quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Poema para Alejandra



Deste teus poemas ao barqueiro.
Teus poemas e algumas bonecas..
E assim pagou-lhe a travessia.

Estávamos no domingo, lembro-me bem..
Um dia ensolarado na capital.
Tu havias deixado tua clausura
e foste fazer companhia ao porcos..
(sempre imundos os porcos - imundos e nunca sabem nada)

Não sei o que pensaste,
sequer suponho o que sentiste..
Mas o mundo é sempre obscuro
Obscuro e há muitos demiurgos a nos tirar a paz..
(A mim foi dado o ceticismo..
E então não compadeço nem ajoelho diante de nenhum deus..
Eles sequer tem vida própria
Cabem-lhes a fé de todos os porcos para viver..
Os porcos - os mesmos, aqueles que não sabem nada!)

Mas tu eras tão jovem.
Tu tinhas uma face pálida.
Eu sei, pesava-lhe a caneta..
Eram feitas de sangue húngaro tuas linhas..
O sangue há muito derramado que te desassossegava..

Foste ao jardim..
Tu sempre viveste nos jardins..
Era lá, em meio as flores, que buscavas o outro lado..
O outro lado..
Talvez Alice te espere
Ou o coelho quiçá..
E acho que até Artaud te espera..

Vá, poetisa
Vá para longe..
Nem precisas da caneta e da folha branca..
Lá, bem longe,
os poemas se escrevem no azul..



Despertei minha alma inquieta pensando em ti e em todos os poemas que deixaste..
Para ti, Alejandra Pizarnik
 01.julho




 




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