segunda-feira, 23 de março de 2015

Domitila




Não fujas, Domitila
Que o amor é tão próximo..
Não partas pelas rodovias!!
Deixa que te alcance o amor!!

Domitila senta e se põe a chorar.
Domitila não quer a espera, a angústia, o desamparo..
Domitila deixa tudo para trás.
E olha,  manufaturados de tristezas,  seus horizontes..
A vida é desencanto - confabula ela entre o pranto e a estrada..

E eu aqui, que te observo, Domitila
Te digo:  espera, porque o tempo é bom senhor..
Aquieta a alma, sossega essa ânsia desavisada..
Para!!!
Para porque hão de ser avistados novos amanheceres..
Para porque, às vezes, é preciso morrer para ressurgir..
Porque o amor nasce nas entrelinhas, nas livrarias, entre os cafés fumegantes..
O amor, enfeite de flores e guizos..
O amor, bendito recheio dos corações solitários..
Não chores, Domitila
Porque se chorares, choro eu..


Essas linhas surgiram ao repousar meus olhos nas cartas trocadas entre Dom Pedro e sua amante, Domitila - a marquesa de Santos..
 
 
 

Poema de areia





Minha alma era alguma coisa deserta..
Cactos, areais, dunas
Não havia fim
Nem início
Nem caminhos
De tudo, o único que havia eras tu..
E também eras tu o norte..
Só tu, nessa imensidão infinita, é que soubeste encontrar naquilo que era areia, um pedaço dessa minha alma em flor
Só tu é que fizeste florir-me..
Só tu..
Mas eu, numa loucura infame, parti..
Deixando-te para trás..
E agora, diz-me..
Diz-me porque eu não sei viver
e é em ti que mora o alento para esse meu coração de estanho..

 10.06.12

Poema para os adeuses




Foram tantas as lágrimas
E tantos os ecos com teu nome
Que ficara eu, nua, gritando sozinha na sala quando saíste porta afora como um louco..
Andei pela casa à procura de algo teu e tudo, absolutamente tudo era tu..
Nas paredes, aquelas fotos que fizemos quando fomos à Helsinki.
Na estante da biblioteca, teus livros e mapas (tu sempre foste louco pela geografia)
Na vitrola, aquele Piazzolla que deixaras tocando..

Naquele instante, já não sabia se era eu ou se andava confundida com um fantasma que ronda a casa..
Pus teu chapéu..
Deitei do teu lado da cama..
Senti teu cheiro impregnado naqueles lençóis amarrotados..
Mas tu já não estavas!!
Tu resolveras abandonar-me como abandonam-se os cachorros e as casas velhas..
Tu resolveras partir e saíste porta afora sem olhar para trás..
Tiveras tu, pela última vez, visto minha tristeza naquela tarde..
Como também, pela última vez, minhas mãos trêmulas e meu olhar de quem perdera o chão..
Sim, foram contigo também o chão e todos os alicerces..

Eu bem sei que já fôramos a mesma única alma,
que fizeste casa e abrigo dentro de mim,
que nossas mãos eram as catedrais de Rodin..
Eu bem sei que vivíamos nós no mesmo aquário verde..
E porque, meu deus?
Porque tudo mudara?
Porque te foste, meu amor?

Malditos sejam todos os adeuses..
Malditas sejam as procelas e seus prenúncios..
Malditos sejam os amantes e os amados..
Quando te foste nada restara..
Fazia frio e o vento adentrava a janela da sala..
Quando partiste murcharam os cravos e cessaram os latidos..
Tudo partira contigo.. Tudo
Inclusive eu e a minha alma abandonada..
Morri..
Morri contigo naquela tarde..


"As penas do amor não queira levar...
Marujos, erguei o cofre pesado, Lançai-o ao mar. "
(Canção da Partida - Camilo Pessanha - in Clepsidra)