quarta-feira, 30 de maio de 2012

Poema sem nome, feito a quatro mãos e sem data para acabar




E o que é escrever senão imprimir, na folha branca, a própria vida??
Senão andar nua como Vênus diante do espelho??
Sentir o frio, o calor,
o beijo estático da aurora,
o frêmito desses lápis coloridos a pintar a página.
O que é escrever senão tomar emprestado as nuvens e
brincar de amarelinha nos longos tapetes de deus??

 Que o soneto que nasce agora ganhe todas as cores de outono
 e nos carregue livremente ao sabor das ventanias.
Que sejam as palavras os algodões doces da infância. 
E por fim, que o resultado dessas linhas nos encante 
como duas crianças surpresas, olhando,
pela primeira vez, a vida novinha em folha..
29/mai

Bem sei, são as belas folhas secas que caem, típicas da estação,
que nos arrebata ao bem estar comum.
Por horas, fico debaixo das árvores.
Um prazeroso tempo!
Tempo de infância, imaginando que eu e ela somos um.
E então volto pra casa, vendo os gritos da minha mãe em aflição
O menino vestido de outono apaixonado que não fez a lição
volta agora ao mundo..
02/jun

E que mundo é esse onde viemos morar?
Uma ventania furiosa nos fez distância.
Mas sempre há os poemas,
Belos poemas que nos desenham como duas pipas infantis..
Tão coloridas, que alcançam espantosas altitudes..
Tão brilhantes que fazem inveja aos vaga-lumes..
E assim, navegamos o céu..
É nas nuvens pois, que queremos morar..
Nas nuvens - a mágica biblioteca dos poetas..
 02/jun


Para  Cris.
Na arte é preciso dar sangue.
O que fazer versos senão confessar que a vida não basta.



Lonjuras




Quisera falar-te
Quisera olhar-te
Quisera ter-te.

Mas tu és feito de lonjuras, amor..
Tu és distância e horizontes.
E quando te vejo, amado
pareces estar no mar da Tasmânia,
entre os fiordes e as neves..
Pareces navegar outras enseadas,
entre os atóis e as baías todas..
Mas eu, eu não tenho os mapas cartográficos
E a mim faltam as bússolas e todas as caravelas.

Diz-me, amor
diz-me então como buscar-te
Que eu atravessarei os mares bravios para encontrar-te..

26/05/12

"Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa. "
Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"





domingo, 20 de maio de 2012

Versos para o leitor impaciente



Acalma-te, desconhecido leitor
Que a espera é flor de se colher depois do orvalho,
depois que a noite fugiu brilhante por entre a relva.

Colhe o fruto da aurora..
Porque os meus versos, meu caro,
por vezes são tão tímidos,
que é preciso olhá-los suavemente,
tocá-los sem pressa, com mãos de encanto e pétalas..

Respira brandamente estas linhas..
As fiz na esperança de acalanto.
Quiçá amenizem a longa espera..
Mas o que é a esperança senão a terrível arte de esperar??

E então te dedico essas poucas linhas..
Tão miudinhas que vão ficando por aqui
Que terminam pequeninas para que se pareçam com a espera -
A espera - essas margaridinhas amarelas - tão pequenas, tão singelas..

Aceita esses versos-perdão e as margaridas..
Elas chegarão a ti pelo vento,
dançando ao sabor da brisa..
Por favor, só abras a janela!!


20/05/12

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Poeminha para os versos suicidas





Mas até mesmo os versos têm um tempo efêmero..
Muitos deles já nasceram velhos,
Alguns, rabugentos e ultrapassados..
Outros, jovens versos de vida breve,
sim, os que acabaram de se suicidar,
jogando-se do décimo segundo andar.

Há versos, porém, que embora pareçam eternos,
morrem de um jeito atroz,
porque o amante, enfurecido, os atira pela janela,
e eram os poemas de Pessoa,
que, atropelados no chão pelo caminhão de lixo, exalam seu último suspiro..

Há versos orgulhosos,
impávidos - pavões no cio -
tão ufanos, que mal conseguem sustentar sua empáfia..

Mas eu, eu gosto mesmo é do verso tímido,
o verso singelo..
Aquele versinho menino,
tão envergonhado,
que ruboriza ao conseguir beijar,
pela primeira vez, a namorada..



O entardecer da aurora



E então sei que entardeço!!!
E nada posso fazer a não ser observar a fuga violenta das horas.. 
- Como são efêmeras essas senhoras!!!
E o que fazer com o tempo
quando gostaria de vê-lo trancafiado, para sempre,  na sala?? 
O passado é mesmo um velho baú cheio de pó 
onde vivem perdidos alguns objetos arcaicos,
Umas poucas lembranças 
E talvez algum infortúnio

E depois de um tempo a gente se vê, diante do espelho e que susto!!!! 
- A quem pertence essa estranha face??
- Ainda ontem tinha outra cara.. 
O tempo passou e eu nem fiz nada. 
Tenho 36 anos 
E ainda me sinto aquela mesma criança levada, 
Correndo no vento.. 
à procura de vaga-lumes.. 

08/04
"Colhe, pois, a sabedoria.
 Armazena suavidade para o amanhã."
Leonardo da Vinci



A poética da ausência



Em que nuvem do céu estarás tu, amor,
que não lhe posso ver?
Minhas saudades são galáxias perplexas!!
Horizontes incandescentes de frio e lonjuras..
Não te ausentes de mim, amor..
Não te vás nunca..
Nunca, amor..
Sem ti sou pétala abandonada no rio,
esse rio que não flutua,
esse rio quase morto,
que não desagua,
um rio triste e sozinho
- pobre riacho sem ti perdido - perdido,
na procura infinita
dos teus braços de mar..

17/04

Apocalípticos e anafórmicos - 10 sentenças para o fim do mundo e um veredicto


01. Um dia, até os jilos escreverão belos  poemas.

02. Passearão, de mãos dadas e, eternamente apaixonados, vacas maquiadas e sapos disformes..

03. A realidade tornar-se-á gasosa. E do asfalto nascerão flores roxas de concreto e parafusos de borracha.

04. Pterodáctilos e tiranossauros rex povoarão os bairros e serão os primeiros moradores dos novos conjuntos habitacionais - um e o mais novo programa assistencial a ser lançado pelo governo anárquico ora estabelecido..

05. Os homens pintarão o céu. Numa votação secreta, escolherão o amarelo e as matizes de ocre...

06. Todos as crianças, todas elas, aprenderão braile. A visão do fim do mundo, nesses tempos, continuará estreita..

07. O universo, mesmo disforme e derretido, ainda será governado pelas vaidades e estes, os vaidosos, dominarão o planeta com seus cichotes e máscaras de bons lobos..

08. Os políticos serão cassados e julgados pelos democratas retrógrados e ultrapassados.  Ficarão à mercê da guilhotina. Execrados em praça pública, morrerão de frio e de honestidade..

09. Não haverá congresso..A burocracia morrera jovem.. Haverá um feriado para ela - 31 de abril..

10. E chegará o dia em que finalmente o criador, cansado da criação, enviará um raio destruidor de facebooks e acólitos, e então respiraremos em paz..

O sufrágio universal salvará o mundo..

O sono da razão produz monstros - Goya

Poema nr. 2 - Monólogo da solidão




Eu tenho uma solidão tão indefesa
que posso aninhá-la nos braços e cantar-lhe uma canção de ninar.
E é tão premente essa dama
que sinto, navegar em mim
todas as desventuras brancas e as multidões vazias..
Minha solidão é tão minha que, amiúde, eu a tenho no colo,
sentada comigo, na cadeira vazia.
Porque a única coisa que sei de mim é que vivo com ela
E que juntas, em doces devaneios, viajamos os horizontes azuis

Por vezes, eu a pinto de branco..
um elefante gigante e branco
que me estremece as entranhas e pesa os ombros.
Minha solidão é tão cheia de significados
que nem os ouso traduzir
e tão grandiosa
que é preciso outra casa para acomodá-la!!
E ficamos nós duas, minha solidão e eu,
lá,
estáticas,
a olhar as paredes nuas
a contemplar
o que já não está mais lá..

28/02/12


Room at Arles - Van Gogh