quarta-feira, 7 de maio de 2014

Poema dos olhos cheios d'água





Tu tinhas os olhos cheios d'água
E eu,
Eu te olhava dilacerada entre os panos da minha nudez -
- tragédias
- ternuras
- descompassos..

Não sabia ir sem ti!
NÃO QUERIA PARTIR..
Eram os teus braços que eu procurava atônita
Era a tua voz
Era o teu pescoço
teu corpo, tua boca, tu..

Nada disso tem sentido se tu não estás
Nada vale a pena sem a tua mão, meu amor..
As canções são todas tristes
E os cachorros tão solitários pelas ruas
Se tu não estás os cometas despencam pelas galáxias..
E as abelhas fogem da primavera
As flores, sem polém, não edificam
Nem florescem os prédios nas grandes cidades..
Se tu não estás
As andorinhas revolvem os ninhos nos abismos
Se tu não estás perpetuam-se sombrios todos os invernos
E as marés recuam tímidas sobre as pedras..
E se tu não estás
Morrem os meus olhos como soldados feridos..
E desfalecem sem vida os abraços
Se tu não estás, meu amor
Morrem as tardes
Morrem as flores
Morre a vida..





A Fábula do Grande Amor





E se tu tropeçasses, distraído, numa pedra e desses de cara com o grande amor?
E se naquele instante, tudo, absolutamente tudo a tua volta parasse..
Tu te entregarias ao novo amor?
Tu darias a mão ao grande amor? Ou ficarias, aí, parado, a ver a vida levando o grande amor até a esquina do desencontro??

Mexa-se, meu amigo..
Escuta bem essa fábula..
É preciso ousadia para abraçar o grande amor.
É preciso ter ombros fortes e coração destemido para que o grande amor não fuja.
É preciso ter olhos de futuro e sorrir como a primavera e os flamboyants.
Porque eu te afirmo, meu amigo..
Se o deixares fugir, o grande amor..
Põe na mala um bocado de coragem, sela o teu Rocinante e foge junto..


Pequenos versos de uma cegueira irrestrita




Se faço versos é porque algo aqui dentro dói ou finge doer.
E esses versos são como fotografias do instante.
Queria eu a paz, aquela paz de ceifador ou aquela paz do incompreensível
queria eu andar no meu abismo sem perceber as grandes paredes a engolir-me
sem amedrontar-me com a imensidão dos muros.

E sou eu os meus próprios abismos
- os penhascos sobre o Amu-Daria -
Sou eu esse escombro amarelo
a esgueirar-me sobre a estrada..
E se, às vezes, paraliso-me..
é porque já não me atrevo aos caminhos
é porque põe-me medo as lonjuras.
Mas eu mesma sou feita de distâncias
e já não sei de caminhos
nem de pontes
nem de chegadas.
Não sei da lua, do sol ou das misteriosas constelações do universo
Não me sei..
Sou eu só essa frágil poeta que pinta versos nas paredes..
que desenha palavras como uma menina..
Eu, essa menina, cujos olhos inventam fantasias e castelos
Eu, essa menina, com olhos de cegueira..


Pretérito




Chega o dia em que tudo vira pó e passado
O dia em que até as antigas lápides morrem engolidas pelo tempo
O tempo - aquele velho caduco!!!

Chega o dia em que já me esqueço de ti e do teu rosto
Em que já não me importam teu nome e os teus versos..
O dia em que não fazem falta tuas mãos e encantos
O dia em que morres afogado no aquário do passado como um submarino náufrago..


Pequeno poema de adeus





Não te darei mais minhas lágrimas porque já não as mereces
Não te darei meus pensamentos rasgados
Nem minha alma abandonada
Não te darei mais nada
Nada mais..
Nada mais do que é meu será teu..
Nem eu mesma!!!

Quando parti só levei o que era meu.. 
teu cheiro impregnado na pele..
D.



Continuidade







E de imediato vens tu e as tuas mãos
E também de imediato me tens facilmente..
Tão facilmente que penso, às vezes, já ser tua..
Sou eu uma extensão de ti..
Uma parte que implora tua boca e o castanho dos teus olhos..

Deixa-me perder no aquário
Deixa-me habitar tua casa-braço
Que descansem longamente os teus olhos no meu rosto..
E se tiveres que partir, amor,
uma parte minha abre a porta e vai contigo..






Pequeno Poema Dolorido





Doeu sabia?
Doeu cada minuto,
cada fração de segundo..
Doeu como uma bala alojada no peito,
Doeu como doem as facadas e os assassinatos,
como as quedas e os tiros de canhão..
Doeu porque era amor
porque era meu
porque era belo
porque eras tu..
Doeu o passado feito de pó e poréns..

"Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes."

Ricardo Reis, in "Odes"

 

Saudade - enésima parte





E andava eu naquela velha e lenta locomotiva
- a saudade -
essa saudade que te busca..
A mesma saudade que imagina teu rosto naquela montanhazinha verde..
Sim, essa saudade escondida nesses poemas perdidos nas gavetas de ontem..
E como são presentes os ontens..
Parecem horas atrás, tão cheias de vida ainda, tão prementes,
tão minhas que as confundo com o hoje..

Mas hoje tu não estás,
já não está o teu chapéu e nem sente o meu rosto o carinho da tua mão..
Hoje te foste e fiquei eu aqui, inerte, nos lençóis desarrumados da madrugada..


"Pudesse eu ser tu. E em tua saudade ser a 
minha própria espera."
Mia Couto