quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Pequena e confusa genealogia do poema

E o que é escrever poemas senão poemar 
Poematizas, poeta poemas de mar 
Poemar é mar 
Poema é ema 

O ofício do poeta irremediavelmente  é a pena.. 
Pena de ema.. 
Na cara do leitor, claro está, que poema é mar e ema 
Uma ave de mar 
Um voo de ema 
Um naufrágio de poema. 



segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Suicídios



E aquela carta nunca chegara ao destinatário final 
Não repousariam sobre ela os olhos da amada 
As palavras de amor perderam-se pelo caminho como prantos 
E a amada, pobre moça, num engano pueril, experimentara o ocre sabor do abandono.. 

Já não esperaria ela pela mão do amado 
Já não teceria outras missivas, nem outros bordados, nem outros júbilos
O amor morrera
O cão latira 
A vida enegrecera 

Na sala, um pedaço desbotado de corda.. 
Suicidara-se a pobre moça convencida do desamor.. 
"Aqui jaz o amor desamparado" dizia sua lápide 
"Que não sejam plantados nem lisiantos nem astromélias"
"Aqui jaz o desamor, o desencontro, o destino triste e choroso"
Pobre moça suicida.. 
Morreu de um amor desvalido.. 
Menosprezada causa mortis,
o amor vil e enganoso, 
o amor covarde e inexato.. 
O amor, esse mesmo amor, da falta de amor, morrera.. 








domingo, 4 de outubro de 2015

O nome do poema


Não tinha nome o poema
nascera só,
na lata de lixo
abnegado
com frio e fome e tédio..
Não tinha pai nem mãe
não sentira o calor do útero
nem vivera as festas de Natal..
era só um poema inominado
triste,
vazio
perdido no meio da rua..
um poema de coração duro
sem heróis
agnóstico
sem teto
sem chão
era um poema sem palavras
nem signos
sem eufemismos 
nem aliterações
Caminhava para a morte o pobre 
Certa madrugada morrera
na lata de lixo
abnegado..
rasgado..
com frio
..
e fome.


foto: d.possamai

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Cansaço e outros acidentes



E haveria de dizer também que, às vezes, canso-me de existir.. 
Haveria, quiçá, outra vida acidentada? 
É como se quisesse eu respirar com outros pulmões,
Ou ter lá eu asas de libélula só para experimentar as terríveis quedas do infinito
Quiçá houvesse outro planeta e outros amores e outras vidas tantas.. 
Não para serem vividas,
mas para serem consumidas,
sorvidas como um trago,
degustadas,
milagrosamente harmonizadas como carne, vinho e éter..






Afônicos e inauditos

E porque estás calado eu aprendo a cantar-te..
E então te digo nesses manuscritos meus..
Esses pergaminhos de ternura que te soletram feito pipas pelo vento..

Acolhe esse poema curtinho..
Abriga com teus braços esses versos,
Que sejam, os teus braços, aconchego e sala
Não permitas que sintam frio os versos
Não os deixe no olvido..
Aninha-os!
Guarda-os!
Afaga-os!
São teus..
Tão teus que partem de mim e, selvagens, voam
Voam enlouquecidos para a casa tua
E então, amado, eu te peço..
Ponha-os no colo
e conta-lhes uma história..
Ficarão satisfeitos os versos
Tão satisfeitos que para dentro de mim voltarão - os versos - esses colibris inquietos..

17.julho




Sem nome e sem música - nr. 1780






Três cartas, de inteiro teor, à Milena Jesenskà


Carta número 1 - Eu te amo!

Carta número 2 - Eu te amo!!

Carta número 3 - Eu te amo!!!


Desde que te amo, amo o mundo inteiro..

(Kafka)