sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A saudade que eu sinto de ti e um ontem



A cama era mais uma saudade dessas tantas que eu sentia de ti..
Faziam-me falta os teus pés, as falanges dos teus dedos, o palato da tua língua
Tinha saudade dos teus discos, daqueles pianinhos sutis, dos teus livros de cátedra..
e daquela vozinha que fazias quando me ligavas matutino..
Ia a loucura quando te punhas a dançar valsa no meio da sala e a cantarolar teus tenores preferidos..
Éramos tão felizes no nosso mundo..
Ríamos delicados um do outro
Diálogavamos santos, deuses e o diabo
Bem sei como amanheciam as auroras nos teus braços
E como eram belos os dias de chuva..

Mas agora,
Agora tudo parece ter outra cor
Agora a "nossa" casa é "minha" casa
E o teu corpo já não é mais meu
Agora os teus olhos já não são verdes
E nem vivem vidrados nos meus como esferas coloridas..
Agora, dos meus olhos nascem lágrimas furtivas
e um choro que lembra doutros tempos
Aqueles tempos amarelos idos
E hoje a minha saudade tem destino e hora
E até endereço certo ela tem
Hoje a minha saudade tem casa
E é nesse coração remendado que ela mora..

 "Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste"
Carlos Drummond de Andrade


Chagall


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