quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Poeminha para depois do choro



Pouco me importa se a poesia é corroída,
se as palavras são feitas de ácido,
se as sílabas soam como arpões viscerais transfundidos..
Pouco me importa a profundidade e o alcance dessas epístolas quase bárbaras..
Tudo é compreensível!!!
O entendimento é raso..
Só as vaidades é que são infinitas
E de vaidade em vaidade, aqui estamos completando o saco do poeta.
Tecendo tramas resistentes e brutas.
De vaidade em vaidade, é que vamos escrevendo o que há muito permanece trancafiado nesse labirinto
E o poeta é um ser tão vaidoso que parece esbravejar, aos quatro ventos, as verdades do mundo
Que parece anunciar em grandes megafones o anoitecer da vida.
E eu, eu sei que anoiteço.
Eu sei que as auroras já não brilham como antigamente,
Que os jasmins já florescem fora da primavera.
Eu sei que já não alimento ilusões.
Eu sei que tudo é passado,
Que envelheço triste e só
Que as velhas árvores irão também morrer
E que até a palavra, um dia, a chuva apagará.
Eu escrevo para a chuva e para as lágrimas.
Para que borrem cada linha dessas,
para que as apague,
para que faça desaparecer pelos esgotos imundos minhas palavras..
Nada mais tem importância!!
Nem eu, essa inútil poeta sem alma..

37 a.I
D.
 "E as lágrimas que choro, branca e calma, 
Ninguém as vê brotar dentro da alma! 
Ninguém as vê cair dentro de mim!" 
Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

 Munch - Young woman on the beach

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