segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Poema da Separação



Cortaram-lhe os pulsos, o amor.. 
Tomou-lhe uma rasteira. 
Envergonhado, nem sai de casa. 
Perdeu-se na calçada, o amor. 

O amor não sobreviveu à falta de rosas. 
Morreu na pintura da parede, 
Pincelada após pincelada. 
Morreu pelos cantos, 
Sem carinho, 
sem afago,
sem misercórdia.  
A golpes de machado e martelos.   
Só cabiam-lhe as cicatrizes, 
Nem remendos tinha mais. 

Dividiram-se os discos e os talheres,
Os livros e os panos de prato. 
E o amor partiu porta afora. 
Sem rumo, 
Sem destino. 
Incerto como um adeus.  
Afundou-se na lama e na vodka.
E sozinho, 
sem casa nem escombro,  
suplicante, vive na rua, 
mendigo de outras mãos.. 




segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Poeminha breve




Escreverei poemas, flor da manhã.
e te direi palavras nunca antes ditas.
e te beijarei a boca.
e aninharei meu corpo em ti como pétala..
Eu te direi meu amor como prece.
e te acordarei aos beijos e margaridas..
Delicada, te darei meus sorrisos
e a cada manhã, um verso de amor.
um verso de mim.
um verso assim,
quietinho e amarelo..

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Tu, matéria-prima de poema


Um poema que fale de ti..
Que te conte em detalhes e te reveles grande e imprevisto..
Um poema de amor,
Sim, porque sempre serão de amores os poemas.

E eu te escrevo, descrevo, classifico, anoto..
Faço de ti meu poema e todas essas linhas..
E, às vezes, meu amor,  não sei dizer-te..
Porque tu és mais que uma palavra ou folha solta..
Às vezes tu és outro -  pedra sólida sem cimento..
Às vezes, amor, tu moras em Saturno.

E eu, eu preciso, desvendar-te na escuridão,
Eu preciso ver-te assim tão longe, tão calmo e inesperado..
Queria-te meu com os girassóis na mão..
Queria-te pé, traço e alguma poesia..
Queria-te beijos e abraços,
Queria-te boca, amor,
Essa boca tua, para perder-me..



segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Poema de ti



E se eu fizesse um poema agora..
só desenharia duas letras: TU!!
Sim, amado, os meus poemas,
todos eles,
são feitos de ti..


Conta-me

Diz-me de ti, amado..
Quero saber-te calmo como a copa daquela amendoeira
 - aquela - onde fazem ninhos os colibris selvagens..



sábado, 14 de janeiro de 2012

Poeminha da hora inquieta



Acusaram-me, infames, de atormentada e louca de atar!! 
Que fiz eu então?? 
Dei-lhes as costas e fui amar.. 
Mal sabem os sábios de que é feita a vida.. 
Não são de números nem de cimentos.. 
São feitas -  as vidas -  de ternuras, espantos e de alguma poesia.. 

E se me perguntassem mais uma vez:
 acaso estraçalhaste no chão??
Eu ainda assim diria:
 não, pulei do último andar daquela nuvem mágica.. 
Troquem seus óculos, senhores!!! 
Troquem seus óculos.
O amor vale todos os oceanos com suas lágrimas..

Magritte - The False Mirror


Dos amores imprevistos e outros bichos



E tem-me sorrindo, suspirando beijos invisíveis, esses amores imprevistos..
Tem-me indefesa, desarmada.
Tem-me braços abertos e boca de volúpia..
Mas quando chegam -  esses amores - chegam rompendo a porta da casa.
Chegam arrombando e confundindo esses pensamentos antigos, tão bem guardados..
Amores imprevistos nos desenham corações com letras de cálamos.
Nos têm como abraços longos e impermanentes.
E, nesse vazio oco, o amor faz casa..
e aninha suas pernas náufragas cansadas de ondas..
O amor, essa surpresa, lança âncora e finalmente aporta..
Que não mudem os mares, nem os portos..
Quebrem-se as velas do barco para que ele não fuja, bicho indócil..
Há de ser imprevisto o amor,
mas também há de ser presente,
há de ser tudo, há de ser voraz, leopardo faminto na savana..
E sobretudo há de ser alento, alento como és tu e o teu abraço..



Os vestidos de labitinto



E houve um tempo em que eu me vestia de labirinto..
Mas, súbito e magicamente, apareceste tu e essas tuas mãos de acalanto.. 
e o labirinto perdeu-se em areias, esquinas e essas ruas tuas.. 
Já não me sei, 
do labirinto me perdi.. 
Hoje somos nós: eu, as esquinas e essa fome insana que eu sinto da tua boca,
a boca tua sobre a pele minha..

"a boca espera
(que pode uma boca esperar
senão outra boca?)"
Eugênio de Andrade







fotos: Robert Doisneau


O amor e outros mantras




O amor.
Ahhhh o amor.
Quase um laço,
às vezes, algema..
E eu,
Eu quero ficar grudada feito cola ao teu corpo
porque o meu amor é uma amálgama única.
E perdoe-me, amor, mas não quero desfazer-me porque sou tão tua,
que desfazer-se é aniquilar-nos.
Desfazer-se é, para mim, quase como morrer.
Mas eu, meu amor, eu amo tanto a vida e amo tanto a ti..
que em mim, tu e a vida, tudo, tudo se confunde..
Tudo se funde nesta coisa louca que me tira o fôlego e me faz ser nada.
Essa coisa bela que nem eu sei bem o que é..
isso tudo que dá sentido aos dias
que faz ser porto a noite das horas e das luas.
Tu, meu amor, tu é quase tudo o que eu conheço pelo avesso
E eu te quero tanto, tanto
que eu não me canso nunca de repetir-te..


Lovers - Canova      


Cupido e Psique - Canova

Vidas e violetas



Eu sou uma escritora das horas vagas,
horas intensas,
horas impróprias,
horas violentadas pelos minutos pálidos e díspares..
E escrevo a vida como a vida me escreve..
Brevemente, impropriamente..
Escrevo em canções de labaredas e quereres.
Porque a vida é ávida.
Bicho curioso - farejando a própria sorte..
E as letras minhas são quase punhais de aço cujo fio é algodão doce.
Há de ser breve, vida minha.
Mas também há de ser leve.
Há de ser azul como são os horizontes..
E violeta, porque é essa a cor dos teus olhos..