segunda-feira, 31 de julho de 2017

Poema do amar caduco





É um amor de muitos anos, 
Um amor de muitas rugas e algumas perdas.. 
É um amor quase velho, marcado pelas idas do tempo.. 
E, principalmente, é um amor de longe.. 
Feito nas distâncias, nas estradas, nos quilômetros que parecem pequenas imensidões.. 
São os amantes, para além das lonjuras e dos ínterins, insistentes Sísifos teimosos.. 
Conhecem bem seus corpos, suas peles, suas reentrâncias.. 
A cama é o altar onde se reconhecem. 
É um amor táctil, feito de braile..  
Desenhado nos ângulos e curvas de seus corpos.. 
Anelam-se as mãos, 
Tangenciam-se os dorsos 
Enroscam-se no outro.. 
E, sobretudo, amam-se.. 
Amam-se os amantes, 
Amam-se, mas não se sabem.. 


(Dos 23 poemas de amor)


Os amantes - Chagall

Esse mundo - um lugar horrível pra se viver!!!




Esse mundo é um lugar horrível pra se viver.
Há de se inventar novos arrabaldes
há de se imaginar outras gaiolas..
Novas gaias de céus incrivelmente amarelos..
Macondos, novos Macondos para se viver..

Esse mundo é um péssimo local pra se viver
Há muros por todas as partes,
Há pessoas más e uma quantidade surreal de desonestos
Há prostitutas, profetas e políticos..
Milhões de "P"s de uma podridão sem conserto..

O mundo, esse péssimo mundo..
Onde há gente corrupta, há gente estúpida e há gente que sobrevive
Onde há caminhos e a falta deles.
E onde há lisiantos, astromélias e margaridas amarelas..

Esse mundo é um lugar horrível pra se viver..
Há os Gabrieis, os Guimarães, os Pessoas..
Há Macondo, Pasárgada, Alhures..
E há também um Desmundo - esse mesmo mundo ao contrário -
Sim, um Desmundo..
Um Desmundo para todos aqueles cansados desse mundo..
Para todos aqueles que, assim como eu, sonham dias como poemas e estrelas e girassóis..



"Porque eu sinto.
O mundo externo claramente vejo - 
Coisas, homens, sem alma."

Ricardo Reis, in "Odes"


Bosch - Jardim das Delícias



Porque inverno e inferno é só 
uma questão de grafia.. 


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Poeminha do amor esquecido






Há anos esquecido na gaveta 
Era um poema o amor.. 
Faltava-lhe um pequeno interregno 
Um fim que lhe parecesse digno 
O amor ficara esse tempo todo em suspenso 
Preso por um fio nalguma nuvem qualquer 
Milagrosamente esperando o dia em que o poeta cansado finalmente o terminasse 
Mas era sua própria história que o poeta insistia em não findar.. 
Era o amor sufocado por anos que o poeta não desejava libertar.. 
Sabia ele o significado de desenhar aquelas poucas linhas no poema.. 
E o poeta, na sua humanidade corriqueira, de altruísmo nada vestia.. 
Como todos os seus pares, egoístas e mimados.. 
Não escreveria ele um fim.. 
Não conceberia a libertação ao amor enclausurado no poema.. 
Ficaria para sempre o amor escondido na gaveta.. 
Um amor só dele, vil, egoísta e mesquinho.. 


(Dos 23 poemas de amor)