domingo, 2 de outubro de 2016

Poeminha do amor faminto



Era tão saudoso aquele amor que chegava a doer n'alma.. 
Era feito de uma saudade oxidada.. 
Misturava-se ao álcool e ao breu.. 
Vivia na clausura relembrando o amor perdido, 
E também perdido ficara ele, 
envolto em sombras e escombros
Ele mesmo era uma ruína.. 
Nunca mais se recupera da perda..
Tornara-se cético e amargo..

A saudade era tanta que a sentia no vento, 
que a inventava noutras mulheres.. 
A procurava nos bordéis e no cais.. 
A procurava até nas nuvens.. 
Era tão surreal aquela saudade que se tornara mendigo de qualquer amor..
Qualquer restinho, qualquer migalhinha  já era um alento ao coração doído.. 
Começou ele a pedir amor a qualquer um, amor e um pouquinho de afago
Mendigava no centro da cidade, lá pelos arcos da Lapa.. 
Um chapéu velho, umas roupas mal cozidas e umas letras no papel onde se lia a palavra FAMINTO..
Recusava a comida que lhe davam, não sabiam eles que amor era o alimento que lhe faltava.. 


(Dos 23 poemas de amor)





sábado, 1 de outubro de 2016

Poeminha para o fim do desamor






O fatídico dia acontecera..
Não houvera mais "bons dias" nem "boas noites"
Tampouco boas horas houvera naquele ínterim.
Era o fim. 
O já tênue fio de amor escoara pelo esgoto.. 
Fora embora, sem mais delongas, o amor de outrora.. 
Fora para a rua respirar o que haveria de novo na calçada..
O amor se fora, cansado da batalha, 
Carregava um casaco puído e um olhar de Sísifo acabado.. 
Não restara nada..
Só um olhar empalidecido e um corpo flácido e desistimulado.. 

Aqueles derradeiros dias consumiram o que ainda havia de alma naquele amor.. 
Eram fadados ao fracasso, há muito diziam os amigos.. 
Eram nocivos um ao outro.. 
Eram água e vinho, 
Ébano e esmeralda.. 
Quando o fim chegou, respiraram aliviados os amantes..
O fim era algo cuja ciência há muito já prevera.. 
Cansaram de insistir os dois.. 
Cansaram de ouvir à exaustão o dó menor na longa sinfonia..  
O fim, naquela altura da vida, era o milagre.. 
E já não se sabia mais o que seria o epílogo, o que seria o prelúdio.. 
Quando a porta do fim abriu, a felicidade já os esperava na calçada.. 


(Dos 23 poemas de amor)