quarta-feira, 6 de julho de 2016

Poeminha do amor atroz





Amava-a tanto, tanto, tanto 
Que tornou-se, com o passar dos anos, um monstro cruel.. 
Prendera o amor no quarto escuro.. 
Deixara-o lá, 
Fazia-lhe o jantar, 
Dava-lhe afagos, 
Beijava-o. 
Beijava tristemente o amor com uma espécie de carinho atroz.. 
Não suportava a ideia de que alguém, um pedra que fosse, visse seu amor à luz do dia.. 
E assim, vivia o amor, enclausurado no escuro da casa.. 
Já não havia distinção entre sóis e luas.. 
A clausura era diminuída quando, no fim do dia, o beijo cruel a beijava..
E ela rezava por aquele instante do dia - os momentos em que a clausura era menos clausura
e brilhava nela certo sorriso pueril.. 
Ela o amava.. 
Amava o amor atroz..
Acostumara-se às migalhas do dia e do afago.. 
Acostumara-se às terríveis atrocidades do amor.. 
Certa tarde, o homem providenciara sua soltura. 
Mostrou-lhe o sol e a rua.. 
As flores e a primavera.. 
Desatou os grilhões azuis que a prendiam esperando que o amor o deixasse.. 
Mas ficou ela ali, estática, à espera do beijo atroz.. 
Amava-o, amava-o pura e simplesmente 
De um amor feroz, feroz e indecente.. 

(Dos 23 poemas de amor)

06/julho 



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