quinta-feira, 14 de julho de 2016

Poeminha do amor covarde



Fossem ventosas ou tempestuosas, todas às terças-feiras, às 14 horas, partiria o amor ao encontro da amada..
Nos últimos 3 anos era aquele o enredo do dia.. 
Fazia a barba, 
Desinforma-se lendo o jornal, 
Fumegava um café escuro e partiria para o mesmo velho hotel que ficava na discreta rua dos conventos, número 115.. 

O quarto era de poucos elementos, um dossel ao estilo vitoriano, uma poltrona de um carmim encardido e uma velha cômoda para os poemas.. 
Com uma nudez desconcertante, o esperava a amada.. 
Não queria ela seu corpo, tinha fome de poemas.. 
Era a poesia do amante que a saciava da completa inanição.. 
E o amante punha seu óculos e declamava horas a fio o produto de árdua escrita - os  inumeráveis e exaustivos versos de amor.. 

Naquela tarde porém não quisera ela que fossem lidos os poemas, 
Parecia triste, chorosa.. 
Parecia querer sumir ou morrer ou andar por aí feito uma louca nua.. 
Pediu-lhe só um abraço e um último verso de amor. 
E assim o fez, a colocou nos braços  e escreveu o verso final..
"Sempre meu será seu amor. Amo-te assim. Assim minha. Assim morta.." Escrevera ele em tinta carmim.. 
Matara o amor.. 
Matara bruta e covardemente como matam todos os amantes atrozes, 
Como matam, na crueza da vida, os mal-amados e os que não sabem amar.. 

(Dos 23 poemas de amor) 



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