segunda-feira, 22 de abril de 2013

Poema feito de ontens




Era tarde
E o amor insistia em revelar-se
Alí, naquela tarde
Naquele ínterim de ocaso..
Eram tarde também em nossas horas
Era tarde em nossa vida..

Mas tu chegaste de ímpeto - quase uma procela desmedida -
E foste perfilando tuas mãos e as tuas coisas..
E foste colocando teus portões e a tua alma..
Foste preenchendo a mim e a todos os meus remendos..

Mas tudo era tão tarde, meu amor..
Que nem eu nem tu éramos pássaros
Tudo era tão tarde, meu amor
Que andávamos nós libertos em outras gaiolas..

Junto de nós, a culpa - triste, amarela e cansada -
E aí vieram os temores, as dúvidas, o medo nosso de cada dia..
Era tão tarde, que até a inconsequência tinha desistido de nós
E por que não nos demos as mãos?
E por que não fugimos da gaiola?

Mas se Deus me desse mais um ontem,
Um ontem fajutinho que fosse
Ahh eu teria feito tudo diferente
Eu teria destruído o muro
E teria roubado teu corpo
Ahh eu teria anelado-te, para sempre, a minha cintura de pétala
E então, amor
Viveríamos nós como duas crianças que somos..
Aquelas, cuja infância, ainda habita nossa alma..


"Dia feito de tempo e de vazio: 
desabitas-me, apagas 
meu nome e o que sou, 
enchendo-me de ti: luz, nada. 
E flutuo, já sem mim, pura existência." 

Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra" 



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