quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Versos aguardando teu colo



Todos esses meus poemas são teus. 
São feitos de ti. 
Eu uso os traços do teu rosto e
a curvatura da tua boca 
para dar vida e graça à estas linhas. 
Eu te enfeito de uma aura de anjo 
E pinto-te como a um arco-íris. 

Tu és uma construção, 
O tijolo e a parede do poema.  
E no fim, eu te dou cada linha minha.. 
E cada poema meu com devoção.
São teus, todos teus.. 
E esses versos ficam lá - no canto da sala -  afônicos e estáticos
Esperando que tu os aceite 
Esperando que a tua mão os recolha 
E que os aninhe no colo como a um filho amputado.


Mantra do amor enfurecido




Enfurecer-te com repetiçoes intermináveis..
Amo-te, amo-te, amo-te.
Amo-te pela casa, ouvidos, paredes.
Amo-te escrito na pele, no céu, na brisa colorida.
Amo-te em todas as pipas soltas no vento.
Amo-te ilustrando todos os muros da cidade. 
Amo-te tatuado na pupila do meu olho.
Amo-te escrito em tudo o que tu vês..
E por amar-te tanto, amado, 
amo-te sempre e amo-te mais..



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Uns versos meus, imperfeitos e inacabados




E eu teria tantas coisas a dizer-te,
Tanta vida,
Tanta lágrima
E todos esses meus sorrisos..

Eu poderia escrever-te em versos
Eu poderia desenhar-te em esboços coloridos
E poderia construir-te - pedra e cimento
Mas nada,
Nenhuma sentença ou saudade
Fará exprimir o todo que és tu..
Eu poderia congelar-te, para sempre, num iglu..
E acorrentar-te a mim como Sísifo e a pedra,
Mas não,
Eu o quero pássaro, asas e zéfiros..
E mesmo que eu desenhe todos os versos e todos os sonetos do oriente,
Mesmo que eu me vista de palavra e te descreva imperfeito
Ainda assim, amor, o infinito de ti seria maior
e eu teria de gastar todos os meus dias para desenhar-te..


Descrenças e outros sermões


Alegrai-vos, gentios de todas as galáxias!!
Olhai para o alto, para o vosso céu cinza..
Acaso vedes o azul?
Acaso enxergais as nuvens??
E por que as verias?
E por que pairaria sobre vossas cabeças algo como o infinito??
Não fostes vós, na sua burrice esdrúxula, a pintar de estanho as estrelas?
Não fostes vós, na sua ganância desmedida, a poluir os mananciais e todas as vertentes?
E por que agora apelais aos vossos deuses??
Há muito eles esqueceram de todos vós, ignaros senhores.
Há muito não há mais nenhum deus.
Já outrora foram aprisionados no Olimpo as divindades e todos os seus caprichos..
Mas eu não sou um deus, e não rezo a nenhum deles,
Eu sou um poeta cego e não leio as escrituras,
Eu sou um poeta com sono e cansado da vossa burrice.
Rezai, tolos e pusilânimes..
Rezai!!
Os deuses são todos surdos..


Creation of Adam - Michelangelo

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Poema do desamor


Também me disseram os outros
Que todo poeta deve escrever um poema de amor..
Eu,
Que não sou poeta nem chego a ser poeira
Escrevo um poema de desamor
Porque hão de ser cantados também os desamores
Hão de ser esquecidas, um dia, num futuro próximo, as desistências
Mas eu não sou poeta
E não cabe a mim dissecar um desamor como um cadáver
A mim basta rezar os réquiens
E desenhar a flor azul da perda - uma rosa desbotada.
A mim basta que feche a porta..
E te diga, sem delongas, adeus..


Te quero

Disseram-me os outros
que todo poeta deve escrever um poema que se chame "te quero"
Ainda que não te queiram
Ainda que não sejam poetas
E esse poema há de ter todas as palavras ditas pelos enamorados
Mesmo que não sejam enamorados
Mesmo que não se digam palavras

Eu,
Que não sou poeta,
E nem sequer chego a ser enamorada
Te digo te quero com a boca pequena
Porque a boca grande eu a tenho para beijar-te
Mais do que isso não posso dizer-te..
Eu tenho uma voz muito fria para esses teus braços tão cálidos

Por isso, amor,  antes que tu creias nas minhas ilusões
e que eu escreva o que primeiro vier a alma
Eu chamei de poema essas linhas
E converti em soneto essas palavras
Cala-me a boca, amor
Aninha tua cabeça no meu peito
E escuta,
Só escuta..

Chagall - Amanti

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Separação em dois atos






Porque me vou.
E te deixo essa casa vazia de paredes brancas,
te deixo uns galhos secos..
e uns livros inúteis.
Deixo também aqueles discos de vinil
e o meu tênis azul desbotado.
Joga tudo fora!!
Não esquece de dar comida ao cão que nunca tivemos,
de aguar as plantas que deixamos morrer,
e fechar as janelas - eu sempre tive medo de ladrões.

Me vou..
Ficam os desamores, as impaciências e os descuidados.
Todos lá, belos e bem colocados, na estante da sala.
Aninha-os no peito.
Conversa com eles.
Aceita-os - serão teus novos companheiros.
Me vou e te deixo tudo.
Te deixo essa fatura de ex-amor, de ex-amante, de ex-marido.
Uma promissória nula sobre a mesa e aqueles discos insuportáveis que tu tanto gostavas.
Me vou e te deixo tudo..
Tudo..
É carnaval.
Jogarei-me na avenida até ver o amor morrer dançando, suado, o samba do fim.



Separação - Munch

Um poema de amor sem amor




Um poema que fale de amor sem amor.
Um poema sem palavras bonitas,
sem rosas,
sem entardeceres,
sem corações apaixonados,
sem beijos ou pétalas ou aquelas vozezinhas que a gente faz quando ama.
Um poema sem qualquer outra breguice.
Um poema que se desenhe à seco,
sem água, nem oásis.
Um poema assim - deserto vermelho -
morrendo à mingua
de inanição..




Fotos: Peter Lik

Poema da Separação - Segundo Ato



Porque eu tenho os olhos cansados de tanto esquecer-te
e as mãos fatigadas de tanto abandonar-te
A minha carne é lassidão e cansaço.
e os meus lábios peregrinos futuros.
Deixei-te junto ao desamor
uma cama vazia de lençóis brancos,
as paredes sem retratos
e nenhuma lembrança.

E do que fomos outrora põe na mala e carrega junto de ti.
Não quero as tralhas, os talheres, os retratos.
Não quero nada.
Leva contigo os discos, as cobertas, as flores secas.
Já não as quero.
Já não te quero.
O amor morreu outro dia.
O matamos de asfixia.
E as palavras agora já não fazem sentido.
O nós de outrora hoje respira vazio.
E eu já não sei dizer-me ou dizer-te..
Morri com o amor.
Atirei-me da janela!!
Adeus.



Separação II - Munch