quinta-feira, 21 de julho de 2016

Poeminha do amor inho



Tudo naquele amor era "ão",
Um amorzão,
Um limão,
Um furacão,
Todas as suas ações eram "ões"..
Dois beijões,
Três abrações,
Quatro apertões..
Tudo nos amantes era "inho"..
Um baixinho,
Um cheirinho,
Uma piscadinha.
Vieram os filhos..
Dois "ãos" e três "inhas"
Afetão,
Carinhão,
Ternurinha,
Amadinha,
Docurinha.
Amorzão ou amorzinho, não  importa..
Importante é que nos atreva a sonhar!!
Importante é que entre devasso no coração dos mais duros e provoque um incêndio de proporções não mensuráveis..

(Dos 23 poemas de amor)



segunda-feira, 18 de julho de 2016

Poeminha para viver o grande amor




Fechai os olhos e os ouvidos 
Senti os frêmitos ininterruptos do amor 
Como se fossem eles afagos do vento 
Para viver um grande amor há de se ter braços longos para os abraços 
Há de se viver com uma dócil bravura 
E manter a cabeça sempre nas nuvens - a espetacular morada dos amantes 
Para se viver um grande amor há de ser ter doçura e beijos amarelos
É preciso muitas flores, algum chocolate e vários afagos 
Para se viver um grande amor há de ser amante e sobretudo há de se ter uma capacidade infinita de amar, amar além, amar aqui e acolá e não amar ninguém..  



sábado, 16 de julho de 2016

Poeminha do amor maduro



E mesmo depois de arquivada a ciência e boa parte da vida, apaixonaram-se os dois velhotes de fraldas.. 
Era uma espécie de solidão amenizada.. 
Uma companhia para aqueles momentos em que a vida já não teria mais tantos ganhos.. 
Aqueles breves instantes onde sabemos nós que, em seguida e, sem nenhuma cerimônia, escoará a existência pelo vento como folha tênue.. 

E ainda que imersos nas fraldas como duas velhas crianças, 
Ainda que num lar que se confunde, às vezes, com um depósito de seres flácidos, Apaixonaram-se.. 
Belo vê-los, os dois, de mãos dadas, 
Belo vê-los juntos conversando sobre o que ainda resta desse caos.. 
E a amada, na sua sabedoria, dizia que fora a voz dele a razão do enlace.. 
E nos momentos em que a saúde pairava rarefeita, confidenciava ela, que carregava  amor aos balaios.. 

O amor assim, sem nenhum atributo físico, sem exigência de legado, sem qualquer horizonte futuro, há, necessariamente, de ser um grande amor.. 
O amor assim, de pura afeição e ternura parece sim, o único e verdadeiro amor, leve e desinteressado.. 
O amor assim.. 
Amor, pura e simplesmente, no final da vida, é como a mágica esperança de que ainda existem corações abnegados.. 
Amantes que se encontram no final da vida, depois de vividos e esgotados todos os recursos, são como velas que vão se apagando.. 
Antigas velas que, mesmo por breves instantes, ainda conservam  seu lume.. 



Ps: Morrer quando se tem um grande amor e, nessa altura da vida, é quase um engano de deus, mas deus, se é que existe, parece estar, nos últimos tempos, se equivocando em demasia.. 


(Dos 23 poemas de amor..  E.E) 




sexta-feira, 15 de julho de 2016

Poeminha do conto de fadas às avessas

 


Depois de tantos anos de vida comum, o marido cansara-se da esposa.. 
Não era aquela a princesa que povoava seus sonhos.. 
Já não sentia frio na barriga, nem inebriava mais seus olhos quando a via.. 
O amor parecia perder-se,
A admiração parecia esvaziar-se,
A princesa, tão outrora princesa, tomara-se uma velha e insensível sapa.. 
E o relacionamento, antes um mar de rosas perfumadas, tornara-se indiscutivelmente um item perecível.. 


Ahhhh os homens, esses homens..  
Parecem querer que a amada os adivinhe.. 
Parecem sonhar insistentemente com princesas e rainhas encantadas.. 
Mal sabem eles, nas verdades cruas da vida, que príncipes jamais serão.. 
Mal sabem eles que, para manter sua sapa princesa, é necessário trocar seus velhos óculos enferrujados e enxergar que sua sapa nem é assim uma terrível e verde sapa.. 
Mister mesmo, repito, é mudar seus óculos, senhores.. 
Para um relacionamento feliz, é obrigatório uma pequena dose de surdez, a troca imediata das lentes e uma vontade irremediável de manter-se o príncipe de sua sapa.. 
É preciso arrancar prazer nas noites de chuva, 
é preciso urgentemente ouvir o coaxar único no meio de um lamaçal de sapos.. Apressa-te, meu caro!!! 
No lamaçal dos sapos, existem outros inúmeros e atraentes sapos também.. 


Ps: a gente só ama o que a gente não conhece.. 

(Dos 23 poemas de amor) 



quinta-feira, 14 de julho de 2016

Poeminha do amor covarde



Fossem ventosas ou tempestuosas, todas às terças-feiras, às 14 horas, partiria o amor ao encontro da amada..
Nos últimos 3 anos era aquele o enredo do dia.. 
Fazia a barba, 
Desinforma-se lendo o jornal, 
Fumegava um café escuro e partiria para o mesmo velho hotel que ficava na discreta rua dos conventos, número 115.. 

O quarto era de poucos elementos, um dossel ao estilo vitoriano, uma poltrona de um carmim encardido e uma velha cômoda para os poemas.. 
Com uma nudez desconcertante, o esperava a amada.. 
Não queria ela seu corpo, tinha fome de poemas.. 
Era a poesia do amante que a saciava da completa inanição.. 
E o amante punha seu óculos e declamava horas a fio o produto de árdua escrita - os  inumeráveis e exaustivos versos de amor.. 

Naquela tarde porém não quisera ela que fossem lidos os poemas, 
Parecia triste, chorosa.. 
Parecia querer sumir ou morrer ou andar por aí feito uma louca nua.. 
Pediu-lhe só um abraço e um último verso de amor. 
E assim o fez, a colocou nos braços  e escreveu o verso final..
"Sempre meu será seu amor. Amo-te assim. Assim minha. Assim morta.." Escrevera ele em tinta carmim.. 
Matara o amor.. 
Matara bruta e covardemente como matam todos os amantes atrozes, 
Como matam, na crueza da vida, os mal-amados e os que não sabem amar.. 

(Dos 23 poemas de amor) 



quarta-feira, 13 de julho de 2016

Poeminha do amor incerto






E quando chegara a amada, assustara-se tanto o amor, que levou alguns instantes para recobrar o fôlego.
Parecia não acreditar no que via.. 
Era como se os olhos, dois peregrinos, tivessem simplesmente estacionado na amada.. 
E como se a vida, que antes girava, tivesse, por um motivo qualquer, brecado.. 
Aquele seria o famigerado amor amplamente anunciado?
Aquele seria o amor tão ansiosamente esperado?
Aquele seria o amor nos sonhos sonhado?!? 
Passado alguns breves instantes e, do mesmo jeito e pela mesma porta que entrara, saira o amor pelos ventos.. 
Da amada, só restará uma brisa tênue.. 
E o amado ficou ali, estático, sem saber se aquilo era o amor ou algum mágico e doce engano.. 

(Dos 23 poemas de amor) 



terça-feira, 12 de julho de 2016

Poeminha do amor irremediável



Amavam-se tanto e grandemente, que o universo parecia pequeno aos amantes 
Era um amor que crescia em progressões geométricas quase inexplicáveis.. 
Amavam-se muito e mais e, quanto mais amavam, mais queriam amar.. 
Amavam-se absurdamente e de um amor assim, grande e eloquente, amaram-se sempre.. 
Amaram-se irremediavelmente.. 




domingo, 10 de julho de 2016

Poeminha do amor desiludido






Desiludiu-se tanto o amor, que se jogou do alto da escada..
Deixou esse monte de coisas inúteis e um pranto que verte vazio.. 
Ficaram também esses três gatos tristes, um piano empoeirado e algumas flores murchas.. 
Há tempos o amor parecia flertar com a morte e, desta vez, sim, a desilusão era intransponível. 
Agora a tristeza era tanta que não suportaria o amor nem as próximas auroras.. 
Quisera partir e, num bilhete estúpido, escrevera seu pequeno legado.. 
"Quis morrer na escada. Carrega contigo a culpa."
E assim se fora o amor. 
Amores desiludidos são como barcos frágeis, cuja única vela, nalguma tempestade se quebrara. 
Amores desiludidos são como as velhas flores que vão morrendo, murchando lentamente.. 




quinta-feira, 7 de julho de 2016

Poeminha do amor amarelo



Não era azul o amor, 
Era amarelo - Travessia de outono
(entre os ocres e os verdes)
Tinha lá uma leve singeleza como as folhas levadas 
E uma brisa que soprava na direção leste 
Era tão inocente o amor, que jovem ainda, pulava os muros da escola só para ver a amada.. 
Não tinha nenhum remendo e não acalentava mágoa alguma 
Era tênue e miúdo, quase margaridinhas mágicas.. 
Era um amor tão belo, tão singelo que se tornara amarelo.. 

(Dos 23 poemas de amor)  
07/julho


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Poeminha do amor atroz





Amava-a tanto, tanto, tanto 
Que tornou-se, com o passar dos anos, um monstro cruel.. 
Prendera o amor no quarto escuro.. 
Deixara-o lá, 
Fazia-lhe o jantar, 
Dava-lhe afagos, 
Beijava-o. 
Beijava tristemente o amor com uma espécie de carinho atroz.. 
Não suportava a ideia de que alguém, um pedra que fosse, visse seu amor à luz do dia.. 
E assim, vivia o amor, enclausurado no escuro da casa.. 
Já não havia distinção entre sóis e luas.. 
A clausura era diminuída quando, no fim do dia, o beijo cruel a beijava..
E ela rezava por aquele instante do dia - os momentos em que a clausura era menos clausura
e brilhava nela certo sorriso pueril.. 
Ela o amava.. 
Amava o amor atroz..
Acostumara-se às migalhas do dia e do afago.. 
Acostumara-se às terríveis atrocidades do amor.. 
Certa tarde, o homem providenciara sua soltura. 
Mostrou-lhe o sol e a rua.. 
As flores e a primavera.. 
Desatou os grilhões azuis que a prendiam esperando que o amor o deixasse.. 
Mas ficou ela ali, estática, à espera do beijo atroz.. 
Amava-o, amava-o pura e simplesmente 
De um amor feroz, feroz e indecente.. 

(Dos 23 poemas de amor)

06/julho 



terça-feira, 5 de julho de 2016

Poeminha do amor ao contrário


Como são tristes os desamores 
Os ex-amores, os ex-maridos 
Todos aqueles amores que se desfazem como velhos linhos apodrecidos.. 
Os corações que se tornam metades perdidas  - imensamente perdidas do outro.. 
E tudo é desilusão e medo num desamor.. 
Tudo é dor, lágrimas e ontens.. 


Sempre doídos e inquietantes são os desamores - 
Pequenas feridas abertas que ainda sangram na chegada do outono.. 
Desamores são locomotivas sem freio e fim.. 
Hão de sempre cruzar nossa espinha 
Hão de sempre inquietar a alma 
Desamores são tristes metades à espera de algum coração distraído.. 

(Dos 23 poemas de amor)

05/julho



Poeminha do amor singelo






Como são singelos os amores dessa vida,
Singelos e frágeis como folhas de outono caídas na calçada.. 
Amores de uma delicadeza única, Amores que parecem não suportar as atrocidades deste mundo.. 

Há de se cuidar do amor com dedos de acalanto..
Há de se tratar com zelo o amor amado..
E sobretudo há de se ter gestos mansos.. 
Para que não morra o amor, este mesmo amor, de uma morte violenta e anunciada.. 
(Dos 23 poemas de amor) 
4/julho



domingo, 3 de julho de 2016

Poeminha do amor apaixonado



E então me apaixonei - mera distração!!!
Me apaixonei como se apaixonam pela morte os suicidas no trágico instante. 
De uma paixão quase sempre cega, cega e burra.. 
Como sempre apaixonantes são nossas próprias metades idealizadas.. 
Me apaixonei como se apaixonam as flores pela primavera..
E te amei com um amor enfurecido, feito dessa paixão desmedida, sem razão, imersa no cólera e na vida.. 
E da paixão sem fim, nascera enfim este grande amor sem sim..


 (Dos 23 poemas de amor) 



Poeminha do amor espantado



Como são espantosos os amores que chegam de repente, 
Os amores cujos amantes são  abençoados no ínfimo instante.. 
Aqueles amores que se cruzam nalguma esquina encantada, 
Que chegam como outonos silenciosos..  
Os amores que se amam na metafísica, sem seguir jamais qualquer lógica..  
Um amor ou nenhum amor.. 
Todos os amores.. 
Qualquer amor, por mais diferente, sempre surpreendente será.. 
Porque surpreendente são os encontros que fizemos ao longo da vida.. 
E a gente fica, às vezes, a observar a vida como transeuntes que observam a rua - inertes.. 
Se o amor chegar em forma de espanto ou de algum mágico atropelo, não o desperdice, meu amigo 
Amores e espantos são trens disfarçados de suspiros.. 


(Dos 23 poemas de amor)


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Poeminha do amor morrido




E te amei desde o primeiro minuto.. 
Aquele minuto incerto no qual se dividira a vida - o antes e o depois de ti.. 
E te amei com devoção 
com o mesmo carinho com o qual se amam os amantes no último encontro 
Te amei como a um filho cuja vida finda no cólera.. 
Como aqueles que perdem a visão nalgum acidente estúpido.. 
Aqueles que se amam sem necessidade ou afazer 
Que se amam, enfim, do amor nascido 
e um dia, quiçá, desse mesmo amor morrido.. 

Sinfonia para um homem bom




Porque quando choras pareces verter teus Nilos enclausurados 
São tantos os grilhões a sufocar-te, homem 
Que eu prefiro te ver assim, inerte ao teu próprio tempo.. 
Esse mesmo tempo que muda tudo e a todos.. 
Que sucumbe as horas dessa vã existência 
Essa implacável ampulheta a que batizamos de vida.. 
E tu te vais e choras 
E choras tuas lágrimas de sal e pó 
Tuas vertentes ininterruptas 

Que dizer de ti, homem bom.. 
Que és único 
Que és raro 
Que morres quase esquecido 
Abandonado como doente nalgum leprosário infame 

Que dizer de ti, ó homem.. 
Que és um guri, que nalgum lugar escondes teu riso pueril 
Que te mostras moleque 
Que sonhas com as bolitas coloridas 
Que queres mesmo é o colo de acalanto da tua mãe. 
Para ti homem bom é que escrevo essas ínfimas linhas 
Para que não morras sem lê-las 
para que em tua memória soem esses versos como sinfonias em dó menor.. 


Para meu tio, Ernesto..


Das névoas e suas nuances



E eis que acordam as neblinas nos seus sonhos de montanhas.. 
E invadem as encostas como amantes sem pudor.. 
E sem nenhuma cerimônia mudam a paisagem das janelas e adentram devassas os horizontes.. 
É na névoa que habitam os velhos fantasmas e os antigos amores,
Pequenas fumaças desavergonhadas que ficam ai, à espreita, 
tentando assustar algum visitante desprevenido..