sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A paixão perdida nos teus braços




Porque antes de ti não havia montanhas nem peixes.. 
As coisas, todas elas, ostentavam uma espécie de estranhamento incomum.. 
Tudo era quase nada!!
Nada tinha senso, lógica ou porções de afeto.
E eu, antes de ti, era topázio.. 
Era feita de um sem número de rochedos.. 


E quando naquela tarde eu te vi.. 
Tudo, tudo milagrosamente parou!
Não havia aviões em movimento, 
Nem carros nas auto-estradas 
E as pessoas todas eram bonecos imóveis.. 
Bem, agora eu sei porque ocorrem os arco-íris 
e porque é espantosamente bela a difusão da cor no espelhamento dos prédios.. 
E então, tudo naquele momento era TU 
Só tu.. 
O mundo todo,
as constelações de Órion,
as árvores e os animais..   tudo era tu..  


(E agora penso:  
Como podes tu ser assim??   
Como podem os teus olhos imensamente verdes roubar de mim tudo o que há?  
Como posso eu, menina, perder-me aflita dentro dessa tua boca??)  


E então, me perguntei como vivera todas essas horas sem a presença do teu rosto..  
Como pudera viver eu assim eternamente afastada de ti..  
Onde estavas tu?  
Onde estava eu??  
Morávamos nós em planetas distantes?  
Habitávamos nós outros sonhos?  
Que vida teríamos nós não houvesse aquela tarde??  
Não fosse aquela tarde e o mundo continuaria sem cor..  
Não houvesse aquele instante e eu viveria vestida de estanho..  
E agora, amor, diz-me  
Diz-me como posso eu, a mesma criança de sempre,  
viver longe dos teus braços de menino..




"Deita-te comigo. Ilumina meus vidros. Entre lábios e lábios toda a música é minha. " Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"


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