sexta-feira, 6 de abril de 2012

Poema para os teus olhos



E mesmo a salvo,
mesmo em terra firme,
ela só desejava naufrágios..
Eram feitas de mar as volúpias..
Eram o mar..

E eu, vendo-te azul, na janela minha de ilha
Sonho-te como horizontes e pássaros e hipocampos
Sonho-te onda a ganhar a alma,
A deixar-me nua
A tocar-me, pétala, com teus dedos de naufrágio..
Sonho-te maresias e areias
Sonho-te cais
Porto
Pedra
Ilha

É és tu meu único pecado
És tu a chave e a porta da oca
És tu a permanecer para sempre, mar
Mar,
nos quatro cantos dessa ilha..
Essa ilha tua..
No teu mar, mergulhada..

"Aqui..
onde a terra se acaba
e o mar começa.."
Camões

Grande Barreira de Corais - foto: D. Possamai

Poeminha insistente e táctil




Mas quando nasce o poema
voam através de ti os encantos..
Tu és a razão e o objeto dessas linhas..
E se te desenho assim,
tão insistentemente,
é por que tu permaneces intacto,
na pupila verde do meu olho..
É por que em ti está a origem das horas e das folhas de outono..
É porque estou eu,
como perfume,
impregnada da pele tua. 


O olho teu e um coração acidentado



Eu não desejarei esses teus olhos,
porque o teu olho, meu amor,
é luz e estrada..
E mesmo que eu ande perdida,
Em meio à escuridão,
Imersa nas brumas e nos cinzas
lá estarão teus olhos,
dois peregrinos vorazes a me acompanhar.
E mesmo que eu siga na noite sem sombras e devaneios,
mesmo que eu quebre todos os meus ossos e vire pó,
eu ainda os teria sobre mim como a válvula num coração acidentado.

Poema sincero nr. 1



E por que razão ando tão triste?
Como se em mim houvesse remendos e pedaços espalhados..
Como se estivesse dilacerada,
com minhas carnes ao chão..
para os abutres..
Como se houvesse só cinzas nos dias e dores nas enfermarias.
Há minutos em que não há luz,
em que não há, no reino, alegria e alguma leveza..
É tempo de colorir, eu sei,
mas em mim já há mais flores..


Morte na Enfermaria - Munch

Carta aos ignaros


E então eu escrevo estas cartas para imortalizar-me..
Há em cada palavra minha
ainda que ínfima,
uma gota de eternidade.
Sim, tu me perguntarás:
Acaso as linhas não se apagarão um dia?
Acaso tu também não perecerás certo momento???

E eu vos direi:
Sim, um dia, fenecerei!!
Fenecerão esses papéis
Fenecerá o mundo e todas as árvores
Mas as minhas linhas,
Ahh, estas não fenecerão..
Elas gritarão a eternidade.
Por que haveria de morrer aquilo que vêm da alma??
Por que desapareceria do mundo os tiranossauros-palavras??

Eu não vos deixo nenhum paradigma,
Eu mesma não sou um paradigma,
Sou um protótipo de confusão e algum escárnio,
Mas eu ainda sei rir..
E se rio, senhores, é porque sim, serei eterna..
Se rio, caros nobres estapafúrdios, é porque as minhas palavras são águas.
E é de rio que são feitos os abraços..

05/04
"O que existe falta sob a eternidade;
saber é esquecer,
e esta é a sabedoria e o esquecimento."
Manuel António Pina

Poema sincero nr. 2




Às vezes sou tão triste 
que em vez de matar-me
ou chorar-me
ou morrer-me, 
eu escrevo poemas.. 
E há momentos em que até escrever-se aborrece..  
Há momentos em que me visto de plástico e que sorrio sem vontade
Maldita boa educação!!
A puta que pariu essa finesse incorpórea!!

Ahh chega!! 
Chega dessa ladainha de cinzas.. 
Hoje eu quero sorrir-me!!! 
Hoje eu quero as nuvens e todos os azuis.. 


O passado




E ao olhar-te novamente, vi que já não eras tu.. 
Eras outro. 
Um estranho desconhecido desses que passam e a gente não vê. 
E então, eu fiquei me perguntando que olhar tinha eu - tão outro - quando te vi outrora. 
Que olhos eram os meus??
Que olhos tinha eu que me era possível ver-te tão equivocado, tão diverso do agora. 
Meus olhos.. 
Meus olhos morreram.. 
Morreram nos muros do pretérito,
Perdidos 
como duas esferas tristes..


"Já dos velhos tempos
não se conhece nada."
Bertold Brecht


Poema sem nome nr. 1


E então banalizamos as palavras,
banalizamos o amor,
banalizamos tudo..
As coisas, todas elas, vivem tão cheias de insignificados..
Tudo tão banal, tão comum e vil.
E eu me pergunto onde outrora colocamos o espetáculo da existência,
em que gaveta de ontens enfiamos nossas ilusões
Em que nuvem de deus viverá nossa fantasia..
Perdemos tudo, senhores
Já não há mais poesia..
Os ladrões a roubaram,
a roubaram junto com o arco-íris e as flores do jardim..



O jardim das delícias - Bosch