei que o inverno foi longo e choroso..
Mas também sei que tem chego a primavera.
E então não te surpreendas!!
Porque um dia regresso e te roubo o último beijo..

 "Ah! Num delíquio de ventura louca,
Vai-se minh'alma toda nos teus beijos,
Ri-se o meu coração na tua boca!"
Augusto dos Anjos


 The Kiss - Alexandre Steinlen

A saudade que eu sinto de ti e um ontem



A cama era mais uma saudade dessas tantas que eu sentia de ti..
Faziam-me falta os teus pés, as falanges dos teus dedos, o palato da tua língua
Tinha saudade dos teus discos, daqueles pianinhos sutis, dos teus livros de cátedra..
e daquela vozinha que fazias quando me ligavas matutino..
Ia a loucura quando te punhas a dançar valsa no meio da sala e a cantarolar teus tenores preferidos..
Éramos tão felizes no nosso mundo..
Ríamos delicados um do outro
Diálogavamos santos, deuses e o diabo
Bem sei como amanheciam as auroras nos teus braços
E como eram belos os dias de chuva..

Mas agora,
Agora tudo parece ter outra cor
Agora a "nossa" casa é "minha" casa
E o teu corpo já não é mais meu
Agora os teus olhos já não são verdes
E nem vivem vidrados nos meus como esferas coloridas..
Agora, dos meus olhos nascem lágrimas furtivas
e um choro que lembra doutros tempos
Aqueles tempos amarelos idos
E hoje a minha saudade tem destino e hora
E até endereço certo ela tem
Hoje a minha saudade tem casa
E é nesse coração remendado que ela mora..

 "Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste"
Carlos Drummond de Andrade


Chagall


Perdoai os poetas distraídos


Mas até mesmo os poetas cometem erros crassos na sua fúria insana de desenhar palavras..
Lá se vai, desapercebido,
o acento agudo que passeia intruso num vocábulo impontuado..
Andam levadas e contentes as vírgulas, que acometidas por um arroubo de juventude,
fogem da página como fogem os presos da penitenciária..
E aquele cedilha que perdeu sua perna num atropelamento
 e agora enfeita a frase numa cara de pau deslavada..
E o que dizer dessas exclamaçõezinhas descontroladas que invadem as folhas como tempestade em fúria..
Perdoai!!
Perdoai os poetas distraídos!!!!
Perdoai porque é deles uma distração ingênua..
Sê compreensivo com os poetas!!
Lá no alto,
naquelas nuvenzinhas coloridas,
a gramática foi definitivamente abolida!!!
"Aí as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também."
Florbela  Espanca
Carl Spitzweg - Poor Poet
Gustave Moreau - O poeta viajeiro

A retórica dos grafismos



Um ponto final é um caractere triste.. 
Vive só, pelos cantos, 
consciente da própria finitude..

O travessão é um garoto levado.. 
Noite dessas, juntou uns pontos finais amigos 
e ensairam uma festa do cabide..

 A vírgula é uma espécie de ponto final desacordado
 - em coma, meio morto -
 à espera de uma sobrevida..


Desde menina confundo a gramática com um medieval objeto de tortura!! 
Nunca me encantaram as regras linguísticas..
eu sempre gostei da matemática, da linha curva, dos dodecaedros,
mas me agrada atribuir à gramática uma leveza que
nunca me foi apresentada em escola nenhuma.. 
E então, brinco com ela, confundo-a como uma mera distração infantil.. 
e nesses momentos eu me pego voando..
sonhando dias com sabor de alfazema..

Primaveras



E assim, sem tantas delongas, partiram meus 36 anos!
Pela janela -  e é quase primavera - entraram os 37..
37 anos, jovens senhores ainda..
Tão ávidos esses senhores que todas as esquinas parecem converte-se em novas experiências
São garotos ainda os 37.. quase moleques como eu..
Tentando esconder a ampulheta nalgum móvel antigo..
Respirando amanhãs e ontens, numa busca curiosa que parece não ter fim..
Garotos num anseio de juventudes e auroras..
Sim, moleques como eu,
Fugindo de casa para namorar no portão..
ou catando flores para agradar a mãe depois das travessuras..
Sim, sim..
moleques como eu
Com seus estilingues na mão
Tentando acertar alguma nuvenzinha pretensiosa..
 

A avidez da minha boca de espera





Mas há umas horas tristes
Horas em que tenho vontade de gritar-te, 
Horas em que o meu maior, último e único desejo se confunde contigo..
E então, meu amor, vivo neste mundo -  essa casa de loucos -
sem saber-te,
sem dizer-te,
sem gritar-te.. 
Eu sei que o mundo é estranho, amor.. 
Eu sei que há chuva lá fora 
Que o trânsito é caótico
Que o dinheiro, os bens, os costumes.. 
Eu sei de tudo isso, amor.. 
E eu sei também esperar..  
Mas por favor, não demora.. 
Eu tenho uma boca muito ávida..
Ávida de ti..



O amor, essa inquietude



Hoje, no dia dos amantes, eu faço um apelo ao amor perdido..
Que não morra o amor,
nem se perca nas calçadas,
Que resista incólume a falta de tempo e de beijos
Que aguente firme, o amor
Nem sortilégios façam-no fugir
Nem relicários faltem ao amor
Que as nossas mãos vazias de amor
Sejam capazes de construí-lo, castelo de areia, sempre que hajam sirocos enfurecidos..
Há de sobreviver o amor,
Há de ser justo
E sobretudo, há de ser belo como são os amanheceres dessa primavera..

Cpg. 12/jun/12

Cartas para ti



E escrevo estas cartas esperando que elas nunca cheguem
Que tu nunca as leia
E são cartas pra te dizer do meu amor amarelo e manso
Pra te contar desse meu sentimento
Pra desnudar minha alma
E sem adornos ou sedas pra que tu me vejas, montanha de ossos e pele,
nua sem escudo ou espada..
Sem casca ou casulo
Pra que me vejas libélula em voo..
E me captures,amor
Sim..
Para prender-me, para sempre, aos grilhões desejosos de ti..


 " E como em teus lábios puros, Guardas tudo quanto almejo, Doutros desejos futuro.."
António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."
 

Um poema sem braços e sem nome



Eu violentei o quadrado mágico de Dürer..  
Eu arranquei as plantas todas..  
Eu estraçalhei todas as bonecas.  
E tudo isso foi só um alento para a minha própria loucura..  
Nesses dias insanos eu cultivo uma lucidez cega e atrapalhada.  
Eu pinto de negro meu cabelo e leio os falsos profetas..  
Nesses dias eu desenho a mim mesma no espelho quebrado.. 
Vejo-me cega e sem braços..  
Quantos ais, meu deus?
Quantos ais direi de mim?? 





fotos: daniela possamai

Poeminha sem nome nr. 30.024



Ohh!!!! Não, senhores
Puteiros, palavrões, parlapatices,
Não, nada disso é permitido
Vivemos hoje sob a égide do bom mocismo
Da não contrariedade
Da infrustração..
E eu vos digo, na minha falsa humildade,
Sim, porque é preciso dizer que a humildade morreu hace tiempos
A humildade jaz nas cercanias dos vossos umbigos
Rodeada de Facebooks, Instagrans e sua caterva..
Acometidas de uma i-humildade, de uma i-existência..

Falemos sim do bom mocismo
Do que é permitido, do que é o ideal.
Falemos do esvaziamento de abraços e do virtual preenchimento de espaços..
Falemos de quantidade, de achismos, de vaidades, de cultos à irrealidade da vida..
Eu, na minha falsa humildade, vos lembro da chatice desse mundo
Ora, senhores, vivemos em anos imensamente peculiares,
numa época que me parece a forja de Hefaísto à Aquiles..
uma era de superficialismos massificados..
Vivemos como vovós pudicas potencialmente ofendidas,
Daquelas que elevam suas mãos à boca e "ohhh, meu deus, que grosseria" - dizem elas sob a arbitrariedade da opinião alheia
Daquelas que se chocam ao enfrentar a crueza da rua e a benevolente maldade humana..
As mesmas velhinhas, cuja moralidade é construída sobre tijolos e alicerces de idealismo..

E eu, do alto da na minha nuvem,  vos digo da chatice desses anos,
Vos peço um botão de "não curtir"
Vos convido a abandonar o muro e adentrar a floresta..
Eu vos convido a assumir posições e também a mudar de ideia
Abandonai pois "o grande irmão", a hora de rir, a hora vossa de plástico..
Chorai, senti, gritai..
Abandonai vossas roupas feitas de polímero e vesti vós do que sois, vesti de gente,
Saí dessa superfícialidade aborrecida..
Ide às profundezas, ao abissais, aos subterrâneos..
Adoçai vossos corações embrutecidos e não afogueis vossos impulsos humanos,
E vos peço, por favor, sede o que sois..
Viver é mister..
Viver, definitivamente, não dói..

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Poema para o teu sono



Dorme,
que mesmo dormindo sabes mais do que eu..
Tua pele conhece os encantamentos roubados do tempo
Heróis e Polifemos desenham os doces traços do teu rosto..
 
Dorme,
que os teus lábios sabem dizer-me em segredo..
e ainda que não se movam,
eu os vejo como veludos a atiçar meus desejos..

Dorme,
que o teu corpo sabe fluir entre os lençóis
e tu os deixa amarrotados de carinho
e eu, menina nua, coberta de ternuras..

Dorme,
que eu vigio os teus cílios..
e imersa no teu respiro,
guardarei as pétalas e os orvalhos do teu sono..

Dorme,
e não acordes ainda..
que se o sol namorar a persiana,
eu o presentearei com meus olhos.. para que não abras os teus..


foto: d. possamai

A escuridão de ti



Mas é quando fecho os olhos que tu me invades..
É nos intervalos de escuridão que sinto tua mão percorrendo meu seio,
envolvendo meu dorso,
abraçando minha cintura que é tão tua..
E quando abro os olhos, de súbito e magicamente, tu evaporas.. 
E é como se eu quisesse viver de olhos fechados para sentir-te..
porque são esses os instantes em que eu te vivo aqui..
assim meu, 
assim vestido de mim..
E abrir os olhos, meu amor, é como negar-te..
É deixar-te, menino que és, longe do meu colo..
Mas quando amanhece, amor..
Eu olho pra o teu lado da cama,
 estendo minha mão numa tentativa desesperada de te buscar..
mas tu, amor..
tu não estás..
 D.

"Fica comigo este dia e esta noite 
e possuirás a origem de todos os poemas.." Walt Whitman


Poema do amor qualquer




 


Dizem que andei por aí perdida,
procurando marés que me levassem para fora do oceano.
Dizem que sou eu o próprio naufrágio.
Que vivo submersa nas paredes abissais..
Falam também que me aprisiono em cárceres de ilusão,
que leio demais,
que penso demais,
que amo demais..
E eu, ante vós que sois um bando de bisbilhoteiros, vos digo..
Sim, sou abismo e habito profundezas..
Sim, amo o mar e portanto sou naufrágio..
Sim, leio demais, penso demais, mas hoje, amo de menos..
Não há razão para fazê-lo.
Hoje,  não são teus braços barcos
Nem teu corpo é aquário
Hoje os teus olhos são tsunamis verdes
E permaneces tu atracado ao mesmo velho cais..
Enquanto eu, naufrágio, afundo assustada em caravelas ultrapassadas,
Naufrago as Pintas, as Ninas e as Santas Marias
São meus os barcos frágeis..
São minhas.. as outras enseadas..


"És tu e não o sabes, pulsa-te o coração e não o sente... 
Que plenitude de solidão, mar solitário!" 
 Juan Ramón Jiménez, in "Diario de Un Poeta Reciencasado"

 
Claude Vernet - Naufrágio

A saudade escravizada





Ahh, como são cruéis esses senhores da saudade
 - verdadeiros capitães do mato -
Basta que a saudade fuja, 
e lá vêm seus funestos açoites
Basta que a saudade corra e, 
de imediato, a amarram no tronco
Basta que a saudade ria e, 
slapt, lá vai a primeira chibatada.. 
Apanha tanto a saudade, 
pobre escravazinha, que até adoece.. 
Apanha tanto que nem lágrimas lhe caem dos olhos 
Apanha tanto a saudade 
que já nem sonha mais.. 


Poeminha para depois do choro



Pouco me importa se a poesia é corroída,
se as palavras são feitas de ácido,
se as sílabas soam como arpões viscerais transfundidos..
Pouco me importa a profundidade e o alcance dessas epístolas quase bárbaras..
Tudo é compreensível!!!
O entendimento é raso..
Só as vaidades é que são infinitas
E de vaidade em vaidade, aqui estamos completando o saco do poeta.
Tecendo tramas resistentes e brutas.
De vaidade em vaidade, é que vamos escrevendo o que há muito permanece trancafiado nesse labirinto
E o poeta é um ser tão vaidoso que parece esbravejar, aos quatro ventos, as verdades do mundo
Que parece anunciar em grandes megafones o anoitecer da vida.
E eu, eu sei que anoiteço.
Eu sei que as auroras já não brilham como antigamente,
Que os jasmins já florescem fora da primavera.
Eu sei que já não alimento ilusões.
Eu sei que tudo é passado,
Que envelheço triste e só
Que as velhas árvores irão também morrer
E que até a palavra, um dia, a chuva apagará.
Eu escrevo para a chuva e para as lágrimas.
Para que borrem cada linha dessas,
para que as apague,
para que faça desaparecer pelos esgotos imundos minhas palavras..
Nada mais tem importância!!
Nem eu, essa inútil poeta sem alma..

37 a.I
D.
 "E as lágrimas que choro, branca e calma, 
Ninguém as vê brotar dentro da alma! 
Ninguém as vê cair dentro de mim!" 
Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

 Munch - Young woman on the beach

Os gatos de Chagall



Os gatos
Estranhos bichanos inquietos
Matizados em tons de sonho
Pretos
Brancos
Pardos
Azuis..

Os gatos
Confusas criaturas de deus 
E como gritam
Como se movimentam pela casa
Parecem viver atrás do vento
Parecem farejar os rumores do sol

E os teus gatos, então?
Estupefatos
Coloridos
Surpreendentes
Parecem vívidos nas tuas telas
Teus gatos tem asas
Teus gatos navegam caravelas e barcos
Teus gatos comem flores e brincam com as cabras
Riem os teus gatos??
Seriam felizes os teus gatos??
Sim, donos de um estranho contentamento..
E se pintandos em ocre, talvez felizes para sempre..


"Felicidade, agarrei-te   
 Como um cão, pelo cachaço!   
 E, contigo, em mar de azeite   
 Afoguei-me, passo a passo...  "
Pedro Homem de Mello, in "Eu Hei-de Voltar um Dia"

 

Os olhos de ti perdidos




E tem-me surpreendido esses teus versos..
E tu me dizes essas coisas!!
E eu sem saber-te assim tão doce.
E foste tu a enxergar-me assim menina
Uma jovem menina..
tão inquieta,
tão intensa que as horas parecem ter 63 minutos..
E me vês assim,
como outrora fora
Como inda hoje sou
Uma garota a quem apraz os penhascos
Uma menina que busca,
busca tanto e nem sabe exatamente o quê..
Mas foram os teus olhos a me encontrar.
Esses teus olhos.. meninos perdidos..


És de ti encontrar-me!!!


"Es inútil que duerma. 
Corre en el sueño, en el desierto, en un sótano.
El río me arrebata y soy ese río."
Heráclito


Moça com o brinco de pérola - Vermeer

Dos quereres e das lonjuras

 

Ahhh esses quereres..
Parecem feitos de lonjuras,
de distâncias,
de infinitas estradas..
Parecem estar sempre depois de amanhã,
na próxima aurora,
na hora imprecisa..
Parecem eu..
parecem tu..   


"Quiero que un día cualquiera,
 no sé cómo ni sé con qué pretexto, por fin me necesites."
Mario Benedetti

 Cupido e Psiquê - Munch

Poema para os amanhãs




Não fossem esses sonetos, amor
E eu te beijaria a boca até amanhã
Por que amanhã é dia dos teus braços!
E amanhã serei tua.
E tua depois de amanhã!!
Amanhã, 
enquanto despertam a cidade e os colibris.. 
Naquela hora em que o céu matutino se veste de amarelo.
Amanhã, depois que a lua embalar o sono dos meteoros!
Por que amanhã é dia da tua boca!!
E amanhã serei tua.
E amanhã, devagarinho, no teu abraço depositarei meu corpo.
E amanhã te deixarei minha pele nua.
E esse meu rosto todo..
Mas só amanhã.. 
Porque tu és feito de amanhãs!!
E sempre serão tuas as horas vindouras.
E ainda que me confundas com ontens..
Amanhã serei tua!!
E tua todos os amanhãs..


Lautrec - O beijo

Silêncio e uma boca de volúpia



E então penso em ti!!
E é como se todos os meus neurônios pronunciassem o teu nome.
E tu vais me invadindo,
Ocupando minha pele e a minha vida,
Vencendo meu castelo de areia..
Derrubando-me..
Deixando à mercê de tudo que és tu..
E então eu vivo assim, num quase abandono de mim..
um abandono cujo traço tem o teu rosto..
porque é em ti que navego,
é de ti que vivo imersa..
Mas eu sinto essa dor,
Essa dor de ausência tua..
E porque tu não estás o dia perde a graça
E as nuvens já não são nuvens
São meros algodões troposféricos
E quando chove, amor.. um poeta chora..
E assim, imersa de ti, vou perdendo a fala, a voz miúda, o sono.
Eu perco o chão!!
E não há minuto da minha hora em que eu não te viva
Nem segundo do meu dia em que eu não te queira..
Eu tenho uma longa febre
E uma boca ávida
Essa boca minha.. feita de volúpia tua!!!

 "E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças..."

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"


Canova - Ninfa dormiente

Um poema azul de ti




Meu poema de ti seria azul
De um azul tão profundo que faria ofuscar as turquesas de Andros
Tão azul que confundiria o adormecer das estrelas
Um azul aconchego
De ninar..
De te por no colo
De te sufocar com esses meus beijos flores
E velar teu sono.
Até o amanhecer da madrugada, amor
Até amanhã, amor..
Para sempre, amor..
Para sempre..



 

 
 fotos: d.possamai

Dias com cor de poema

E se tu deixares, amor, farei um abrigo nos teus braços
 -  meu esconderijo anti-bombas - 
e ficarei ali, protegida e tua, 
sonhando dias com cor de poema.

 Klimt

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A paixão perdida nos teus braços




Porque antes de ti não havia montanhas nem peixes.. 
As coisas, todas elas, ostentavam uma espécie de estranhamento incomum.. 
Tudo era quase nada!!
Nada tinha senso, lógica ou porções de afeto.
E eu, antes de ti, era topázio.. 
Era feita de um sem número de rochedos.. 


E quando naquela tarde eu te vi.. 
Tudo, tudo milagrosamente parou!
Não havia aviões em movimento, 
Nem carros nas auto-estradas 
E as pessoas todas eram bonecos imóveis.. 
Bem, agora eu sei porque ocorrem os arco-íris 
e porque é espantosamente bela a difusão da cor no espelhamento dos prédios.. 
E então, tudo naquele momento era TU 
Só tu.. 
O mundo todo,
as constelações de Órion,
as árvores e os animais..   tudo era tu..  


(E agora penso:  
Como podes tu ser assim??   
Como podem os teus olhos imensamente verdes roubar de mim tudo o que há?  
Como posso eu, menina, perder-me aflita dentro dessa tua boca??)  


E então, me perguntei como vivera todas essas horas sem a presença do teu rosto..  
Como pudera viver eu assim eternamente afastada de ti..  
Onde estavas tu?  
Onde estava eu??  
Morávamos nós em planetas distantes?  
Habitávamos nós outros sonhos?  
Que vida teríamos nós não houvesse aquela tarde??  
Não fosse aquela tarde e o mundo continuaria sem cor..  
Não houvesse aquele instante e eu viveria vestida de estanho..  
E agora, amor, diz-me  
Diz-me como posso eu, a mesma criança de sempre,  
viver longe dos teus braços de menino..




"Deita-te comigo. Ilumina meus vidros. Entre lábios e lábios toda a música é minha. " Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"