quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Poema para o teu sono



Dorme,
que mesmo dormindo sabes mais do que eu..
Tua pele conhece os encantamentos roubados do tempo
Heróis e Polifemos desenham os doces traços do teu rosto..
 
Dorme,
que os teus lábios sabem dizer-me em segredo..
e ainda que não se movam,
eu os vejo como veludos a atiçar meus desejos..

Dorme,
que o teu corpo sabe fluir entre os lençóis
e tu os deixa amarrotados de carinho
e eu, menina nua, coberta de ternuras..

Dorme,
que eu vigio os teus cílios..
e imersa no teu respiro,
guardarei as pétalas e os orvalhos do teu sono..

Dorme,
e não acordes ainda..
que se o sol namorar a persiana,
eu o presentearei com meus olhos.. para que não abras os teus..


foto: d. possamai

A escuridão de ti



Mas é quando fecho os olhos que tu me invades..
É nos intervalos de escuridão que sinto tua mão percorrendo meu seio,
envolvendo meu dorso,
abraçando minha cintura que é tão tua..
E quando abro os olhos, de súbito e magicamente, tu evaporas.. 
E é como se eu quisesse viver de olhos fechados para sentir-te..
porque são esses os instantes em que eu te vivo aqui..
assim meu, 
assim vestido de mim..
E abrir os olhos, meu amor, é como negar-te..
É deixar-te, menino que és, longe do meu colo..
Mas quando amanhece, amor..
Eu olho pra o teu lado da cama,
 estendo minha mão numa tentativa desesperada de te buscar..
mas tu, amor..
tu não estás..
 D.

"Fica comigo este dia e esta noite 
e possuirás a origem de todos os poemas.." Walt Whitman


Poema do amor qualquer




 


Dizem que andei por aí perdida,
procurando marés que me levassem para fora do oceano.
Dizem que sou eu o próprio naufrágio.
Que vivo submersa nas paredes abissais..
Falam também que me aprisiono em cárceres de ilusão,
que leio demais,
que penso demais,
que amo demais..
E eu, ante vós que sois um bando de bisbilhoteiros, vos digo..
Sim, sou abismo e habito profundezas..
Sim, amo o mar e portanto sou naufrágio..
Sim, leio demais, penso demais, mas hoje, amo de menos..
Não há razão para fazê-lo.
Hoje,  não são teus braços barcos
Nem teu corpo é aquário
Hoje os teus olhos são tsunamis verdes
E permaneces tu atracado ao mesmo velho cais..
Enquanto eu, naufrágio, afundo assustada em caravelas ultrapassadas,
Naufrago as Pintas, as Ninas e as Santas Marias
São meus os barcos frágeis..
São minhas.. as outras enseadas..


"És tu e não o sabes, pulsa-te o coração e não o sente... 
Que plenitude de solidão, mar solitário!" 
 Juan Ramón Jiménez, in "Diario de Un Poeta Reciencasado"

 
Claude Vernet - Naufrágio

A saudade escravizada





Ahh, como são cruéis esses senhores da saudade
 - verdadeiros capitães do mato -
Basta que a saudade fuja, 
e lá vêm seus funestos açoites
Basta que a saudade corra e, 
de imediato, a amarram no tronco
Basta que a saudade ria e, 
slapt, lá vai a primeira chibatada.. 
Apanha tanto a saudade, 
pobre escravazinha, que até adoece.. 
Apanha tanto que nem lágrimas lhe caem dos olhos 
Apanha tanto a saudade 
que já nem sonha mais.. 


Poeminha para depois do choro



Pouco me importa se a poesia é corroída,
se as palavras são feitas de ácido,
se as sílabas soam como arpões viscerais transfundidos..
Pouco me importa a profundidade e o alcance dessas epístolas quase bárbaras..
Tudo é compreensível!!!
O entendimento é raso..
Só as vaidades é que são infinitas
E de vaidade em vaidade, aqui estamos completando o saco do poeta.
Tecendo tramas resistentes e brutas.
De vaidade em vaidade, é que vamos escrevendo o que há muito permanece trancafiado nesse labirinto
E o poeta é um ser tão vaidoso que parece esbravejar, aos quatro ventos, as verdades do mundo
Que parece anunciar em grandes megafones o anoitecer da vida.
E eu, eu sei que anoiteço.
Eu sei que as auroras já não brilham como antigamente,
Que os jasmins já florescem fora da primavera.
Eu sei que já não alimento ilusões.
Eu sei que tudo é passado,
Que envelheço triste e só
Que as velhas árvores irão também morrer
E que até a palavra, um dia, a chuva apagará.
Eu escrevo para a chuva e para as lágrimas.
Para que borrem cada linha dessas,
para que as apague,
para que faça desaparecer pelos esgotos imundos minhas palavras..
Nada mais tem importância!!
Nem eu, essa inútil poeta sem alma..

37 a.I
D.
 "E as lágrimas que choro, branca e calma, 
Ninguém as vê brotar dentro da alma! 
Ninguém as vê cair dentro de mim!" 
Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

 Munch - Young woman on the beach

Os gatos de Chagall



Os gatos
Estranhos bichanos inquietos
Matizados em tons de sonho
Pretos
Brancos
Pardos
Azuis..

Os gatos
Confusas criaturas de deus 
E como gritam
Como se movimentam pela casa
Parecem viver atrás do vento
Parecem farejar os rumores do sol

E os teus gatos, então?
Estupefatos
Coloridos
Surpreendentes
Parecem vívidos nas tuas telas
Teus gatos tem asas
Teus gatos navegam caravelas e barcos
Teus gatos comem flores e brincam com as cabras
Riem os teus gatos??
Seriam felizes os teus gatos??
Sim, donos de um estranho contentamento..
E se pintandos em ocre, talvez felizes para sempre..


"Felicidade, agarrei-te   
 Como um cão, pelo cachaço!   
 E, contigo, em mar de azeite   
 Afoguei-me, passo a passo...  "
Pedro Homem de Mello, in "Eu Hei-de Voltar um Dia"

 

Os olhos de ti perdidos




E tem-me surpreendido esses teus versos..
E tu me dizes essas coisas!!
E eu sem saber-te assim tão doce.
E foste tu a enxergar-me assim menina
Uma jovem menina..
tão inquieta,
tão intensa que as horas parecem ter 63 minutos..
E me vês assim,
como outrora fora
Como inda hoje sou
Uma garota a quem apraz os penhascos
Uma menina que busca,
busca tanto e nem sabe exatamente o quê..
Mas foram os teus olhos a me encontrar.
Esses teus olhos.. meninos perdidos..


És de ti encontrar-me!!!


"Es inútil que duerma. 
Corre en el sueño, en el desierto, en un sótano.
El río me arrebata y soy ese río."
Heráclito


Moça com o brinco de pérola - Vermeer

Dos quereres e das lonjuras

 

Ahhh esses quereres..
Parecem feitos de lonjuras,
de distâncias,
de infinitas estradas..
Parecem estar sempre depois de amanhã,
na próxima aurora,
na hora imprecisa..
Parecem eu..
parecem tu..   


"Quiero que un día cualquiera,
 no sé cómo ni sé con qué pretexto, por fin me necesites."
Mario Benedetti

 Cupido e Psiquê - Munch

Poema para os amanhãs




Não fossem esses sonetos, amor
E eu te beijaria a boca até amanhã
Por que amanhã é dia dos teus braços!
E amanhã serei tua.
E tua depois de amanhã!!
Amanhã, 
enquanto despertam a cidade e os colibris.. 
Naquela hora em que o céu matutino se veste de amarelo.
Amanhã, depois que a lua embalar o sono dos meteoros!
Por que amanhã é dia da tua boca!!
E amanhã serei tua.
E amanhã, devagarinho, no teu abraço depositarei meu corpo.
E amanhã te deixarei minha pele nua.
E esse meu rosto todo..
Mas só amanhã.. 
Porque tu és feito de amanhãs!!
E sempre serão tuas as horas vindouras.
E ainda que me confundas com ontens..
Amanhã serei tua!!
E tua todos os amanhãs..


Lautrec - O beijo

Silêncio e uma boca de volúpia



E então penso em ti!!
E é como se todos os meus neurônios pronunciassem o teu nome.
E tu vais me invadindo,
Ocupando minha pele e a minha vida,
Vencendo meu castelo de areia..
Derrubando-me..
Deixando à mercê de tudo que és tu..
E então eu vivo assim, num quase abandono de mim..
um abandono cujo traço tem o teu rosto..
porque é em ti que navego,
é de ti que vivo imersa..
Mas eu sinto essa dor,
Essa dor de ausência tua..
E porque tu não estás o dia perde a graça
E as nuvens já não são nuvens
São meros algodões troposféricos
E quando chove, amor.. um poeta chora..
E assim, imersa de ti, vou perdendo a fala, a voz miúda, o sono.
Eu perco o chão!!
E não há minuto da minha hora em que eu não te viva
Nem segundo do meu dia em que eu não te queira..
Eu tenho uma longa febre
E uma boca ávida
Essa boca minha.. feita de volúpia tua!!!

 "E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças..."

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"


Canova - Ninfa dormiente

Um poema azul de ti




Meu poema de ti seria azul
De um azul tão profundo que faria ofuscar as turquesas de Andros
Tão azul que confundiria o adormecer das estrelas
Um azul aconchego
De ninar..
De te por no colo
De te sufocar com esses meus beijos flores
E velar teu sono.
Até o amanhecer da madrugada, amor
Até amanhã, amor..
Para sempre, amor..
Para sempre..



 

 
 fotos: d.possamai

Dias com cor de poema

E se tu deixares, amor, farei um abrigo nos teus braços
 -  meu esconderijo anti-bombas - 
e ficarei ali, protegida e tua, 
sonhando dias com cor de poema.

 Klimt