segunda-feira, 22 de abril de 2013

Canção para as coisas simples






E então faço um expurgo 
Jogo no lixo meu choro incontido
Correm ao mar essas lágrimas - lágrimas minhas que insistem em profanar o rosto..
Ademais a chuva na vidraça
Hoje parece chover em mim.. 
Hoje são de névoa meus pensamentos.

E eu penso tão longe que pareço querer a antiguidade.. 
Simulo desejar cariátides e as ilhas do Trácio.
Finjo falar uma estranha língua - um confuso sigma ou pi..
Eu penso tão longe que a minha alma tem dificuldade de permanecer neste mundo.. 
É tudo tão estranho e violento 
Que a minha não existência pretende contornar revelos desconhecidos..
Viver é alguma coisa muito esquisita..
Fazem-me falta os oxigênios paralelos, 
os deuses de barro e quaisquer outras  invenções desumanas.. 

Leio essas linhas e nada parece ter algum sentido.. 
Há uma placa gigante em vermelho: NÃO HÁ!!!! 
Acostuma-te a isso ou então morres.. 

E penso então nas coisas simples,
Na singeleza, 
na sutil delicadeza escondida atrás do relógio.. 
É preciso outros óculos, eu sei..
Mas consigo descobrir na página dalgum livro aquela florzinha azul.. 
Aquele veludo escondido e perfumado.. 
O mundo é um caos, mas há, de tempos em tempos, algum milagre
É para esses tempos, humanidade, em que é preciso manter-se acordado.. 




Iberê Camargo

África





E se te vejo pela primeira vez
E te gosto 
É porque a minha alma já havia aqui estado..

E se me debruço sobre os teus confins
e me encanto com o teu povo e as tuas crianças
é porque parte de mim já vivia  misturada ao teu mapa.. 

Não fora a lei racial 
Nem a segregação 
Não fora essa gente estúpida e preconceituosa a tirar-te o brilho..
Não fora sequer teus mortos 
Tua cor, África é negra!!!!!
E é tão bela que nela estão todos os teus outros povos e flores.. 

Se habitam as tuas plagas os elefantes e leões,
é porque vivem nas tuas cidades todas as tuas outras pérolas.. 
E tu tens um oceano de lindas pérolas..
Tua floresta é feita de âmbar
Como são feitos de ouro os teus dentes e jóias.. 
E se deus te deu oceanos a tua volta
é porque um mar apenas não fazia frente a tua valentia..
Que surjam outros Nelsons, outros Tambos, outros Sisulus.. 
Que façam brilhar sob o céu do planeta as estrelas do teu povo.. 

Cape Town, 15/abril
À Mollia

Foto: Daniela Possamai

Promessa..






E a cada manhã escreverei beijos meus na tua pele.. 
Para se saias porta afora impregnado de mim.. 
Para que nunca te percebas só.. 
Para que me sintas ao teu redor como um animal.. 
Olhando-te simplesmente!!


E..??????





E os livros e os por-de-sóis e os atalhos e os atóis
E as armadilhas e as casamatas.. 
E a lucidez e a embriaguez e a viuvez.. 
E as chuvas, os asteróides, os comentários desagradáveis 
e todos aqueles "senãos" engasgados pelas veias.. 
Viver é uma bobagem!!!
uma bobagem escalavrada num muro amarelo.. 
E haverá amanhã ou talvez não
E haverá renúncias e escolhas ou talvez não 
E desejos e quereres?? 
E apócrifos e mastodontes sonoros??
E nuvens geomórficas e chuvas orográficas?
E ontens e nuncas e jamais.. 
Haverá amanhã??? 
Talvez não!!!! 

16.fev





Maldição




Disseram-me que eu escrevesse mais
Pediram-me versos e os poemas todos
Lhes disse: não sou poeta, não moram em mim versos nem sonetos.. 
Eu sou um deserto de flores de plástico 
Um desenho feito de carvão e algumas vísceras.. 
Não nascem de mim nem versos nem bebês prematuros.. 
Eu sou um ventre seco.. 
E se escrevo alguma coisa, nomine-a de jeito que quiserdes.. 
Poemas sejam.. 
Malditos poemas feitos de sal..  



Poema para o meu desejo




Quero beber da tua saliva,
quero tua mão soletrando meu corpo
(esse corpo já longamente teu)
Quero teu olho grudado em mim
E a tua boca..
Ahhh a tua boca..
Que eu confundo com tamaras e volúpias..

Do teu corpo, amor eu quero a geometria..
Quero envolver-me
Quero agarrar-me
Misturar-me a ti como carne crua..

Dá-me os teus pés e as tuas mãos
Deixa-me ser a água e beba-me,
beba-me em longos goles,
Deixa-me ser tua roupa e vista-me,
Vista-me em tons de nudez.
E por fim, deixa-me ser o ar,
abre a tua janela e respira-me!!!!


Poema sem nome nr. 13




Ahh deixa-me..
Deixa-me ir..
Deixa que eu arrebente as portas,
deixa que eu pule os muros,
deixa que eu atravesse as esquinas..
Deixa sair feito louca pela cidade adormecida..

Canso-me, às vezes, desse mundo feio..
Canso-me do que sou, desses versos, desses lamentos ao vento..
Canso-me de tudo isso e só te peço que me beijes..
Ahh cala-me,
cala-me a boca..
e aninha em mim qualquer bocado teu..

Poema feito de ontens




Era tarde
E o amor insistia em revelar-se
Alí, naquela tarde
Naquele ínterim de ocaso..
Eram tarde também em nossas horas
Era tarde em nossa vida..

Mas tu chegaste de ímpeto - quase uma procela desmedida -
E foste perfilando tuas mãos e as tuas coisas..
E foste colocando teus portões e a tua alma..
Foste preenchendo a mim e a todos os meus remendos..

Mas tudo era tão tarde, meu amor..
Que nem eu nem tu éramos pássaros
Tudo era tão tarde, meu amor
Que andávamos nós libertos em outras gaiolas..

Junto de nós, a culpa - triste, amarela e cansada -
E aí vieram os temores, as dúvidas, o medo nosso de cada dia..
Era tão tarde, que até a inconsequência tinha desistido de nós
E por que não nos demos as mãos?
E por que não fugimos da gaiola?

Mas se Deus me desse mais um ontem,
Um ontem fajutinho que fosse
Ahh eu teria feito tudo diferente
Eu teria destruído o muro
E teria roubado teu corpo
Ahh eu teria anelado-te, para sempre, a minha cintura de pétala
E então, amor
Viveríamos nós como duas crianças que somos..
Aquelas, cuja infância, ainda habita nossa alma..


"Dia feito de tempo e de vazio: 
desabitas-me, apagas 
meu nome e o que sou, 
enchendo-me de ti: luz, nada. 
E flutuo, já sem mim, pura existência." 

Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra" 



Monólogo para o meu silêncio




Perdoa o meu amor!!
Esse meu amor que é silêncio.
Esse meu amor que afaga tuas vaidades..

Perdoa esse meu querer assim tão estranho.
Assim tão confuso.
Perdoa a mim por amar-te tanto e amar-te ainda!

Eu sei que os dias se despedaçam..
Que a vida corre veloz..
Que as horas morrem..
Eu sei do abandono, do desalento, do desamparo..

Mas perdoa-me amor
Eu era um coração infantil e não soube te compreender.
Eu era um coração assustado e não soube te esperar.

Perdoa-me!!
Perdoa-me por amar-te ainda depois de tantos afazeres..
Perdoa-me por amar-te assim..
Assim,
Assim silenciosa,
Assim tua..



Eu te entrego o meu amor em castiçais de tulipa.. Cuida!!!