quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Poesia para o bolso



Carrega sempre um poema contigo.
Carrega contigo as estrofes inacabadas,
Os sonetos atropelados,
As rimas doídas..

Escreve no muro da memória a poesia.
E pouco importa se não desenhares novos pergaminhos..
Importante é que vivas a poesia na velha alma transfigurada..
Importante é que vistas poesia como se fosse ela a tua segunda pele..

E que nunca fujam de ti os poemas..
Que te façam, magicamente, acalentar os dias e os entardeceres..
Sim, vista-te de poesia..
Põe no bolso esses versos livres e saí por aí a cantarolar a vida..
Põe a poesia no colo..
Cuida, aninha, abraça..
Apaixona-te!!!
Faz da poesia o teu filho recém nascido..



Não, meu caro amigo, lugar de poesia não é na calçada, 
lugar de poesia é na retina.
D.
 






Pequena fábula sobre a gênese e um epílogo





E no sétimo dia, cansado da sua própria solidão, o homem inventa deus..
Um deus inimputável..
Um deus canalha e enfadonho..
Criado à sua mais vil semelhança..

Seriam de deus os desígnios do homem
E também do homem toda a sua glória..

Mas deus, invejoso, mata o homem..
E assume o controle da nau..
Facínora, catequiza os que tinham fome..
Dando-lhes do céu maná e incutiu-lhes, pobres boçais, o medo..

Escreveu-lhes uma tábua com leis ultrapassadas e obrigou-lhes aos dogmas..
Exigiu que a prole edificasse as mais incríveis fortificações e que orasse cegamente pelo seu nome..
Deus lhes providenciava o pão e a cegueira..
A fé e a ignorância..

Eram de deus agora os mercadores e os ladrões,
Como também eram de deus os pífios e as prostitutas..
Da luz fez-se as trevas
E a liberdade transmutara-se em falsa moral..
Eis que assim fora inverso o papel de deus e do homem..
O que era homem virou deus..
E o que era deus virou macaco..


Epílogo: mas até o macaco mudara..
Criptografado, virou um caracter do google, o novo deus..
Fim!!!




Poema do não esquecimento



E ponho teu rosto num lapso do tempo
E fico a te observar como se morasses tu congelado na minha pupila..
Não me esqueço de ti..

Não me esqueço de ti
Porque reside um mim esse teu olhar e uma certa angústia..
Habita em mim uma quase ânsia..
Um certo desassossego..
Uma tal inquietude..

Não me esqueço de ti
Porque meu corpo guarda encerrado teu cheiro
Não me esqueço de ti
Porque estou acostumada a curvatura do teu corpo e conheço a história do teu rosto..
Nao me esqueço de ti
Porque tu és toda uma fábula que escrevi em mim..
Tu és toda uma rima que desenhei n'alma..

E se te vais, meu amor, vão contigo meus dedos e minhas vísceras..
Vai contigo a alma e a pele minha adormecida do teu cheiro..
Por isso te peço.. Fica!!
Põe meu corpo sobre o teu, beija-me ternamente e me faz dormir..




Versos feitos de insônia - parte 2




Enquanto a humanidade dorme,
eu escrevo poemas..
Triste sina a minha..
Escrever o que seria indescrítivel
Pintar em tons desbotados esses vocábulos mágicos.

É do poeta, pobre criatura, açucarar a vida com palavras inúteis,
Mas também é do poeta sentir a dor dos transeuntes, a amarga dor que abarca a alma e fere a vida..

É do poeta, velho caduco, trazer intensidade ao que já não é leve..
Mas é ainda do poeta tornar sutil o peso das palavras..

Teu ofício, poeta, certamente é a pena - essa espécie de escravidão sem escolha..
E tu encantas os olhos do leitor com esse furor de paixão alheia..
E embriagas as outras almas com a dor do teu próprio coração ferido..

Versos feitos de insônia - parte 1




Enquanto a humanidade dorme,
Eu escrevo poemas..
Incongruência atônita diria..
É trabalho do poeta varrer o lixo da madrugada..
É ofício do artista juntar palavras que vem e vão como transeuntes embriagados..

É na madrugada que o poeta pinta..
É na crueza da noite que desenha seus hieróglifos vindouros.
Sim, é do poeta escrever-se..
Escrever-se e rasgar-se.

E rasga-se tanto como se fosse a própria vida uma página nua..
Escreve-se tanto que cada linha é  uma cicatriz, uma víscera, um eu perdido..
Escreve-se tanto que não há espaço para paredes vazias nem muros brancos,
Na casa do poeta tudo é folha nova..
Na alma do poeta, essa pobre criatura, transfigura-se a vida..
A própria vida.. E também a morte!!



Pequenos versos da grande insônia




Serão poemas os frutos da insônia?
Pequenos Morpheus em formas de palavras?
Nascerão da madrugada? Da relva úmida?
Da dor amanhecida e sepultada? 
Caberá num soneto a selvageria da insônia?
Ocupará um cadáver? 
Um transeunte?
Um facínora acidentado?
Deixará rabiscos de sangue? 
Ou morrerá atormentada, pobre louca, a insônia amarga?

Fenecerá aos poucos - dirá o poeta..
Morrerá à mingua a insônia..
De cansaço, de frio, de falta de coberta..



Abarca-me uma insônia tristonha e fria.. 
Um anfiteatro de pensamentos inacabados e coisas vazias..
D.



Reclame




E doem as velhas lágrimas caídas e aqueles abraços roubados,
Dói a alma amarrotada nos lençóis de uma madrugada confusa e extenuante,
Doem os arrabaldes, os escaninhos e as mariposas..
Doem-me os ossos e esse coração vazio de ti e de ventos..
Doem-me teu nome e o teu rosto.
Doe-me a carne navalhada e essa ausência - essa ausência atroz -
um relógio cuco que lembra a toda hora que não estás..
Doe-me a boca ansiosa, a pele sedenta, os minutos pálidos, as horas trêmula, a vida..



Poema sem nome, mas teu..




Porque faziam-me falta tuas palavras..
Mais ainda..
Faziam-me falta tuas mãos,
teu rosto pálido,
uma tal silhueta descomplicada..
Fazia falta a leveza do teu carinho,
o sabor dissonante do teu beijo
a suavidade do teu olho..

Eras tu, eras tu a minha parte perdida..
Eras tu inteiro a completude do meu vazio..
Mas agora te foste e fiquei eu a descrever tua falta nesse manuscrito branco,
Te foste e fiquei eu a desenhar a saudade nessa cama vazia,
a enumerar tua ausência,
a cicatrizar a ferida aberta na própria carne dolorida..



Gabriel





Eu nem sequer sabia que chegarias um dia.. 
Já nem contava com tamanha novidade a minha porta.. 
Não imaginava um nome para ti 
E jamais pudera supor teu rostinho.. 

Tu foste  uma grata surpresa.. 
Uma surpresa tão singela que invadiste minha vida com pés de silêncio
E só agora sinto-te brincando leve dentro de mim como brincam as crianças e suas bolitas.. 
Só agora vejo-te crescendo e mudando minha cintura, outrora orgulho da minha feminilidade.. 
Agora sinto-te meu e começo a falar-te, 
a ler-te as incríveis aventuras de Dom Quixote pelos campos da velha Espanha.. 
Só agora desejo que sintas minha lástima ao imaginar as pequenas ovelhas no frio e as terríveis atrocidades da vida.. 


Mas há também beleza nesta vida, pequeno Gabriel..
Há tu e esse teu nariz de encantos e as tuas pernocas agitadas.. 
Há esse universo que se adensa ao redor do meu umbigo e há tantas flores, meu filho.. 

Sejas bem vindo, pequeno Gabriel
Que te sejam belos todos os verões e que as amendoeiras floresçam diante de ti como um espetáculo mágico.. 

Que tu conheças as estepes da Mongólia e sintas o frio que sopra no Cabo Horn..
Que estejas um dia no Amu-Daria e te encantes com a beleza da Vitória da Samotrácia.. 
Que colhas as tulipas da Turquia e se aventure sob os céus da Birmânia.. 
Tu tens um mundo todo a tua frente..
Sejas tu um Quixote, inventa o teu próprio cavalo e voa nestes céus incrivelmente azuis..


Para Gabriel, o príncipe do reino das girafas encantadas.