sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Tormentas







Nas minhas mãos de primavera, eu adormeço a chuva.. 
Eu, aquela que apanha tempestades.. 
Aquela que sacia a sede com o sabor ocre da terra..
Aquela que planta procelas e colhe erupções.. 
Eu, 
que me visto de menina pra apanhar vagalumes distraídos.. 


(Certa vez, quis ser poeta, 
E quis, sim, ser poeta, nunca uma poetisa.. 
Como se não coubessem às mulheres também a escrita.. )


Quando enfim, quis, não por escolha, 
mas por distração exercer o caminho da poesia, 
disseram-me os sábios pudicos "de nada serve, poesia é como contar parafusos"
Mas a mim, senhores, coube ser poeta.. 
Porque a mim também coube certa inquietude.. 


Desenho versos para aplacar sentimentos que, às vezes, parecem incendiar minhas próprias vísceras 
Desenhos linhas como quem manipula um bisturi, douto no fatalismo dos cortes.. 
Pinto versos como quem colore um monograma.. e, quem sabe seja eu o monograma - essa poeta de pele entardecida.. 
Eu desenho versos na esperança única de encontrar pela estrada um poema perdido 
Não para lhe dar alento e um copo de água.. 
Mas sim, para afagar-lhe a testa como quem acaricia seu único filho.. 

Desenho versos na esperança de, um dia quiçá, no grande oceano dos fonemas achar-me naufraga!!! 


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Tu






E tens me trazido insônias..
Tu e esse teu olhar de oriente 
Tens me feito desassossego quando em mim havia serenidade
Tens me feito tua quando antes outro não havia.. 



Talvez sejas tu a continuidade
Talvez sejas tu o enésimo recomeço 
Já não sei.. Já não me sei.. 
Às vezes vejo teu retrato e penso aí estar a vida, 
Penso em ti e me sinto perdida, absolutamente perdida de mim.. 
É de ti procurar-me.. 





segunda-feira, 31 de julho de 2017

Poema do amar caduco





É um amor de muitos anos, 
Um amor de muitas rugas e algumas perdas.. 
É um amor quase velho, marcado pelas idas do tempo.. 
E, principalmente, é um amor de longe.. 
Feito nas distâncias, nas estradas, nos quilômetros que parecem pequenas imensidões.. 
São os amantes, para além das lonjuras e dos ínterins, insistentes Sísifos teimosos.. 
Conhecem bem seus corpos, suas peles, suas reentrâncias.. 
A cama é o altar onde se reconhecem. 
É um amor táctil, feito de braile..  
Desenhado nos ângulos e curvas de seus corpos.. 
Anelam-se as mãos, 
Tangenciam-se os dorsos 
Enroscam-se no outro.. 
E, sobretudo, amam-se.. 
Amam-se os amantes, 
Amam-se, mas não se sabem.. 


(Dos 23 poemas de amor)


Os amantes - Chagall

Esse mundo - um lugar horrível pra se viver!!!




Esse mundo é um lugar horrível pra se viver.
Há de se inventar novos arrabaldes
há de se imaginar outras gaiolas..
Novas gaias de céus incrivelmente amarelos..
Macondos, novos Macondos para se viver..

Esse mundo é um péssimo local pra se viver
Há muros por todas as partes,
Há pessoas más e uma quantidade surreal de desonestos
Há prostitutas, profetas e políticos..
Milhões de "P"s de uma podridão sem conserto..

O mundo, esse péssimo mundo..
Onde há gente corrupta, há gente estúpida e há gente que sobrevive
Onde há caminhos e a falta deles.
E onde há lisiantos, astromélias e margaridas amarelas..

Esse mundo é um lugar horrível pra se viver..
Há os Gabrieis, os Guimarães, os Pessoas..
Há Macondo, Pasárgada, Alhures..
E há também um Desmundo - esse mesmo mundo ao contrário -
Sim, um Desmundo..
Um Desmundo para todos aqueles cansados desse mundo..
Para todos aqueles que, assim como eu, sonham dias como poemas e estrelas e girassóis..



"Porque eu sinto.
O mundo externo claramente vejo - 
Coisas, homens, sem alma."

Ricardo Reis, in "Odes"


Bosch - Jardim das Delícias



Porque inverno e inferno é só 
uma questão de grafia.. 


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Poeminha do amor esquecido






Há anos esquecido na gaveta 
Era um poema o amor.. 
Faltava-lhe um pequeno interregno 
Um fim que lhe parecesse digno 
O amor ficara esse tempo todo em suspenso 
Preso por um fio nalguma nuvem qualquer 
Milagrosamente esperando o dia em que o poeta cansado finalmente o terminasse 
Mas era sua própria história que o poeta insistia em não findar.. 
Era o amor sufocado por anos que o poeta não desejava libertar.. 
Sabia ele o significado de desenhar aquelas poucas linhas no poema.. 
E o poeta, na sua humanidade corriqueira, de altruísmo nada vestia.. 
Como todos os seus pares, egoístas e mimados.. 
Não escreveria ele um fim.. 
Não conceberia a libertação ao amor enclausurado no poema.. 
Ficaria para sempre o amor escondido na gaveta.. 
Um amor só dele, vil, egoísta e mesquinho.. 


(Dos 23 poemas de amor)