segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Poeminha para o Ano Novo






E se te dessem um Ano Novo?
Um ano novinho em folha
Um ano tinindo de novo,
Jovenzinho e curioso, belo e afobado..

E se entrasse na tua porta agora e te carregasse no colo como a um recém-nascido?
Tu te entregarias?
Tu dançarias valsas com o Ano Novo?
Ou ficarias estanque e inerte detrás dos teus óculos de enxergar a vida?

Ahh, meu caro amigo
Doa-te!!
Doa-te ao novo
Abraça o estupefato, o surpreendente, o desconhecido..
Deixa que entre o Ano Novo..
Deixa que o anunciem com fogos e guizos..
Liberta tuas amarras e voa..
À tua espera há um ceuzinho azul.
Tão azul, que se por ventura, caíres..
Deus te dará asas..



Para minha queridíssima Carla Hendges,
para que o Ano Novo tenha o sabor das macadâmias!

foto: d.possamai

Versos de acordar o amor






Ahh, amor!!
Não despertes nunca do teu sono porque o mundo lá fora é o caos
Há tanta violência e desordem,
que eu prefiro ver-te entre os lençóis,
assim, protegido e meu.

Fica aqui pra eu cuidar do teu sono
Fica aqui que eu faço dos meus braços um abrigo dos ventos..
E se chover, amor,
eu desenho um solzinho tímido e pinto um arco-íris para os teus olhos..


"Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti"
Mia Couto 


Minha caixa de Pandora





Abri a minha caixa de pandora
E o que havia lá???
Amor..
Um amor tão imenso que até a caixa tornava-se minúscula
Um amor de se sentir sozinho e amiúde,
Um amor assim gigante,
Assim bonito,
Mas um amor assim quieto, assim calado..

Sei que o mundo muda a toda hora.
Sei da vida.
Sei da morte.
Mas amor, ainda que passem esses breves minutos
Ainda que a aurora desperte verde,
Meu amor - este amor -  estará lá..
Forte e pedra..
Incólume as tempestades e aos ventos..
E sim, amor, eu te amo tanto que já não tenho mais sinônimos..
Por favor, silencia essa minha voz..
E só escuta..
Escuta..
"até onde te espero:
estaremos sempre sozinhos,
estaremos sempre tu e eu
sozinhos na terra
para começar a vida."

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"


Naufrágio e uma ilha perdida



Às vezes,
 faço do verso o mar.
E vivo naufraga,
à deriva,
perdida..
Imensamente perdida de ti..
 E nessas longas horas de naufrágio,
um dia talvez,
encontres eu um cais, um porto qualquer,
uma parte ínfima de terra,
sim, um pedaço de terra..
 uma terra que me aquiete a alma e sussure o silêncio..
Quiçá sejas tu uma ilha??


"Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar."

Mia Couto, in "idades cidades divindades"





Da mágica dos dias nublados



E me ponho eu a divagar no porquê desses céus cor de estanho..
Penso eu, na minha alma de menina,
que os dias cinzas são aqueles em que as nuvens acordam de péssimo humor,
 se vestem de chumbo,
e se põe a caminhar pelas avenidas celestes à procura de namorados..

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Esses meus poemas feitos de ti..



Tu tens o dom de aparecer onde nunca havias estado,
e sobretudo tens o dom de perpertuar-se nas minhas linhas..
Penso que tu moras nos meus poemas.
Tu os habita e fazes deles a tua casa.
Talvez sejas tu a parede da estrofe ou o verso escondido,
Talvez seja tu uma sílaba nessas minhas já tantas entrelinhas..

E eu, eu escrevo sobre hipotenusas e hipocampos,
Sobre as matizes de Renoir, os tons de Van Gogh
Sobre o anoitecer das quimeras,
e sobre a metafísica desses dias já tão estranhos..
E tu, tu surges sempre imprevisto..
Imprevisto e grandioso.

Eu já não carrego outros sinônimos para ti
E perdoa-me, amor, esse vocabulário meu tão pobre
Perdoa-me porque todos os meus versos são de ti
E é porque habitas minha alma que eu insisto em escrever-te..

 

Poema para o teu vazio



Esse não é um poema feito da tua ausência.
É antes um desenho, um rasgo na parede,
um gosto amargo de café..
É antes um grito, uma nota de rodapé,
um testemunho da minha boca vazia.
É uma partitura composta de vácuos,
sem sustenidos ou dós menores..

Esse é um poema feito do invisível,
de ventos que sopram do sul..
Feito de quereres insensatos.
É um poema que grita ao som de megafones:
- eu troco a tua ausência por 5 beijos amputados;
- eu troco a tua ausência por 2 pétalas destroçadas;
- eu troco a tua ausência por um solzinho cálido e por todas, todas as primaveras..



A anatomia das asas




Os urubus seriam gotas de petróleo, que num instante de descuido, 
fogem aos céus à procura de aventuras??? 

 Ou quiçá sejam as abelhas modernos carros voadores..
anti-poluentes e selvagens???  

E o que dizer dos besouros então??  
Pequenas aeronaves gordas e preguiçosas.. 

 Asas, muitas asas e todos os azuis é o sonho de toda a gente 
- nós - os pequenos Ícaros de castigo..

"According to Brueghel 
When Icarus fell
It was spring..."

William Carlos Williams




A retórica dos grafismos - parte III





As reticências são velhas carolas inseparáveis..
Na missa, sentam-se uma ao lado da outra,
 e observam a vida alheia numa continuidade espantosa..

 O hífen é o irmão franzino.. 
Tímido, inveja a espantosa grandeza do travessão..


O apóstrofo são aspas tristes e solitárias..
Tão solitários que vivem à procura de novas amantes..




A retórica dos grafismos - parte II






As aspas são pontos finais tão aventureiros, que vivem nas alturas..
 - naqueles balões coloridos -
lá, nos azuis das nuvens..

O ponto de interrogação é um ponto final que faz terapia..
Lê Nietzsche e vive questionando sua vã existência.
Confuso, submerge em profunda crise..

A exclamação é um ponto final bipolar: 
cabem-lhe, numa exatidão matemática, 
as alegrias e as tristezas mais nefastas..