quinta-feira, 21 de junho de 2012

Dialética



A mim pouco importa se sou triste!
Essas definições - felicidade, tristeza, loucura.. -
São só definições!!
Nesse meu mundinho imenso,
Não as aceito.
E peço que me deixem em paz.
Peço que procurem flores em Dasht-e Lut.
Que cuidem dos seus belos umbigos.
Deixem o poeta na sua tristeza ou alegria ou loucura..
Deixem-no cair no abismo..
Porque um poeta renasce a cada sílaba..
Mas é também num soneto que o poeta morre..
18.jun.12
"Poeta, sempre em luta vã contigo,
— Que sofres de já ser aquilo que não és,
Que sofres de não ser aquilo que queres ser...
Poeta, é já bem grande o teu castigo.
É preciso viver."
Francisco Bugalho, in "Canções de Entre Céu e Terra"
A morte e a jovem - Klimt
 Morte e Vida - Klimt

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Poema inominado



Que as minhas linhas não morram no chão atropeladas pelo caminhão do lixo
Que elas se perpetuem no horizonte
Que brinquem, mendigas, à procura de colo
Que sejam minhas linhas o prenúncio da primavera
Porque eu não tenho flores e nem sei cantar
Eu só sei colorir as partituras..
E as minhas sinfonias são as linhas soltas, os poemas dispersos, os versos órfãos..
Colha-os!!
Eles estarão lá, sorrindo,
no jardim que acabo de desenhar,
agorinha mesmo,
debaixo dos teus pés..


21/05/12


"Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo."

Alberto Caeiro





fotos: d.possamai

Três silêncios e um amor

..
..
..

Eu te amo

!!!!!!!!!!!!!
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
!!!!!!!!!!!!!
!!!!!
!!!!!!!!!
!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Não digas nada. 

Só escuta!!! 




Doubtful Sound  - foto: d. possamai

Versos para quem me lê na Alemanha



Não conheço tua face
e sequer imagino um nome para ti..
Mas causa-me uma imensa curiosidade saber-te..
Quem serás tu, ó fiel leitor
Que de tão longe lê essas linhas
E que, dia após dia, me acompanha nesses aventurosos caminhos de poesia..

Viajariam nos tapetes mágicos os versos??
Ou nas nuvens?? - As simpáticas companhias aéreas dos poetas..
Perder-se-iam os sonetos pelas cervejarias da velha Munique??
Ou quem sabe, visitariam Ludovico II, o rei Louco???

Caro leitor, minha epístola é para dizer-te obrigado..
Minha carta, essa carta, é quase um cuidado..
E eu te desenho esses versos de outono agradecido
para que encantados fiquem teus olhos ao vê-los..
Que atravessem o Atlântico, essas linhas minhas, e cheguem como violetinhas perfumadas às tuas mãos de poesia..

05/jun/12
Não sei se és leitor ou leitora, mas da minha curiosidade febril de menina, fiz um poema para ti..


Resposta ao leitor de coração apertado



Escutai o coração..
Ele tem uma voz muito rouca para o orgulho dos homens..
Escutai com dedos de cuidado e primaveras..

Coração é músculo ininterrupto!!
Amai, portanto, amai de horizontes,
a perder de vista..

E ainda que vos falte vontade ou os quereres dessa vida,
Inventai o amor
Fazei com que resista ao tempo e as rugas..

Dai-lhe casa, coberta e uma xícara de chá
Acalentai no peito um amor desesperado
E fechai a janela, para que não pule o muro de casa - o amor - menino fujão!!

11.jun.12
Versos que escrevi em resposta ao comentário deixado, anonimamente, neste blog: "com o coração muito, muito apertado! Deus está tratando o meu coração orgulhoso com força..."
Que essas palavras te tragam acalanto e sabedoria.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Poeminha desavergonhado



Mas eu não sou um poeta..
sou uma menina que, amiúde, escreve poemas..
um deserto onde, às vezes, nascem flores..
Tenho cá pra mim uma vontade infinita de ter asas..
a minha casa é esta terra seca, eu sei..
mas eu tenho uma avidez incontrolável de ser pássaro..
não para voar nestes céus de infinitos azuis,
mas para dar rasantes nas cabeças dos carecas..

06/jun/12
Seriam as carecas os aeroportos das pulgas???


James Sant - Innocence


Liev, o velho poeta fujão




Estavas tão feliz!
Tão ébrio de azuis quando saíste porta afora,
que até a porta abrira para que voasses livremente..
(como se a ti tivesse deus permitido asas!!)
Te foste, velho Liev..
foste buscar a vida.. (ainda que um bocado aventuroso dela).

Espera.
Não te vás ainda..
Senta-te um pouco.
Diz-me mesmo o que é a vida..
Conta-me da coragem tua ao fugir de casa..


Não são muitos os velhos meninos que fogem de casa aos 80 anos..
Eu mesma só conheço a ti - é que menino és tu!!!
Tenho, cá para mim, uma alegria tua de sonho realizado..
É como se fizera o mesmo,
Se pudessem minhas pernas cansadas correr pelas locomotivas..
Se te alcançassem em Astapovo..
Ah, Liev!
E que aventura essa tua fuga..
Uma deliciosa viagem em busca de inomináveis horas

Foste contente, eu sei!!!
Infeliz mesmo fora aquela bactéria intrusa que te ousou invadir, levando-te para longe deste mundo..
Deves estar em algum planeta longínquo e frio (quiçá uma Rússia extraterrena)
E por certo escreves, ainda agorinha mesmo escreves..
(Serás tu o redator das longas e incompreensíveis leis do onipotente??)

No entanto, meu caro amigo,
se te sentires um pouco entendiado,
pega tua pena e brinca de deus..
um deus bem maluco,
um deus que escreve cartas anunciando, para ontem, o fim do mundo..
Adeus, Liev..
Adeus..
Que ao menos Cérbero, aquele cão mal-humorado, tenha sido gentil na tua chegada..


04/jun/12
Para Tolstói, o velho menino que fugiu de casa aos 80 anos.. 



Teu vírus de saudade contaminado e um manual de uso



Em que nuvem distante andas tu a morar???
Tão distante, que até o serviço de correios é ineficiente...
Se as cartas manuscritas não chegarem à tua porta, mandar-te-ei uma flecha..
Um dardo contaminado com o vírus da saudade..

Sabes, minha saudade é tanta que preciso de outra casa para acomodá-la..
E tão imensa que já anda louca, pobre velha..
Louca e nua,
procurando-te nas esquinas e arrabaldes..

Abre a tua porta e deixa-a entrar!!
Oferece-lhe um chá e coloque-a para dormir
(sim, ela tem andado febril)
Aguarda que ela descanse.
Depois dá-lhe um abraço e um amarilis azul..
Assim ficará satisfeita a saudade..
E, então, para casa voltará
- a saudade - bela flecha de ti contaminada..

03.06.12

"Da saudade na campa enegrecida 
Guardo a lembrança que me sangra o peito, 
Mas que no entanto me alimenta a vida."
Augusto dos Anjos



Magritte

terça-feira, 5 de junho de 2012

Poema do amor diferente



E fico me perguntando como diria "eu te amo" de uma forma só minha..
Sem ser assim um "eu te amo" comum, banalzinho..
Um "eu te amo" que te faças perder o chão e te carregue direto à minha boca
Um "eu te amo" que te diga baixinho "sou tua", "te quero", "te vivo"..
Que te faças abrir um sorriso e te deixes suspirando horas a fio..
Não, muito mais do que isso, um "eu te amo" que tu saibas ser só teu..

Sabes, amor..
Quebrei a cabeça a tarde toda,
E nem me dei conta de que a solução estava bem ali,
bem debaixo do meu nariz..
ao alcance da minha própria boca..

Se te amo, amor.. Te descrevo!!!
Te conto nessas linhas minhas tão imensas de ti
Se te amo, amor.. És tu o ar
E eu sou só balões coloridos.
Se te amo, amor.. Te grito!!!
E é num arcaico megafone gigante que te anuncio..
(Aí de mim, essa pobre poetisazinha preguiçosa)



"Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco."
Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"

foto: d.possamai

O miosótis atropelado e amor apressado


E pisaste naquele miosótis sem saber que aquele era também um poema..
Pobre miosótis machucado!!
Morreu na calçada, como um pacote azul estraçalhado..
Tão descuidados foram os teus pés de pressa que sequer o vira..

E a pobre florzinha era um poema que falava de dor
Da infinita dor dos amantes que se suicidam por não se deixarem amar..
Da infinita e implacável dor que sentem os amores que não tiveram chance de viver,
Aqueles amores negados, engasgados num bocado de ontens..
Aqueles, cujos amantes insensíveis os aniquilam antes do derradeiro fim..
Os amores que morrem pela falta de carinho, de cuidado, de discernimento,
Aqueles que morrem pela falta de tudo,
até do tédio que não viveram..




Nota: a escolha do miosótis não fora fortuita..
Essa florzinha, de um azul delicado, é originária da Rússia. 
Na Europa, o miosótis é mais conhecido por "forget-me-not",
 embora, muito terrivelmente, tenha sido ele utilizado como símbolo
 da maçonaria durante a segunda grande guerra..
04.jun.12




segunda-feira, 4 de junho de 2012

Poeminha da hora imprecisa





Às vezes, sou tão inquieta que resolvo acorrentar-me..
É como se a professora me deixasse de castigo, proibindo-me de ver o sol..
punindo-me do mundo..
E olha que nem versos eu fazia quando criança..
Quando menina me agradavam os entardeceres com meu avô e as ovelhas..
Eu sempre tive uma inexplicável paixão pelas ovelhinhas que nasciam no frio..
Pareciam tão indefesas..
Talvez eu mesma fosse indefesa e admirasse nelas a mesma função..
Na infância, me inquietavam os peixes.
Eram tão ansiosos naquele mundinho de vidro
e me punha a imaginar como seria metê-los numa piscina de água quente..
Ingenuidade a minha..
Eles de súbito morreriam perplexos..

Passados poucos anos, minhas curiosidades cresceram..
Eram as constelações que me confundiam..
Era imaginar como seria se o mundo, certa vez,
voasse para fora do eixo e caísse pelo infinito como uma maça apodrecida..
Fui saber de Newton anos mais tarde e que tristeza a minha..
O universo não despencaria jamais, mesmo se as tias gordas ficassem mais gordas..  Que absurdo desfecho!!!

Hoje, no entanto, tenho outros desassossegos..
A mim inquieta o amor, essa coisa terrível..
Como podem ser assim tão perturbadores os amores dessa vida..
E ainda há estranhos seres que dizem existir outra - outra vida atormentada - seriam ainda os mesmos amores???
Por Diós, não me puna com essa fatalidade..
De amores, basta o meu!!!!
E o teu, que é meu também..

04/jun/12



Fotos: d. Possamai

Será ela Daniela??



Talvez eu tenha outro nome..
Talvez eu tenha nome de nada.
É..Estou incolor e tenho nome da nada..
Mas afinal que outro nome teria eu??
Daniela será pé??
Será mão??
Será nada??
Daniela será folha de um outono choroso??
Será chuva Daniela??
D a n i e l a
Dani - ela..
Ela..
Eu..
Será que somos - ela e eu - a mesma estranha criatura??
Uma estranha..
Criatura..
..

04/jun/12


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Versos para encantar o gris dos dias



E eu desenho minha poesia nos muros da cidade..
Eram tão feios os muros
Que agora parecem ganhar vida nova
E então eu vejo essas belas sílabas espalhando-se pela ruas
Vejo os versos construindo as avenidas, as pontes,
Por entre os carros e os transeuntes..
Versos que vejo colorindo teu dia
Poemas que deixo na esperança de que faça feliz tua manhã
De que te faças esboçar um sorriso miúdo
De que encante o teu olho de espera
E te faças pensar no quão teus são esses versos
No quanto de ti há neles
Serás tu uma sílaba??
Quiçá um soneto?
Ou um verso envergonhado com dedos de ternura??
Mas não, nada, meu amor,
nada disso és tu
Tu não és parte ou sílaba do meu verso
Tu és todo o meu poema..
Um longo e interminável poema de amor
E eu, eu só quero, para sempre, poetar-te!!!


Quero colorir o teu dia,
ainda que na minha paleta de cores haja só cinzas e suas intermináveis nuances.. 

22/05/12





Saudade muda - segundo ato



Eu tenho uma saudade muda!!!
Eu tenho uma saudade muda que às vezes grita!!
Grita tanto que é impossível não ouví-la..
Grita tanto que chega à tua janela e te olha com esses meus olhos ternos
esses olhos que te pedem pacientemente: escuta!!

Mas tu, tu nunca a ouves..
Então, amor, eu só te peço acalanto e uma breve pausa..
Rasga esse teu coração de níquel e me escuta..
Eu tenho uma voz muito rouca, amor
Escuta-me porque eu tenho muito pouco a dizer-te..
Sou só pranto e uma saudade ancourada..
essa saudade que te diz baixinho
que te sorri com a boca pequena
que te enxerga cais..  no meu mar sem fim..

28/05
"Ninguém entenda, embora,
Esse vago clamor, marulho ou versos,
Que sai da tua solidão nas praias,
Que sai da minha solidão na vida...
Que importa? Vibre no ar, acode os ecos
E embale-nos a nós que o murmuramos...
Versos, marulho! Amargos confidentes
Do mesmo sonho que sonhamos ambos!"

Vicente de Carvalho - fragmentos



Poeminha para os versos tristes




Mas há os versos tristes..
Tão tristes que parecem flores despedaçadas, cujas pétalas perderam-se no chão como migalhas
Seriam aqueles miosótis que deixaste sobre a mesa ao partir?
Ou aquelas violetinhas azuis enamoradas de sol?

Repara que os versos são tristes porque tristes estão as flores.
Tristes e pálidas..
Já não há caminhos e a primavera é uma distante senhora.
O outono é cego e as árvores já estão nuas..
Restaram no quintal só uns girassóis desavisados
E com os  girassóis eu celebro o verso triste, o verso abandonado
Tão abandonado, que me estende as mãos suplicando um colinho..

23/05/12

"Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram."

Álvaro de Campos, in "Poemas"

O amor de muletas



E o que dizer de ti quando te sei silêncio e contemplação
Quando te sei metade
Quando te sei escuridão e promessa
Que fazer sem ti nesses dias imprecisos??
Diz-me como viver..
Diz-me como atravessar o muro e romper a clausura..

Eu sou aquela menina amputada
de mãos atadas e membros sem movimento.
E ainda que eu não tenha pernas.
Ainda que eu use muletas
Eu sei que posso correr,
Mais do que isso, eu aprendi a voar.
Voar, pássaro livre..
E é no teu corpo, meu amor, que eu farei a minha casa..

26/05/12

Um céu para ti desenhado



E o que dizer da nudez destes céus de outono??
Límpidos como uma aurora liquefeita
Céus de poucas nuvens e estrelas tímidas..
Um esboço de céu..
Um pedaço do deus pequeno
Uma nuvem
Um pássaro
Um cometa riscando o azul como um louco em fúria,
um insanso desmedido e violento!
Tragam as camisas de força..
É preciso prendê-lo - esse cometa rebelde -
É preciso trancafiá-lo, para sempre, como um garoto desobediente
Ponham-no no quarto escuro
Deixem-no de castigo
Há de atrever-se riscar o céu novamente,
Há de colorir de azul a noite escura
Há de perpetuar-se, para sempre, alto e belo, na pulila do teu olho de menino..

18/05/12



Elipses de ti



E então eu faço essas elipses..
Perdoa-me, amor
São matematicamente propositais
Quero esconder-te!!
Quero deixar-te oculto,
guardadinho como um pertence
como um quadro inédito de Munch, talvez..
Para que ninguém o saiba
Para que ninguém o colha..
Quero-te oculto para então descobrir-te
Descobrir-te no meu corpo frágil perdido
Achar-te entre os lençóis enamorado
Descobrir-te ar, língua, pele..
Descobrir-te beijo, amor
um beijo teu, azul e belo, como são as saudades de ti..

18/05/12


Cupido e Psiquê - Munch - 1907


Confort - Munch - 1907

Memórias para o fim da esperança


E que deus é esse agora??
Outrora suplicastes aos céus as tolices vossas de cada dia..
Hoje bastam-vos as igrejas já em ruínas..
Cartago, Éfeso, Mystras e seu calcário morto..
Que deus tão vil vós procurais em vossas preces infames?
Que alegrias achareis nesse porvir indefinido??
Chega de embustes,
Enterrai vossas falsas divindades
E por favor, encerrai para sempre, num labirinto, os sofismas de vossas primaveras..
Acabai com esse vosso deus judaíco-cristão
Esse mesmo deus tirano e inventor de grandes fálacias.
Abandonai a vossa culpa secular
Jogai fora esses dogmas enegrecidos e putrefatos
Respirai o ar puro, senhores
Debaixo do céu, o homem..
Atrás dele, as estrelas..
Alegrai-vos porque a esperança está morta..
E é no Godwin Austen que residem suas cinzas..

31/05/12

Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo.
As convicções são cárceres.
Friedrich Nietzsche



A solidão da escultura nua



Os meus hábitos são os da solidão.
Não os da solidão que perturba,
Mas os da solidão que afaga.

Tantas vezes encontro-me só,
olho-me no espelho e o que vejo?
Uma escultura nua pouco interessada nesse mundo.
As minhas vaidades são essas linhas curtas,
esses poemas dispersos e alguns espondaicos sinceros
A solidão, velha dama, mora comigo,
senta-se na sala, conversa sozinha, canta..

E nessa inquietude sem fim, respiramos ventanias e desertos
É daí que surge, amiúde, a alma
Essa alma minha amarela e confusa
E daí que eclodem esses versos..
Da solidão de uma alma errante..

31/05/12
"Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades."
Fernando Pessoa